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Como e por que Ravel, nascido há 150 anos, se tornou uma mina de hits clássicos

Além de 'Bolero': existe uma obra notável de Ravel em cada gênero - dos concertos para piano às obras orquestrais, da música para piano solo à música camerística, das canções à ópera; conheça sua história e ouça três obras icônicas

5 mar 2025 - 20h10
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Cento e cinquenta anos atrás, no dia 7 de março de 1875, nascia Maurice Ravel na pequena cidade de Ciboure. Na época, como hoje, a cidadezinha tinha 6 mil habitantes e era simultaneamente francesa e basca. Seu nome tanto é pronunciado à francesa, cibure, quanto ziburu, em basco.

Filho de pai francês e mãe basca, ele mesmo considerava-se etnicamente exótico. Na verdade, o pai francês casou-se em 1873 com Marie Delouart, basca. Três dias depois, o casal instalou-se em Paris.

Mas, como era costume entre os bascos imigrados, quando engravidou Marie retornou a Ciboure, onde deu à luz o menino. Três dias depois do parto, a família retornou a Paris. Maurice buscou uma Espanha ideal a vida toda. Sobretudo a do País Basco. Dos 30 anos em diante, visitava todo ano sua Ciboure natal; afeiçoou-se inclusive ao medieval jogo da pelota basca.

Maurice Ravel foi um compositor eclético e completo
Maurice Ravel foi um compositor eclético e completo
Foto: Acervo Estadão / Estadão

Aos 14 anos, começou a estudar no Conservatório de Paris, e lá encontrou um de seus mestres mais amados, Gabriel Fauré, que lhe deu aulas de composição. Encadeou uma penca de obras notáveis para piano: Jeux d'eau, Miroirs, Alborada del gracioso, Gaspard de la Nuit, Valses Nobles et Sentimentales e duas obras-primas para piano a quatro mãos (Ma Mère l'Oye, Mamãe Ganso) e dois pianos (La Valse, para piano solo e para dois pianos) e explodiu com Daphnis et Chloé, composta para os Balés Russos de Diaghilev e estreada em 1912.

Na Grande Guerra de 1914, foi motorista. A saúde frágil provocou sua desmobilização em 1917, ainda durante a Guerra. Aliás, ele sempre sofreu por causa de seu 1,57 m de altura e 54 quilos.

Reagia enfurecido quando o chamavam de "le petit Ravel". Murmurava baixinho: "Alguns compositores foram baixinhos: pense em Beethoven e em Mozart". Jean Cocteau, figura-chave da efervescência cultural da Paris dos anos 20, dizia que ele "tem cabeça de pássaro".

É um lugar-comum afirmar que sua produção é pequena, mas, em compensação, tudo que compôs concorre em pé de igualdade com as obras-primas em cada gênero. Mas é um fato. Dos concertos para piano às obras orquestrais, da música para piano solo à música camerística, das canções à ópera, em cada gênero existe uma obra notável de Ravel.

Sem contar que ele é o compositor erudito responsável por alguns dos maiores hits do século 20 cujo fascínio perdura intacto. Eles atendem por Bolero, Pavana para uma infanta morta e o hit dos hits, a orquestração fabulosa que fez dos Quadros de Uma Exposição, composição original para piano do russo Modest Mussorsgky.

O Bolero, uma espécie de tributo sonoro sensual à melodia sem paralelo, rivaliza em popularidade com as batidas do Destino da Quinta Sinfonia de Beethoven ou As Quatro Estações de Vivaldi. Estas três, aliás, revezam-se nas três primeiras posições entre as gravações mais vendidas no planeta desde a invenção da fonografia, no finalzinho do século 19.

