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"Malês": em filme, Antônio Pitanga leva ao mundo a revolta negra que o Brasil ocultou

A exibição integral do filme "Malês" no 28º Festival de Cinema Brasileiro de Paris, diante de uma sala com 400 lugares lotados, marcou mais do que a estreia francesa do novo filme de Antônio Pitanga. Tornou visível, mais uma vez, a força de um projeto que atravessa décadas, continentes e camadas de memória. Em entrevista à RFI, o ator e diretor de 86 anos falou do levante de africanos muçulmanos escravizados ocorrido em Salvador em 1835, mas também falou de si, do Brasil e de um passado que insiste em não caber nos livros escolares.

13 abr 2026 - 15h59
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"Malês" retoma um episódio central e ainda pouco conhecido da história brasileira: o levante dos malês, organizado por africanos muçulmanos letrados, em sua maioria falantes de árabe, sequestrados no norte e no oeste da África e escravizados na Bahia. Homens e mulheres que, nas fazendas e nos engenhos vizinhos, começaram a se reconhecer pela oralidade, pela escrita, pela fé comum e pela convicção de que era possível resistir.

O ator e diretor brasileiro Antônio Pitanga, em Paris. 11 de abril de 2026
O ator e diretor brasileiro Antônio Pitanga, em Paris. 11 de abril de 2026
Foto: © RFI/Adriana Moysés / RFI

A decisão de transformar esse levante em filme consolidou‑se, como contou Antônio Pitanga em Paris, com a leitura de "Rebelião escrava no Brasil", de João José Reis, obra que lhe deu base histórica e impulso definitivo para levar "Malês" às telas.

No filme, Pitanga reconstrói esse processo de reconhecimento lento e subterrâneo. Antes do levante, há um sonho: a construção de uma mesquita na fazenda de um colonizador europeu, um espaço de oração, encontro e sustentação espiritual diante da brutalidade cotidiana da escravidão. A repressão portuguesa destrói esse projeto e, ao tentar apagar a possibilidade de união, acaba acelerando o caminho para a insurreição sangrenta. O levante de 1835, o maior do século 19 no Brasil, nasce dessa fratura.

Pitanga insiste: a história dos malês não é "história do negro", mas história do Brasil. E justamente por isso foi silenciada. "Ela não está no ensino fundamental, não está nas universidades, não está na formação do brasileiro", diz. Na Bahia, primeiro grande entreposto de escravizados do país, ao lado de Pernambuco, essa memória sempre circulou pela oralidade. E é dessa circulação popular que o diretor parte.

"Quando chego a entender que é hora de fazer 'Malês', ele não caiu de repente, de paraquedas. É uma infância, é uma vivência, é uma história que acontece na Bahia, no Brasil - e a Bahia se lembra de tantas histórias que o Brasil não conhece, já que foi a primeira capital do país." 

Cinema e resistência

Quando afirma que o projeto levou 29 anos para se concretizar, Pitanga não fala apenas de dificuldades de produção. Ele fala de uma constante histórica do cinema brasileiro: a inexistência de uma política de Estado para a cultura. "Sai governo, entra governo, e seguimos sempre correndo de pires na mão." Desde "Bahia de Todos os Santos", de Trigueirinho Neto, passando por "Barravento", de Glauber Rocha, sua trajetória se confunde com a formação do Cinema Novo, um cinema que pensava o país a partir de suas fraturas sociais. "Malês" é herdeiro direto dessa tradição.

Mas o filme se ancora ainda mais fundo. Ao falar do século 19, Pitanga traz o século 21 para o centro da discussão. Para ele, o levante dos malês permite revisitar não apenas a escravidão, mas também a independência, a abolição, a República, a industrialização. O ator questiona, inclusive, a narrativa oficial da Independência.

"7 de setembro foi um acordo. Independência de verdade aconteceu em 2 de julho de 1823, quando os portugueses são expulsos da Bahia."

Esse deslocamento de perspectiva explica por que "Malês" tem encontrado forte ressonância fora do Brasil. O filme já foi apresentado para debate nas universidades americanas de Princeton, Universidade da Pensilvânia e Harvard, além de ter sido exibido em uma sessão na Columbia University, durante um festival da diáspora africana. No exterior, sobretudo, ele quebra uma leitura simplificada segundo a qual apenas o Haiti teria produzido uma revolução negra organizada nas Américas. 

