Como 'Toxicity' representou o amadurecimento do System of a Down
Álbum lançado uma semana antes do 11 de setembro estourou banda no mundo em meio a boicote ao single por motivação política nos Estados Unidos
Lançado em 2001, "Toxicity" consolidou o System of a Down como força única no rock mundial. Produzido por Rick Rubin, o álbum superou o rótulo de nu metal ao mesclar folk, música oriental e vocais operáticos com arranjos complexos. Com letras ácidas e poéticas sobre drogas e prisões, o disco desafiou o conservadorismo pós-11 de setembro, quando sofreu censura nas rádios. O sucesso reafirmou a coragem política da banda, influenciando gerações a usar a música pesada como voz de resistência.
O System of a Down se tornou uma das bandas mais celebradas do metal no século 21. O grupo é capaz de fazer menos de 20 shows por ano e ainda figurar entre as maiores turnês do ano na música mundial. Entretanto, precisou haver um momento de virada para tudo isso começar a acontecer.
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Na virada do século, o quarteto americano já havia lançado sua estreia, System of a Down (1998) e preparava seu sucessor. O mundo estava num período drástico de mudança, no qual forças conservadoras tentaram frear o avanço de artistas vistos como subversivos. Felizmente, não havia como conter Toxicity (2001).
https://open.spotify.com/intl-pt/album/6jWde94ln40epKIQCd8XUh
Maior e melhor
O primeiro álbum do System of a Down soa como uma banda descobrindo sua identidade. O resultado foi algo novo para o contexto da música pesada, mas por conta da época em que foi lançado, acabou taxado de nu metal, mesmo tendo pouco ou até nada a ver com Korn, Limp Bizkit e afins.
Em entrevista de 2021 à Variety, o guitarrista Daron Malakian abordou a insatisfação de ser rotulado como algo diferente da sua proposta. Segundo o músico, as semelhanças eram mais geográficas, temporais e de oportunidades de carreira que musicais:
"Muitas pessoas chamam o System of a Down de nu metal e, para ser honesto, eu nunca me senti parte disso. Sim, nós surgimos em Los Angeles com muitas dessas bandas e, sim, tocamos nos primeiros Ozzfests com muitas dessas bandas, mas eu nunca senti que a gente soasse como muitas dessas bandas. Eu tenho um gosto musical amplo e é por isso que o System of a Down passa por muitos sentimentos, humores e estilos diferentes — não ficava preso só ao metal."
Quando chegou a hora de gravar o segundo álbum, o grupo tinha algo a provar não apenas para si mesmo, mas ao público também. Maior cuidado foi dado aos arranjos, especialmente de guitarra. Malakian gravava várias faixas diferentes do instrumento para criar um som impossível de fazer com uma pessoa só. Sem mencionar a insistência do produtor Rick Rubin em não usar qualquer tecnologia capaz de fazer o trabalho preso à sua época de lançamento. O objetivo era ser atemporal.
Além disso, o System passava por um período tão prolífico de composição a ponto de gerar material suficiente para dois álbuns. Então, tudo precisou passar por um crivo democrático. Os quatro integrantes - Malakian, o vocalista Serj Tankian, o baixista Shavo Odadjian e o baterista John Dolmayan - avaliaram todas as faixas anonimamente junto com Rubin e o empresário David "Beno" Benveniste. Tudo que recebia a nota máxima do plenário iria para o disco.
https://www.youtube.com/watch?v=L-iepu3EtyE&list=RDL-iepu3EtyE&start_radio=1&pp=ygUQc3lzdGVtIG9mIGEgZG93bqAHAQ%3D%3D
Drogas, orgias e Charles Manson
A primeira coisa a se notar de Toxicity é como o System of a Down soa diferente não apenas de seus contemporâneos de nu metal, mas também do resto da música pesada. As influências de folk e música árabe presentes no álbum não são tão alienígenas ao estilo — uma vez que o Led Zeppelin já explorou esse território nos anos 70 —, mas a banda americana tem uma arma potente na forma de como usa os vocais.