Na verdade, a Quinta reinou sozinha até os anos 1930, quando o Bolero juntou-se a ela; e, vinte anos depois, fechou-se o trio de "hits" com a obra de Vivaldi, redescoberta nos anos 50. A Pavana para uma infanta morta já foi e continua sendo reinventada e rearranjada de mil e uma maneiras desde que foi composta, em 1899. Grande frasista, Ravel reagiu assim ao entrar no salão de jogo no cassino de Monte Carlo. O maestro Paul Paray perguntou-lhe se queria apostar. Ravel respondeu-lhe: "Escrevi Bolero e ganhei. Fico por aqui mesmo".

Em suas outras obras sinfônicas, como Alborada del Gracioso, Shehérazade, Rapsódia Espanhola, Valsas Nobres e Sentimentais e, sobretudo, em Daphnis et Chloe, foi originalíssimo na instrumentação e orquestração. Mesmo não chegando a uma dezena de obras, sua produção camerística esteve, está e, com certeza, estará muito presente nas salas de concertos e em gravações.

São peças que combinam instrumentos de modo diferente, como a Introdução e Allegro para harpa, flauta, clarineta e quarteto de cordas; ou a sonata para violino e violoncelo; ou, então, destacam-se nos gêneros convencionais (como seu único quarteto de cordas ou o trio para piano e cordas). E dez entre dez pianistas possuem ao menos uma de suas formidáveis criações em seu repertório. São gemas como Jeux d'eau, a Sonatina, Le Tombeau de Couperin, Miroirs e Gaspard de la Nuit.

Qual o segredo que torna suas composições tão atraentes em termos criativos e, ao mesmo tempo, capazes de atingir não só o público da música dita clássica, ou de concerto, mas principalmente o grande público?

Numa entrevista, propôs uma metáfora para explicar o modo como enxergava seu ofício. Imagine que você está em um quarto estudando. Após algumas horas, sente que o ambiente está um pouco viciado, é preciso renovar o ar: você abre a janela, deixa o ar fresco inundar o quarto e, pouco depois, fecha a janela. Assim é a evolução.

Agora, você pode optar por jogar uma pedra na janela e quebrar o vidro. Claro que o ar fresco entra, mas depois será preciso consertar a janela. Assim é a revolução. Ele colocava desta maneira simples e direta a situação dos compositores no início do século 20. E concluía: "Não preciso quebrar a janela. Sei como abri-la".

Ravel experimentou o sucesso em vida

Eis a chave para compreendermos o imenso sucesso de público e crítica que Ravel alcançou já em vida - fato raro na música do século 20. Ele jamais jogou pedra no passado: "O compositor deve situar-se diante de uma obra-prima como um plagiário no Museu do Louvre diante de um Ticiano; ou então como um pintor paisagista diante da natureza. Devemos começar aprendendo o métier dos outros, pois nem uma vida inteira é suficiente para aperfeiçoarmos o nosso".

O compositor francês Maurice Ravel, nascido há 150 anos
O compositor francês Maurice Ravel, nascido há 150 anos
Foto: Acervo Estadão / Estadão

Deu outra pista que nos ajuda a entender seu credo artístico, numa entrevista de 1922 ao jornal inglês The Musical Leader: "A música que se faz na França hoje é bem mais simples do que a de Wagner, seus seguidores, ou de seu maior discípulo, Richard Strauss. Não tem as formas gigantescas de Beethoven ou Wagner, mas possui uma sensibilidade que nenhuma outra escola tem. Suas maiores qualidades são clareza e ordem. E é musicalmente muito rica. Há mais substância em L'après-midi d'un faune de Debussy do que na maravilhosamente imensa Nona Sinfonia de Beethoven. Os compositores franceses atuais trabalham com telas pequenas, mas cada pincelada é vital".

Seu maior ídolo foi Claude Debussy (1864-1918). Gostava tanto do Prélude à l'après-midi d'un faune que o transcreveu para piano a quatro mãos. E escolheu-o, às vésperas da morte, em 1937, quando Manuel Rosenthal morbidamente perguntou-lhe que música desejaria para seu funeral.

