'Lacração da internet é o avesso do pensamento', diz autor de livro sobre arte da crítica de cinema
Jornalista e psicanalista, Luiz Zanin Oricchio lança livro 'A arte da crítica' na Mostra de Cinema e indica 5 filmes obrigatórios para o público e para os críticos em formação
Foi para refletir sobre seu ofício que Luiz Zanin Oricchio, crítico que fez carreira no Estadão, criou o blog A Arte da Crítica em março de 2019. De lá para cá, o jornalista, que é também psicanalista, escreveu dezenas de textos que buscavam respostas a questões que o inquietaram ao longo dos tempos. Uma ampla seleção desses artigos pode ser lida agora em um livro homônimo que inaugura a coleção Lumière, da editora Letramento.
O lançamento de A Arte da Crítica será nesta quinta-feira, 26, às 17h, na Cinemateca Brasileira (Largo Sen. Raul Cardoso, 207 - Vila Clementino), dentro da programação da 47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Haverá um bate-papo do autor com os críticos José Geraldo Couto e Paulo Henrique Silva, coordenador da coleção, com mediação da jornalista Maria do Rosário Caetano.
Não se trata de uma obra restrita a críticos ou profissionais em formação - embora a nova geração tenha muito a aprender com este "crítico à moda antiga", como a jornalista Ivonete Pinto coloca no prefácio. Com temas que vão desde o mito da isenção da crítica, passando pelo poder da música, inteligência artificial, os grandes diretores, as adaptações de livros e a internet até questões mais complexas e controversas - como se a obra fala por si ou se o contexto e a autoria, no caso de "antagonistas ideológicos", deveriam importar -, A Arte da Crítica é um livro para todos que se interessam pelo cinema - e pela arte de uma forma geral.
Luiz Zanin Oricchio, que é ainda comentarista de cinema na Rede TVT (TV dos Trabalhadores), foi presidente da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) entre 2011 e 2015 e escreveu livros como Cinema de Novo - Um Balanço Crítico da Retomada (Estação Liberdade), Guilherme de Almeida Prado - Um Cineasta Cinéfilo (Imprensa Oficial) e Fome de Bola - Futebol e Cinema no Brasil (Imprensa Oficial), respondeu às seguintes perguntas do Estadão por e-mail. No final, ele indica cinco livros obrigatórios.
Por que transformar o blog em livro? Como tudo começou e evoluiu?
Comecei a escrever o blog A Arte da Crítica para ter um espaço livre de reflexão sobre meu ofício. Questões que me assediaram ao longo do tempo, do tipo: como as palavras podem alcançar uma experiência como a do cinema, que é da ordem do audiovisual? Ou qual a influência que resta da política dos autores dos Cahiers du Cinéma sobre a crítica, algo dos anos 1960 com prestígio até hoje? Algumas questões mais do dia a dia, tais como: de que maneira escrever sem incorrer no spoiler, mas também dar alguma ideia ao leitor do que trata o filme? Para quem escrevemos? Ou: qual a influência da crítica no sucesso ou fracasso de um lançamento de cinema? Como a crítica se modifica (ou não) diante de tendências contemporâneas como as políticas identitárias e inclusivas? Enfim, fui escrevendo ao longo dos últimos três anos. Poderia ter anotado tudo isso num caderno, mas usei a ferramenta blog para permitir a interação de hipotéticos leitores. Entre eles, havia companheiros e companheiras da crítica. Alguns acharam que caberia transformar o blog em livro. Topei, mas pedi mais tempo. Queria desenvolver mais o projeto. Alterei bastante bastante o conjunto em relação ao que está no blog. Alguns capítulos foram desenvolvidos, outros eliminados. Fundi alguns e abordei novos temas em outros. Deu um total de 40 capítulos que, acho eu, podem ser lidos na sequência ou alternados, segundo o interesse de cada leitor. Cada pequeno capítulo forma um todo, mas remete a outros. A forma é ensaística, aberta, e o estilo não é nem jornalístico nem acadêmico. É algo mais pessoal. Escrevi como quis, sem pensar em publicar e acho que a escrita se beneficia dessa liberdade. Mas isso acho eu. Cabe a quem lê julgar.
Você comenta que a escrita é o pensamento em movimento. Vivemos tempos acelerados. Essa exigência por agilidade, por falar sobre um filme, ou um assunto, no calor da hora, atrapalha o pensar? Quais são os riscos de uma crítica rápida? E, voltando ao início da questão, como escrever ajuda a articular ideias, sensações e conclusões?
