Documentário analisa carreira, alegria e a imagem deixada por Jair Rodrigues
Longa dirigido por Rubens Rewald traz depoimentos da família e de colegas de trabalho do cantor de 'Disparada'
Se o cantor Jair Rodrigues (1939-2014) tivesse apenas protagonizado a interpretação da canção Disparada no 2.º Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, já seria um grande feito para um rapaz negro, nascido no interior de São Paulo, que aprendeu a cantar na igreja e burilou sua técnica em boates e dancings da capital antes de vencer um festival - o equivalente, à época, a uma final de campeonato de futebol.
No entanto, Jair foi muito mais além daquela noite de 1966 - e mais longe ainda do que qualquer estripulia que fazia nos palcos. É justamente o que pretende mostrar o documentário Jair Rodrigues - Deixem Que Digam, que chega aos cinemas nesta quinta, 27.
A produção não começou a tempo de ter Jair vivo para contar sua própria história. Porém, no documentário, ele revive, ou melhor, o músico Jair de Oliveira, seu primogênito, o interpreta com maestria para narrar trechos que não estão documentados em imagens. "A ficção, dentro do documentário, é mais uma camada na narrativa. A ideia era levar o espectador para dentro de um show de Jair, mostrar o jeito descontraído como ele contava fatos de sua vida", explica o diretor.
Para Jairzinho, representar o pai reforça algo que o cantor sempre prezou fora dos palcos. "Ele era um cara essencialmente família", diz o músico.
O diretor tomou cuidado para que a alegria de Jair - expressa em cenas em que ele planta bananeira no palco ou literalmente se joga no meio do público durante uma apresentação em Salvador - não lhe confira, para as novas gerações, o título de mero cantor bufão. A discussão ocupa longos minutos do documentário.
MARCO. O disco Festa Para Um Rei Negro, de 1971, mesmo nome de um dos maiores sucesso da carreira de Jair, é apontado como um marco em sua carreira pelo educador Salloma Salomão, um dos ouvidos por Rewald para o longa.
"Esse disco está relacionado a uma tentativa de Jair de construir para si o diferencial de um artista negro dentro da música brasileira. São canções que bebem em práticas negras que antes eram vistas como folclore", explica Salomão no documentário. Por isso, mais do que ver Jair, é preciso ouvi-lo com atenção.
Uma ausência sentida entre os convidados a falar ao documentário - ou nome a ser citado - é a do produtor Manoel Barenbein. Ele trabalhou com Jair entre 1967 e 1971, período crucial na carreira do cantor, quando o programa O Fino da Bossa chegou ao fim e Jair e Elis Regina, sua parceria de televisão, tiveram de, separadamente, procurar suas respectivas turmas dentro da música.
Barenbein, atualmente com 80 anos, produziu o disco que traz Festa Para Um Rei Negro, e recolheu canções inéditas para o repertório de Jair.
Crítica: História mostra que o Jair Rodrigues poderia ser um ídolo ainda hoje
Luiz Zanin Oricchio, especial para o Estadão
Jair Rodrigues foi um ícone da música brasileira. O documentário de Rubens Rewald Jair Rodrigues - Deixa que Digam explica o porquê. E sugere que Jair pode ainda ser um ídolo para os dias de hoje. Para Jair, como para Oswald de Andrade, a alegria é a prova dos nove - e ela anda em falta.
Basicamente, os materiais de construção do documentário são as múltiplas imagens do cantor em programas de TV, festivais e entrevistas. Jair construiu sua trajetória artística na era da TV, o que torna esse material abundante. Temos também os depoimentos, de Solano Ribeiro, o pai dos festivais, a músicos como Hermeto Paschoal e Théo de Barros e a um especialista do porte de Zuza Homem de Melo.
É um filme elogioso ao personagem? Sim, e também empolgante. Para as gerações mais velhas traz de volta os bons momentos da MPB em tempos difíceis. Para as mais novas, apresenta algo que talvez desconheçam - por exemplo, o entusiasmo catártico da era dos festivais num país oprimido pela ditadura.
Jair Rodrigues foi um grande cantor popular e fez história em festivais, em especial naquele que consagrou Disparada, a inspirada canção de Geraldo Vandré e Théo de Barros. Esse é um ponto de inflexão na trajetória de Jair e desse modo é tratado na dinâmica do documentário.
Nascido e criado no interior de São Paulo (Igarapava e Nova Europa), Jair consagrou-se como cantor de sambas. Era pura alegria no palco, em especial em duo com Elis Regina no mitológico programa O Fino da Bossa. A parceria gerou a gravação de três LPs, um deles superando o milhão de cópias vendidas.
No entanto, quando foi preciso escolher um intérprete para Disparada, o nome de Jair foi de início vetado por um dos compositores, Geraldo Vandré. Para Vandré, a canção de protesto não harmonizava com a imagem de um cantor sempre alegre, irreverente, de sorriso largo.
Porém a escolha se impôs e Jair Rodrigues, cavando em suas raízes interioranas, encontrou o drama e a pulsão para se tornar o intérprete ideal dessa canção emocionante e que fez história na MPB. A estrutura do documentário pode ser tradicional, mas o personagem é multifacetado.
Onde assistir: em São Paulo, o filme estará em cartaz nos cinemas Reserva Cultural, Petra Belas Artes Espaço Itaú Frei Caneca e Cinesystem Morumbi Town