Pouco afeito a teorias, preferia o trabalho sistemático. Segundo seu aluno Manuel Rosenthal, "considerava-se um trabalhador, um artesão. Jamais viu-se como artista ou intelectual: essas palavras o enfureciam".

Cheio de emoção, porém. Daí a notável e imediata capacidade de comunicação de suas obras com o grande público. Quando se fala isso, pensa-se imediatamente no Bolero e na Pavana para uma infanta morta. São obras impactantes, mas nunca banais.

Certa ocasião, um garoto tocou de cor a Pavana sem saber que Ravel estava na sala. Ao final, ele se aproximou e disse: "Do jeito que você tocou, ela virou pavana morta para uma criança!".

Em 4 de janeiro de 1928, Ravel desembarcava em Nova York. Fez uma extensa turnê pelos EUA e Canadá até abril. Demonstrou naquele momento sua capacidade de absorver todo tipo de novidades e imprimir-lhes seu DNA.

Dois exemplos matadores: em 1927 estreou sua Sonata para violino e piano, que contém um movimento intitulado Blues que é... puro blues. Já no Concerto em Sol, estreado em 1932, vê-se que Ravel absorveu mais do que o blues. Deglutiu o jazz que então se fazia no Harlem, com Duke Ellington, Satchmo, James P. Johnson e outros bambas. Harlem que ele visitou nos primeiros meses de 1928, ciceroneado por George Gershwin.

O Allegramente é puro jazz desde o chicote que dá a largada ao flautim flutuando sobre os pizzicati dos violinos e violas, todos apoiados pelo trêmolo dos violoncelos e o rufar de tambor. Ficou entusiasmado pelo que viu e ouviu no bairro negro nova-iorquino onde se gestava uma música nova e sincopadíssima. Numa palestra ao público branco de Manhattan alertou que ali, no jazz negro, estava a essência da música norte-americana.

O Concerto em Sol estreou em 14 de janeiro de 1932 em Paris. Nove meses depois, em outubro, num acidente de táxi, sofreu vários ferimentos, aparentemente sem gravidade. Mas já no verão seguinte apresentava problemas de coordenação motora. Era a afasia [incapacidade de expressar pensamentos em palavras], ou doença de Pick, que começava a manifestar-se. Os últimos anos foram particularmente dolorosos. Uma cirurgia em 19 de dezembro de 1937 malsucedida provocou sua morte em 28 de dezembro.

Três gravações para comemorar os 150 anos de Ravel

  • Integral da obra para piano solo, a quatro mãos e dois pianos, camerístico, canções e concertos com orquestra (6 CDs, 6h38', disponíveis no streaming), com François-Xavier Poizat (piano) e músicos convidados. O primeiro CD contém ótimas interpretações dos 3 concertos para piano, com Poizat e a Philharmonia Orchestra, regida por Simone Menezes. Aparté, dez2024.

Degustação: Allegramente, primeiro movimento do Concerto em Sol:

  • Ravel Orchestral Works, álbum duplo DG (1993), com Pierre Boulez regendo a Filarmônica de Berlim nos "hits" de Ravel: Boléro, La Valse, DAphnis et Chloe, Rapsódia Espanhola, Une Barque sur l'océan, Ma Mère L'Oie. A frieza racional de Boulez faz um favor: não injeta ímpeto demais numa música que já é transbordante por natureza. É também um tributo a Boulez no ano de seu centenário de nascimento.

Degustação: La Valse:

  • Quartets through a time of change, quartetos num tempo de mudança, com Brother Tree Sound. First Hand/fev/2025. Ótima ideia: em vez de acoplar pela milionésima vez os quartetos únicos de Ravel e Debussy, aqui o de Ravel convive com os de outros contemporâneos exatos, integrantes do Grupo dos Seis: Louis Durey, Darius Milhaud e Germaine Tailleferre. Ouça Très animé, o movimento final do quarteto no. 4 que Milhaud compôs quando morava no Rio de Janeiro, em 1918:

Estadão
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