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Em 1979, Roberto Carlos barrou biografia na Justiça pela 1ª vez

'O Rei e Eu - Minha Vida com Roberto Carlos', livro escrito por seu ex-mordomo Nichollas Mariano, enfrentou batalha nos tribunais e vendeu pouquíssimos exemplares; relembre

28 nov 2021 17h41
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Roberto Carlos tem uma relação complexa com biografias. O caso mais lembrado pelo público envolveu Roberto Carlos em Detalhes, escrita por Paulo Cesar de Araújo. Em 17 de janeiro de 2007, quando a obra já havia sido distribuído para diversas livrarias, o cantor entrou com um pedido de busca e apreensão do material. Cinco dias depois, os exemplares foram retirados das prateleiras e guardados em um galpão, por ordem judicial.

Sete anos depois, em 2014, o mesmo autor publicou O Réu e o Rei - Minha História com Roberto Carlos, em Detalhes, sobre o caso. Com medo de novas ações judiciais, a Companhia das Letras optou por não fazer divulgação prévia, à época. Em 6 de dezembro de 2021, Araújo lançará Roberto Carlos Outra Vez, obra que abrange a trajetória do músico entre os anos de 1941 e 1970 ( para ler mais detalhes). Ainda não se sabe a opinião do 'Rei' a respeito da nova obra, mas Araújo já planeja outro volume, desta vez englobando até o ano de 2021.

Porém, a tumultuada história de Roberto Carlos com publicações a seu respeito teve início com o livro O Rei e Eu - Minha Vida com Roberto Carlos, que seria lançado em dezembro de 1979 (à época, o artista tinha 38 anos) por Nichollas Mariano.

Em matéria do Estadão publicada em 1966, Mariano era descrito como "mordomo, acompanhante, secretário, 'public-relations', cabeleireiro particular, fac-totum [faz tudo]" do cantor. Os dois se conheceram na Rádio Carioca, onde Nichollas trabalhava como DJ, em 1960. Ficaram próximos e, posteriormente, Roberto chamou o amigo para trabalhar para ele.

Em 1967, Mariano tentou embarcar no sucesso da Jovem Guarda e lançou o disco Não Adianta Nada, sem sucesso. A contracapa trazia um texto assinado pelo próprio Roberto Carlos: "Esse é o Nichollas, mora! O jovem promete muito e sua voz transmite. Sua música vai ser a lenha! Ouçam com carinho e atenção esse primeiro compacto do meu amigo Nichollas. Vocês vão entrar na onda dele". A amizade chegou ao fim em 1971, quando Roberto não teria gostado de comentários feitos por Nichollas sobre sua mulher, Nice.

À época, travou-se uma batalha judicial desde antes do lançamento até fevereiro de 1981. A tiragem inicial, que seria de 70 mil exemplares, foi impedida de ser vendida por conta de uma liminar em São Paulo. Roberto Goldkorn, então dono da Editora Gráfica Edipan Ltda., pela qual a obra seria lançada, decidiu fazer novos exemplares após a apreensão e viajou ao Rio de Janeiro, já que a decisão valeria somente para o Estado vizinho.

O Rei e Eu chegou a ser vendido em bancas de jornal por cerca de três dias antes de ser novamente impedido. Goldkorn ainda chegou a vender exemplares indo sozinho à Avenida Rio Branco e oferecendo-os a quem passasse por lá durante mais algum tempo. Porém, foi expedida uma ordem de prisão e o editor se escondeu até que seu advogado conseguisse reverter o pedido. Os livros apreendidos foram incinerados em um crematório de São Paulo. Os poucos exemplares que ainda circulam costumam ter preços elevados por conta da raridade.

Em reportagem do Estadão em 28 de fevereiro de 1981, consta que Jece Valadão chegou a adquirir os direitos para transformar o livro em filme, mas foi avisado formalmente pela equipe de Roberto Carlos de que isso não seria possível.

Ao Estadão, em 2013, Goldkorn lembrou que no período da polêmica precisou contratar um segurança para Mariano, que recebia telefonemas ameaçadores de fãs alertando para que "cuidasse bem de seus filhos". O editor ainda destacava que tentou contatar colegas de Roberto para apaziguar a situação: "Todos me viraram as costas. É impressionante o corporativismo dessa classe. A única que me recebeu foi a Wanderléa. Ela tentou interceder, mas voltou dizendo o seguinte: 'Roberto odiou o livro'."

O próprio editor revelou se arrepender da publicação décadas depois. "Se alguém chegasse hoje com este livro querendo publicar eu não o editaria novamente. Eram informações que não iriam melhorar a vida de ninguém. Foi algo que fizemos para ganhar dinheiro, mas nem sempre os fins justificam os meios. Não censuraria quem viesse a fazer. Para ser bem sincero, talvez eu me arrependa um pouco", contou ao Uol, em 2013.

Nichollas Mariano, que passou muitos anos longe dos holofotes, deu as caras em uma entrevista ao canal de YouTube FC Discos em setembro de 2021. Aos 76 anos de idade, o ex-mordomo revelou que pretende escrever um novo livro, por enquanto intitulado Esse Cara Fui Eu. "Por que Esse Cara Fui Eu? Porque eu fui procurador do Roberto Carlos durante oito anos. Eu tinha o direito de assinar cheques, documentos, contratar tudo que você pode imaginar. Na verdade, eu 'era' o Roberto Carlos", explicou.

"Vou mostrar o processo que respondi proveniente do Rei e Eu, o filme que estava para ser lançado com o Jece Valadão, o José Louzeiro. Vou contar do Silvio Santos. Quando meu livro estava proibido, [aconteceu] uma coisa engraçada: numa rádio em São Paulo, ele começou a ler o livro. Aí o Saulo Ramos, que era advogado do Roberto Carlos, entrou com pedido para que ele não lesse. Ele [Silvio] disse: 'Não. O livro tá proibido de ser vendido, não de ser lido!'", continuou Mariano.

Em entrevista ao Fantástico, em 2013, o próprio Roberto Carlos falou sobre a questão das biografias não-autorizadas. Questionado se o caminho judicial em casos de calúnia ou difamação já não bastariam caso o biografado se sentisse afetado por um livro, discordava: "Só que aí o resultado vem um pouco tardio, depois que todo mundo já leu, já viu pela internet, alguns já compraram os livros que foram colocados à venda. Isso não funciona, muito, não".

"Há algum tempo, para a gente proteger o direito à privacidade, só existia uma forma: não permitir uma biografia não-autorizada", justificava o 'Rei' sobre suas atitudes. "O biógrafo pesquisa uma história que está feita - feita pelo biografado. Na verdade, ele não cria uma história, ele faz um trabalho e narra aquela história que não é dele, é do biografado. E a partir do que ele escreve, ele passa a ser dono dessa história. Isso não é certo", concluía.

Estadão
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