Serj Tankian é uma das vozes mais idiossincráticas do rock, operática de um jeito mais clássico. Ele não persegue agudos: sempre permanece numa posição confortável no seu alcance. Enquanto isso, Daron Malakian o complementava com um timbre mais anasalado que criava uma harmonia curiosa. Tipo um Alice in Chains psicótico.
As letras do álbum contemplam dilemas modernos através de poesia surrealista. "Needles" e "Chop Suey!" tratam de vício em drogas, com a segunda também abordando o tema de suicídio. "Bounce" fala de orgias. "ATWA" se inspira nos ensinamentos ecológicos de Charles Manson, líder de seita dos anos 1960 condenado por uma série de assassinatos cometidos por seus seguidores às suas ordens.
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Entretanto, a banda adota um tom direto a ponto de ser confrontativo em "Prison Song". Na música, Serj Tankian fala sobre a expansão do complexo industrial de prisões, que na época tinha atrás das grades milhões de americanos - desproporcionalmente não-brancos - usados como mão-de-obra análoga à escravidão. A letra não mede palavras:
"Delitos leves de drogas enchem suas prisões; você nem pestaneja
Todos os nossos impostos pagando suas guerras contra os novos não-ricos
Eu compro meu crack, minha heroína, minha garota bem aqui em Hollywood
A porcentagem de americanos no sistema prisional, o sistema prisional dobrou desde 1985"
https://www.youtube.com/watch?v=m4L20t8Dvlg&list=RDm4L20t8Dvlg&start_radio=1&pp=ygUcc3lzdGVtIG9mIGEgZG93biBQcmlzb24gU29uZ6AHAQ%3D%3D
Fibra moral
No fim das contas, o maior legado de Toxicity é talvez a postura política que o System of a Down trouxe consigo para o mainstream. O álbum foi lançado no dia 4 de setembro de 2001, em meio a tumulto num show gratuito de lançamento. A expectativa do público americano pelo novo trabalho do grupo era grande, tudo graças a muito trabalho na estrada, seja abrindo para outros artistas ou se apresentando no Ozzfest de 1999.
Aí houve 11 de setembro. Quase imediatamente, a Clear Channel, dona da maior rede de estações de rádio dos Estados Unidos, instituiu uma lista de músicas banidas da programação por conteúdo sensível. O primeiro single de Toxicity, "Chop Suey!", aparecia entre as faixas proibidas.
Dois dias após os ataques, Tankian postou online um artigo escrito por ele mesmo intitulado "Understanding Oil", no qual investiga as origens dos conflitos no Oriente Médio, as motivações dos governos com interesses na região e o que levou à queda das Torres Gêmeas. Embora condenasse os atentados terroristas sem reservas, o vocalista ao mesmo tempo mostrou como estes não ocorreram num vácuo: as ações dos Estados Unidos ao longo do período pós-Segunda Guerra criaram um ambiente onde não era questão de "se" e sim "quando" algo assim aconteceria.
A gravadora não gostou. A imprensa conservadora americana apreciou o gesto menos ainda. O single não tocava no rádio, mas mesmo assim os clipes se tornaram sucesso na MTV. Num período em que tudo poderia ter dado errado para o System of a Down, o público respondeu positivamente à disposição da banda de colocar a cara à tapa para defender suas convicções e exigir justiça para os oprimidos do mundo.
Julgar a influência do grupo em 2026 é complicado porque não dá pra soar que nem o System of a Down. Trata-se de uma das bandas mais musicalmente singulares da história do rock. Há de se argumentar ter apontado um caminho além do nu metal de artistas como Korn, Limp Bizkit e Linkin Park, apostando em elementos alternativos e mais cosmopolitas. Isso se prova na popularidade internacional do conjunto até hoje.
Entretanto, o impacto maior talvez seja no campo filosófico. O System nunca escondeu sua vertente política e sempre defendeu suas causas. Era uma banda de metal vivendo fora da bolha do excepcionalismo americano. Uma geração de artistas, seja quem teve Toxicity como obra formativa ou até contemporâneos, provavelmente se sentiram motivados a abraçar causas na sua música graças ao quarteto californiano. Numa época em que todo mundo é incentivado a ficar calado, vários erguem sua voz graças ao álbum.
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