Livros fazem sátira de uma geração capturada pela internet e as redes sociais
'Rejeição', do americano Tony Tulathimutte, retrata relações virtuais de millennials solitários; no Brasil, mundo online ambienta contos de Vinícius Portella
Mastigando Ritalina e com metade do rosto escondida no travesseiro, uma pessoa sem gênero digita freneticamente com um polegar postagens sobre George Harrison, solidão e marxismo. "Era por isso que eu amava o Twitter", diz ela a respeito da rede social agora chamada X, "um fórum aberto e rizomático no qual você podia agravar doenças mentais existentes, comprar novas, violar seus próprios direitos e ser demitido".
A personagem faz parte do mosaico de millennials, ou geração Y, que povoa os contos de Rejeição, coletânea do americano Tony Tulathimutte publicada recentemente pela Fósforo. Nascida perto da virada do milênio, entre 1981 e 1996, essa geração chegou a viver em um mundo offline, mas logo foi capturada pela promessa de terra livre que havia na internet e nas redes sociais do começo do século.
Nas sete histórias interligadas que compõem o livro, o escritor de ascendência tailandesa satiriza pessoas rejeitadas de diferentes formas - por mulheres, homens, amigos e até pelo mercado editorial - que encontram tanto acolhimento quanto sua ruína na internet, refletindo sobre questões de raça e gênero em uma linguagem própria das redes sociais.
Pode ser intimidador para muitos escritores escrever sobre um objeto que está em constante movimento, afirma Tulathimutte sobre a internet. Mas talvez não para ele, que começou a trabalhar no primeiro conto, O feminista, ainda em 2011. "Quando você está escrevendo sobre um determinado ambiente digital, é como escrever sobre uma cidade em um tempo e em um lugar específicos. Não fica datado, porque está inserido na história da mesma forma que os lugares estão", diz o escritor em entrevista por videochamada ao Estadão.
O livro foi publicado em 2024 nos Estados Unidos e chegou neste ano ao Brasil, com tradução de Isadora Sinay. Para manter o texto relevante com o passar do tempo, Tulathimutte conta que escolheu focar em como as pessoas usam a internet, em vez de tentar definir o que a internet é. Apesar disso, ele lamenta não ter incluído no conto Nosso futuro irado, sobre um empreendedor tomado pelo discurso mindfullness, um fenômeno digital recente: o terapeuta de inteligência artificial.
Futuro sombrio
O avanço tecnológico da IA é mesmo difícil de acompanhar. Em 2023, próximo ao lançamento do ChatGPT, o escritor brasiliense Vinícius Portella publicou O Inconsciente Corporativo (DBA), coletânea de contos sobre tecnologia em que um deles imagina o Borges-bot, um modelo de inteligência artificial generativa treinado para escrever como o autor de Ficções. A atualidade do tema ajudou na trajetória que a obra teve na época, mas se estivesse escrevendo a história hoje, diz Portella, ele exploraria mais o lado perverso da indústria de IA.
Com a boa repercussão do livro, o escritor publicou no ano seguinte a coletânea A Grande Porção de Lixo do Pacífico, pela mesma editora, acrescentando a crise climática e a dimensão espiritual às discussões tecnológicas. "Eu percebi que me divertia muito mais escrevendo contos sobre esses assuntos do que escrevendo artigos", diz ele, que é pesquisador de cultura e tecnologia. Neste ano, a DBA publica o romance Zumbido, que embora tente ser mais sobrenatural - na história, um terço da população mundial começa a ouvir um zumbido -, não consegue evitar o tema da tecnologia, adianta Portella ao Estadão.
As perspectivas para o futuro da internet, afinal, são sombrias. Se no começo dos anos 2010 havia um entusiasmo com a possibilidade de as redes sociais influenciarem a vida real, com a Primavera Árabe lá fora e as Jornadas de Junho no Brasil, o otimismo acabou após o uso de dados do Facebook na eleição americana de 2016, a crescente radicalização dos discursos online e o alinhamento recente das plataformas ao novo governo de Donald Trump. Agora, com a inundação de conteúdos gerados por inteligência artificial, as redes sociais entram numa nova fase.
Crianças na internet e liberdade
Embora os contos de Tony Tulathimutte e de Vinícius Portella tenham muitas semelhanças na abordagem da tecnologia, eles falam sobre grupos diferentes para além das nacionalidades. O americano escolhe satirizar uma geração, os millennials, com uma amostra composta principalmente por progressistas e minorias sociais. "Mas a direção da sátira que eu faço vem da esquerda", afirma Tulathimutte. "O livro não é uma sátira do movimento woke, do politicamente correto ou do progressismo. É uma sátira de pessoas que são ruins nisso."
Já o brasiliense retrata pessoas de diferentes idades e ideologias. No primeiro livro, por exemplo, há um conto em que um homem de Brasília de quem os amigos se afastaram "por causa de política" finge ser uma mulher no Tinder, mas ele começou muito antes. "A primeira vez que me fingi de mulher virtualmente foi jogando Diablo no computador. Eu tinha o quê? Doze, treze anos no máximo", diz o narrador de Outras hidráulicas. Nos contos do segundo livro, dois personagens de cidades do interior compartilham o mesmo desfecho trágico: um professor universitário que se expõe demais no Facebook e um adolescente que cria uma entidade espiritual online.
Portella afirma que sempre foi do time que achava exagerado o pânico moral sobre os perigos da internet, mas hoje em dia se preocupa. Apesar de as interfaces das redes sociais serem desenhadas para viciar todas as pessoas, crianças e idosos estão mais vulneráveis a conteúdos falsos e discursos de ódio online, por exemplo. "(O impacto) é mais preocupante nos extremos, mas no fundo está todo mundo meio 'azumbizado'", diz.
Para Tulathimutte, a preocupação atual com a segurança das crianças online é legítima, mas vem sendo usada para se acabar com o anonimato e a privacidade na internet. "Não é coincidência que vários países estejam propondo leis semelhantes (sobre o acesso de crianças às redes sociais) neste momento", afirma. Além da Austrália, que proibiu no fim de 2025 que menores de 16 anos acessem as plataformas, países como Reino Unido, Espanha e Brasil, com o ECA Digital, estão discutindo restrições de idade para as redes sociais. "Não quero soar conspiratório, mas existe um esforço conjunto para restringir a liberdade na internet."
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