Penso que é a escrita que dá forma ao que estamos pensando. Tem um capítulo justamente sobre isso, baseado numa anedota. Dois críticos saem de uma sessão de cinema e um pergunta ao outro o que achou do filme. Resposta: "Não sei, ainda não escrevi sobre ele". A escrita é um trabalho de elaboração do pensamento e não a transcrição de algo que já estava lá, antes dela. Entendo que o pensamento exige tempo. Também tem um capítulo sobre isso, sobre a necessidade de "não lacrar". A lacração de internet é o avesso do pensamento. Tem mais a ver com a linguagem publicitária que com a linguagem especulativa, que dá espaço aos desvios, às dúvidas e às incertezas. A crítica pode ser rápida e às vezes esta é uma exigência do crítico enquanto jornalista. Claro que é melhor dispor de mais tempo para a escrita, até para fazer aquilo que os escritores sempre recomendam: deixar o texto "descansar" antes de publicá-lo. Esse é um luxo que raramente jornalistas podem se dar. Mas entendo que mesmo uma crítica rápida pode ser reflexiva e não-lacrativa. Depende de prática, cultura acumulada e talvez de um certo talento. O jornal ensina muito. Uma das lições é não fechar certezas num texto escrito no calor da hora e às pressas.
No prefácio, você é apontado como um crítico à moda antiga, que prioriza o argumento em vez da lacração. Além disso, seus textos são profundos e claros, acessíveis a todos os leitores. Qual é a responsabilidade de um crítico, o que ele deve despertar e com quem deve ser o compromisso dele?
Quanto ao fato de ser um crítico à moda antiga, isso se dá porque quando comecei a escrever sobre cinema o único suporte era o papel: o jornal, as revistas especializadas ou acadêmicas. Era o tempo do impresso. Com a internet, tudo mudou. Surgiram os blogs, os portais, as redes sociais, o Youtube, etc. Tudo se ampliou e se fragmentou. Eu também entrei nessa. Continuo um crítico "do papel", mas tenho blogs, publico em redes sociais e mantenho uma participação semanal na TVT (TV dos Trabalhadores) na qual falo das estreias no circuito comercial e no streaming. Meu blog no Estadão começou em 2006. Já tem um bom tempo, portanto e continuo publicando nele. Mesmo nesses suportes digitais tento manter uma certa conciliação difícil entre a profundidade e a clareza. A primeira vem, talvez, da minha formação universitária. A segunda, por certo do jornalismo, que é uma atenção para com o leitor, o esforço e o desafio de abordar temas complicados em linguagem simples e sem baratear o tema, no espaço que se tiver. É um desafio do dia a dia, que todo jornalista conhece.
Acho que a responsabilidade do crítico é múltipla. A primeira é ética e tem a ver com a sinceridade. Seu texto deve exprimir, o mais exatamente possível, a experiência que teve ao ver um filme. Mas isso não basta. O crítico tem obrigação de apresentar análise e não apenas sensações do tipo gostei ou não gostei. Deve se preocupar com a linguagem do cinema e não apenas com a temática dos filmes. Por fim, e isso é pessoal e não consensual entre críticos, imagino que deve se preocupar com a política do cinema, com o "estado das coisas" do cinema produzido em seu país. Em especial num país como o Brasil em que a cultura de maneira geral acompanha a montanha-russa das turbulências históricas. Nosso passado recente é exemplo disso.
Você fala sobre subjetividade e diz que a crítica é sempre autoral. E afirma que a crítica deve ir além do gostar ou não gostar. O que é, afinal, a crítica de cinema?
Acho que em parte já respondi sobre o gostar e não gostar. Simplesmente acho que o crítico deve explicar por que gostou ou não gostou e por que gostou ou não gostou daquele jeito. Tem de dar, digamos, seus motivos para o que afirma sobre um filme ou um autor. Perguntaram a Merleau-Ponty para que servia a filosofia. Ele respondeu que servia para não dar assentimentos sem os considerandos. Quer dizer, usamos a nossa subjetividade mas ela não pode ser razão suficiente quando se escreve sobre um filme. Quanto a uma definição da crítica, gosto do que escreveu o grande André Bazin. "A função do crítico não é trazer numa bandeja de prata uma verdade que não existe, mas prolongar o máximo possível, na inteligência e na sensibilidade dos que o leem, o impacto da obra de arte". É uma boa definição.
Você escreve que o cinema foi mudando com o tempo, assim como a crítica. A leitura, ou o consumo de conteúdo, como se diz hoje, também está mudando. Tem uma geração se informando nas redes sociais e sendo influenciada por críticos tiktokers (e vendo filmes em telas de celular). Como você vê esse movimento e esse momento?
