Jovens leitores impulsionam venda de ficção, resgatam clássicos e vão lotar a Bienal do Livro de SP
O evento no Distrito Anhembi é a materialização da força da geração Z no mercado editorial. Leitores, editores e especialistas explicam como o BookTok e seus jovens impactaram o setor nos últimos anos
Impulsionada pelo BookTok, nicho literário do TikTok, a Geração Z tem transformado o mercado editorial no Brasil. Leitores de 18 a 34 anos já representam os maiores consumidores de livros no país, alavancando as vendas de ficção e resgatando obras clássicas de forma ampla, sem depender de um único fenômeno. Essa comunidade engajada, que compartilha tendências e busca ativamente novidades, é a grande aposta de público e presença para a Bienal do Livro de São Paulo, desafiando previsões pessimistas.
Laura Borges circulava pelo TikTok quando um livro específico começou a aparecer com frequência em seu algoritmo: era Noites Brancas, de um tal de Fiodor Dostoievski. Ela, que havia se tornado uma leitora voraz nos últimos meses, sentia vontade de ler algo diferente e decidiu dar uma chance ao clássico russo.
"Fiquei muito interessada, e as pessoas falavam que Noites Brancas era uma porta de entrada perfeita para a literatura russa. Era um livro curto, acessível. Pesquisei a sinopse e achei a temática interessante. Era um livro que conversava com as coisas que eu gostava. Resolvi dar uma chance e ainda bem que fiz isso. O TikTok me mostrou um livro que eu jamais teria lido se não fosse por influência das redes", conta ela.
Laura, de 25 anos, havia sido uma criança leitora, cresceu com os gibis da Turma da Mônica e livros infanto-juvenis. Quando entrou na adolescência, porém, o hábito se perdeu. Ficou por anos longe dos livros, até que em 2023 decidiu ler A Hipótese do Amor (Sextante), fenômeno de vendas da italiana Ali Hazelwood, quando vídeos sobre o romance apareciam sem parar na rede social de vídeos.
"Quando terminei [o livro], pensei: 'meu deus, isso é muito legal'. A partir daí, comecei a consumir muito conteúdo do BookTok e cada vez eu lia mais", conta ela. Essa é a história de milhares de jovens no Brasil e mundo a fora. O BookTok, nicho literário do TikTok, mudou a maneira como a geração Z consome literatura - o Estadão contou essa história lá trás, quando o fenômeno surgiu. para saber mais.
Não há dúvida de que quem circular pela Bienal do Livro de São Paulo nas próximas duas semanas encontrará milhares de jovens como Laura, que vem de Sapiranga, no interior do Rio Grande do Sul, para o evento. A feira, que começa nesta sexta, 4, e segue até dia 13 de setembro no Distrito Anhembi, é ponto de encontro de uma comunidade digital que vive e respira os livros - e que cada vez mais tem sido público essencial para o mercado editorial.
Jovens impulsionaram a venda de ficção no Brasil
Divulgada em maio deste ano, a pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, coordenada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), com apuração da Nielsen BookData, mostrou que as editoras de Obras Gerais tiveram um crescimento real de 6,6% em 2025.
Esse resultado tem relação, em parte, ao fenômeno dos livros de colorir (que, vale notar, também veio do TikTok e foi febre na Bienal do Livro do Rio 2025). Mas, para coordenadores da Nielsen BookData, ele também está diretamente ligado com os dados de outra pesquisa, a Panorama do Consumo de Livros, divulgada em março, que mostrou que os leitores jovens adultos, de 18 a 34 anos, são os maiores consumidores de livros no Brasil. Eles também são a faixa etária que mais busca indicações por redes sociais.
"O número mostra que a ficção está crescendo como um todo, não só um subgênero específico. Temos os fenômenos de topo de lista, mas tem todo um meio de catálogo que cresce também", diz Luiz Gaspar, diretor regional da NIQ BookData. Ou seja, o crescimento não vem puxado por apenas um best-seller, autor ou gênero, da maneira como poderíamos ter atribuído, no passado, a fenômenos individuais, como Harry Potter, Crepúsculo ou até Cinquenta Tons de Cinza.
"É preciso encontrar autores e temas capazes de mobilizar os jovens, mas, ao mesmo tempo, construir uma programação diversa em gêneros literários, gerações, experiências e perspectivas, que acolha todos os públicos", diz Leonardo Neto, coordenador da Arena Cultural, maior palco do evento.
"É um público muito presente, participativo e que chega ao evento com enorme disposição para descobrir novos livros, autores e histórias. Além disso, é um público que não apenas consome literatura, mas conversa sobre os livros, compartilha suas descobertas e ajuda a criar tendências. A presença e a força desses leitores na Bienal contradizem as previsões mais pessimistas de que o livro, como suporte, estaria chegando ao fim", completa.
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