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Análise: Ninguém ainda chegou onde os Novos Baianos estiveram

'Acabou Chorare', sua obra prima de 1972, deu a forma definitiva à ideia que só havia sido esboçada na Tropicália

4 nov 2019
06h10
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Eles foram longe demais, atingindo um ponto de depuração que ainda, 47 anos depois, ninguém tocou. Era 1972, e os Novos Baianos já tinham uma sonoridade gestada no álbum É Ferro na Boneca, de 1970, mas ainda incompleta, mais alinhada à porção lisérgica do tropicalismo-mutante do que às brasilidades elétricas do tropicalismo gilbertogilniano de 1967/1968. Se ficassem em É Ferro na Boneca, seriam hoje um grupo cool com um álbum cool, cultuado entre jornalistas cool e colecionadores de vinil como uma raridade. Mas eles tinham outro passo a dar.

Acabou Chorare furou a bolha egosófica dos baianos, tirando-os do discurso muitas vezes hermético e de pouco alcance de É Ferro... para torná-los universais, equalizando dança com pensamento, sofisticação com abrangência, técnica com feeling, samba com rock.

E tudo coisa do velho baiano de pouco cabelo, terno e gravata que resolveu tocar a campainha do apartamento de Botafogo, onde dez novos baianos de muito cabelo, camisas floridas e sandálias de couro dividiam um quarto, sala e cozinha. "Ih, ferrou, é a Polícia Federal", disse o baixista Dadi um dos integrantes da Cor do Som, a banda dentro da banda, acostumado com as batidas policiais. Que nada, era só João Gilberto.

João começou um convívio com os rapazes na condição de mentor. Com apenas um violão, ele tinha o caminho que deveria ser traçado pelos Novos Baianos e, assim, sugeriu Brasil Pandeiro, do também baiano Assis Valente, o abre alas de uma vida nova. Um sol nasceu na sonoridade pesada de É Ferro, pronta para habitar o lugar dos clássicos e ser cantada por qualquer um. E vieram Preta Pretinha, A Menina Dança, Besta é Tu e, em um registro mais exigente, Tinindo Trincando, Swing de Campo Grande e Acabou Chorare, dedicada ao mentor e sua filha Bebel.

A união dos Novos Baianos prova outra suspeita histórica. Sempre que houve encontros de personalidades complementares coletivamente mas criativamente independentes, os astros de posicionaram para um explosão galáctica rápida e eterna. Foi assim com os Beatles, foi assim com os Novos Baianos.

Estadão
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