Jack White continua sua renascença artística em 'Frozen Charlotte'
Músico americano se aproveita de sua banda de turnês estar afiada para construir grooves contagiantes complementares a seus riffs
A primeira década da carreira solo de Jack White pareceu decepcionante aos fãs devido à expectativa. O músico que rejuvenesceu o rock nos anos 2000 com White Stripes e Raconteurs agora estava livre de qualquer amarra. O resultado foi cinco álbuns irregulares, com momentos de qualidade soterrados por experimentos duvidosos e conceitos mal elaborados. Isso tudo vindo de um dos maiores gênios de identidade visual da história do gênero parecia errado.
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Aí veio No Name (2024) e os fãs sentiram como se estivessem sido transportados no tempo. As músicas foram despidas de todo artifício. Jack retornou à mistura de blues e garage rock que o fez famoso. Todos adoraram porque aquele material lembrou o público de como White, no seu dia bom, é capaz de ser o rockstar mais incendiário do planeta.
Agora ele retornou com outra oferenda semelhante. Jack é de Detroit, berço da indústria automobilística americana, então tem conhecimento inato de que não precisa reinventar a roda. Basta apenas recorrer a um jogo de pneus muito bom. Frozen Charlotte (2026) é isso.
https://www.youtube.com/watch?v=frllg0c6rEk
Gravado durante uma pausa na agenda de shows com sua banda ao vivo atual — que consiste de Patrick Keeler (bateria), Dominic Davis (baixo) e Bobby Emmett (teclados) —, o álbum é prova do poder de um grupo afiado. Os riffs de White sempre são potentes, mas em Frozen Charlotte fazem parte de grooves contagiantes.
Keeler, em particular, é uma arma secreta dessa renascença criativa. O baterista já havia trabalhado com Jack no Raconteurs e, antes disso, no álbum Van Lear Rose (2004), da lenda country Loretta Lynn, produzido por White. Fãs do cantor e guitarrista consideram Patrick talvez o melhor instrumentista com quem ele já trabalhou — e um dos aspectos mais evidentes de Frozen Charlotte é o papel da bateria.
Desde os tempos do White Stripes, as melhores composições de Jack White exploram a comunicação entre instrumentos. Apesar de ser criticada por seu estilo primitivista, Meg White se tornou icônica porque era mestre de tensão e diálogo com a guitarra através de sua bateria. Patrick Keeler, embora não possua o mesmo carisma, consegue algo parecido.
Entretanto, nem tudo é perfeito. Apesar dos grooves serem contagiantes, quando a audição termina, metade das faixas do álbum não causaram impacto duradouro no ouvinte além de sua duração. Os pontos mais altos de Frozen Charlotte são justamente os momentos nos quais White deixa um pouco o blues de lado e abraça mais o lado garage.
https://www.youtube.com/watch?v=KI-xqKQqgsY
"Raising the Grain" traz uma batida sincopada estilo Bo Diddley na introdução que prende a atenção em meio a metáforas de carpintaria misturadas com imagens bíblicas. "Dollar Bill" tem as melhores guitarras do álbum, uma mistura de slide com o efeito de tremolo harmônico, criando uma textura pantanosa no riff principal. "I Can't Believe What I'm Hearing" por sua vez remete a bandas de garage rock dos anos 60 como The Creation e Love.
As letras do disco também merecem atenção porque além das canções de amor, Jack White tenta abordar várias questões relacionadas ao mundo moderno. Consumismo é um tema recorrente no álbum, além de xenofobia, imigração e a desvalorização da arte. "Making Contact" trata explicitamente sobre como tudo virou conteúdo na sociedade atual e a expectativa é que o ser humano desista de pensar no tempo livre, terceirizando essa atividade para tecnologia:
"Have the computer be my ears and eyes
So many numbers to memorize
Too many brain cells to hypnotize
The cells arе dead, but I feel alive"
"Que o computador seja meus olhos e ouvidos
Tantos números para memorizar
Células cerebrais demais para hipnotizar
As células estão mortas, mas eu me sinto vivo"
https://www.youtube.com/watch?v=ZR_zDHapkG4
No fim das contas, a grande falha de Frozen Charlotte nem está no álbum em si e sim no contexto geral do seu lançamento. Se trocasse de lugar com No Name na discografia de Jack White, talvez seria visto como uma obra-prima tardia que reviveu a relevância do artista junto ao público rock. Contudo, precisa se contentar apenas em ser um disco muito bom de alguém numa fase prolífica. Não é uma roda 2.0, mas todo mundo gosta de um jogo de pneus de qualidade.
https://open.spotify.com/album/0VV4lddlDaShTgEzohQ7Jj
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