Colonialismo e pertencimento

Na França, Pitanga afirma que o filme permite deslocar a discussão para além do Brasil ao levar essa história "não só para os jovens franceses, mas aos africanos" e ao dar visibilidade a "como se deu esse sequestro, essa escravidão". Ele insiste em situar a revolta dos malês dentro de um processo mais amplo de dominação colonial, lembrando que foram "os colonizadores europeus que, de maneira trágica, fatiaram, nesse continente africano de 54 países, fronteiras inimigas, de várias nações". Para ele, essa fragmentação desconsiderou religiões, costumes e organizações sociais distintas - "muçulmanos, candomblés, quer dizer, a questão da religiosidade, as questões dos costumes" - e estabeleceu um modelo de imposição cultural cujos efeitos persistem.

"O colonizador não respeitou e fatiou o país com várias fronteiras", afirma, ao mesmo tempo em que "rouba a língua pátria e diz: 'agora você vai falar francês, agora você fala alemão, agora você fala inglês'". Daí, segundo Pitanga, a contradição contemporânea: "Os imigrantes que chegam aqui, eles falam francês e não são reconhecidos como franceses", apesar de terem sido historicamente "dominados". Para ele, "Malês" existe para trazer essa história "à luz do dia" e lembrar que esses sujeitos "não são uma pessoa desconhecida".

No filme, essa reflexão ganha forma narrativa. Pitanga e a roteirista Manuela Dias optaram por humanizar os personagens e evitar a abstração histórica. Os malês do filme vêm de Daomé, Benin, Togo, Senegal, da nação haúça. São muçulmanos, mas dialogam com outras tradições religiosas. Um dos momentos centrais une um líder do Islã e Iyá Nassô, figura histórica do candomblé, numa aliança simbólica contra a intolerância, a invisibilidade e a violência. As mulheres, ressalta o diretor, são lideranças e estrategistas, embora quase sempre apagadas pelas narrativas oficiais dos séculos 18 e 19.

A África pessoal

A travessia pessoal de Antônio Pitanga ecoa essa busca coletiva. Durante a ditadura militar, ainda jovem, ele deixou o Brasil decidido a compreender sua própria origem. "Eu quis saber de que África eu tinha vindo", afirma. "Não bastava achar que eu sou afrodescendente." Ele admite não conhecer os avós nem saber exatamente de que lugar veio sua família, mas sustenta uma convicção íntima, construída pelas tradições familiares, pela comida e pelos rituais, de que suas raízes estão na região de Daomé, no atual Benin. Essa inquietação era partilhada em conversas com Mãe Menininha do Gantois: "Eu dizia: mãe, eu queria saber de que África eu vim." Entre os 23 e 24 anos, percorreu por quase dois anos essa região do oeste africano, uma experiência que, como insiste, "não vem dos livros, é história vivida".

Esse mesmo princípio orientou a criação de seus filhos, Camila e Rocco, que atuam em "Malês". Pitanga define sua família como um "quilombo", uma nação em movimento. Nas conversas com os filhos, transmitiu histórias fora do currículo escolar, fundadas na oralidade. No filme, essa ideia se desdobra: um quilombo chama outro quilombo, como fizeram os malês ao convocar africanos de diferentes nações. Hoje, afirma, "Malês" provoca um novo levante, não armado, mas um levante do conhecimento, na "cenografia mundial".

O presente em confronto

Ao ser confrontado com a permanência da violência policial contra a população negra, Pitanga não faz analogias suaves. Para ele, não mudou nada - ou piorou. A polícia repressiva nasce com Dom João VI, há mais de 200 anos. A lógica permanece: "Um negro correndo é ladrão; um branco correndo é atleta."

A diferença é que hoje existem meios de comunicação que poderiam servir ao diálogo, mas frequentemente alimentam a barbárie. Violência policial, feminicídio, estupros, guerras. Pitanga fala com perplexidade de um mundo que, munido do poder da palavra, parece regredir a uma dimensão ainda mais cruel do que a Idade da Pedra.

Ao final, "Malês" se impõe não apenas como um filme histórico, mas como um gesto político no sentido de recontar a história a partir de quem foi silenciado, devolver ao presente aquilo que foi roubado da memória coletiva. "Caixão não tem gaveta", lembrava a mãe do ator. Nada se leva. Resta decidir que herança ficará para as futuras gerações.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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