Vejo muita coisa boa na internet. A grande maioria é de baixa qualidade. Ou aborda o cinema por outros ângulos diferentes da crítica. Pode haver reportagens sobre cinema, perfis de celebridades ligadas ao cinema, comentários superficiais sobre lançamentos, dicas de streaming para o fim de semana, etc. Tudo diz respeito ao cinema. Mas nem tudo é crítica, e é preciso separar as coisas. A crítica debruça-se sobre a obra e se vale de ferramentas de análise para abordá-la. Acho que pode haver boa crítica num vídeo de TikTok mas francamente não conheço. Acho ainda que o ato de escrita é fundamental. Alguns falam de crítica de cinema como gênero literário, mas talvez seja um pouco de exagero. Poucos entre nós atingem esse nível.
Um crítico de cinema não se forma apenas diante da tela. O que mais é essencial nesta formação? O que é preciso para ser um bom crítico de cinema? E que conselhos daria para esta nova geração de profissionais que tenta se aproximar da crítica?
Acho que tudo serve na trajetória de formação de um crítico de cinema. Da maneira como vejo, acho indispensável que conheça as obras fundamentais da arte sobre a qual vai se manifestar. Os grandes clássicos, as grandes correntes, como o cinema novo, a nouvelle vague, o cinema soviético, etc. No meu caso, acho que me beneficiei muito do estudo da psicanálise, da filosofia, e da literatura específica do cinema. Ler os grandes críticos é fundamental. Ler André Bazin, que citei acima. Críticos como Pauline Kael e Andrew Sarris. Entre nós, Paulo Emilio Sales Gomes, Ismail Xavier e Jean-Claude Bernardet, sobretudo. Na minha opinião, gostar de artes em geral e não apenas de cinema: teatro, pintura, música, literatura. Mas às vezes acho que é preciso pensar com simplicidade, para que cada qual faça seu caminho. O grande crítico francês Jean-Michel Frodon deu uma longa entrevista à revista gaúcha de cinema Teorema. A última pergunta foi: Quais as qualidades de um bom crítico? Resposta: Curiosidade. Gostar de cinema. Gostar de escrever. Isso é tudo!
O cinema hoje ainda é capaz de te surpreender? O que você busca num filme e o que aprendeu com o cinema?
Felizmente sim, me surpreende. A tendência do cinema comercial é se tornar rotineiro, até porque trabalha com expectativas já firmadas no público. É cinema de mercado. Mas, por sorte, o cinema ainda é feito com liberdade por vários autores no mundo. E então um filme te desconcerta, o que é a melhor experiência para um crítico. Acabei de ver na mostra um filme chamado Não Espere Muito do Fim do Mundo, do romeno Radu Jude, que não se parece com nada do que havíamos visto antes. E é excelente! Nos pega desprevenidos e nos desperta o desejo de entendê-lo, de escrever sobre ele. Essas experiências são pouco frequentes mas não raras. Felizmente. Subvertem todo o nosso suposto saber sobre o cinema. Como dizia o mestre Paulo Emilio Sales Gomes, ninguém está completamente preparado para uma paixão, uma revolução ou um filme de fato novo.
Como a psicanálise te ajudou a ser um bom espectador - e um bom crítico?
Estudei e pratiquei a psicanálise durante muitos anos antes de me tornar jornalista. É normal que esse conhecimento acumulado faça parte de mim e determine até certo ponto minha visão de mundo. No entanto, não faço uma crítica "psicanalítica", no sentido mais específico, pois entendo que a minha crítica é soma de uma série de influências, entre as quais a psicanálise, mas somada à história, à filosofia, à literatura e na própria trajetória de vida, errática muitas vezes. No entanto, essa disciplina específica me deu muitas chaves de pensamento, a começar pela a experiência da sala escura vista como uma espécie de sonho acordado no qual mergulhamos. Talvez não seja acaso que a psicanálise e o cinema tenham nascido mais ou menos na mesma época, finais do século 19. A questão da interpretação (que foi tema do meu trabalho acadêmico) entra na análise dos filmes. E o próprio limite de análise e compreensão se vale da noção de Real lacaniano, entre outras coisas. No fundo, acho que depois de tantos anos de convivência (nem sempre amigável), a psicanálise faz parte de mim e entra em qualquer coisa que eu faça ou pense, incluindo a crítica de cinema. Está no DNA, como se diz.
Poderia citar 5 filmes obrigatórios?
- Cidadão Kane, de Orson Welles
- Terra em Transe, de Glauber Rocha
- O Conformista, de Bernardo Bertolucci
- Bacurau, de Kléber Mendonça Filho
- A Mulher do Lado, de François Truffaut