História da velhice no Brasil: Mary Del Priore conta como tratamos nossos 'velhos' desde a Colônia
Novo livro da historiadora é um retrato das distintas formas como a sociedade brasileira vê e convive com a velhice
Tudo começou com uma inesperada dor no próprio joelho e a observação mais atenta à fragilidade da mãe centenária. "Foi quando o tema da velhice passou a me interessar, pois, afinal, sempre deixamos uma parte de nós mesmos na história que fazemos", conta a escritora e historiadora Mary Del Priore, de 73 anos, que, atenta aos fenômenos da sociedade, fez uma intensa pesquisa para escrever o livro Uma História da Velhice no Brasil, lançado agora pela Editora Vestígio, do Grupo Autêntica.
"A médio prazo, teremos um Brasil cheio de rugas", diz Mary, que enfrentou dificuldades para encontrar dados para sua pesquisa. "Os velhos foram absolutamente invisíveis aos nossos olhos praticamente até o início do século 19. Os relatos que tirei de documentos ou de cartas jesuíticas, de cronistas do século 17 e 18, demonstram que eram vidas apagadas e que para eles a velhice era inevitável", diz a historiadora.
"Ou era um desígnio de Deus, ou do diabo, que também dizia que os pecadores viviam mais graças a ele. A verdade é que eram vidas muito miúdas, mas é fantástico perceber como, a partir do século 19, os velhos começam a serem vistos."
"A implantação da aposentadoria no Brasil em 1923 vai definitivamente mudar a vida dos velhos, com graves consequências porque muitos, ao deixarem o trabalho, não tinham outra atividade, o que incitou vários ao alcoolismo e até a suicídios. O chefe de família, de repente, teve de lidar com um vazio e com uma ameaça ao seu protagonismo como provedor."
As mudanças na sociedade são hoje um desafio para os idosos, obrigados muitas vezes a lidar com a solidão e preocupados com a independência econômica, a saúde, o fim de laços familiares.
"Por outro lado, o velho de hoje busca se adequar à tecnologia, tentando entender a Inteligência Artificial, fazendo aulas sobre como usar melhor o celular - conheço quem não sabe tirar fotos com o aparelho. As novas gerações definem o perfil da geração anterior. O velho ainda tem a noção de que é cidadão porque viaja para Cancún, compra aparelhos ortopédicos e dentaduras de titânio. Ele ganhou importância ao se transformar em consumidor", conta Mary que, ao terminar o livro, percebeu que a dor no joelho tinha ido embora, mas sua mãe também.
"Morreu à antiga, em casa, com a filha e o neto ao pé da cama. Exemplar, ela viveu intensamente todas as idades."
Série 'Encontro com os Escritores' recebe Mary Del Priore para discutir o envelhecimento
A escritora e historiadora Mary Del Priore é a convidada da série Encontro com os Escritores para discutir como o envelhecimento foi vivido e representado no Brasil do século 16 ao 20. O encontro acontece no dia 22, das 19h às 22h na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, e contará com a mediação de Manuel da Costa Pinto, jornalista, crítico literário, e mestre em teoria literária e literatura comparada pela Universidade de São Paulo (USP).
- Encontro com os Escritores: Mary Del Priore
- Quando: 22 de abril
- Horário: das 19h às 21h
- Onde: Biblioteca Mário de Andrade - Rua da Consolação, 94, República
- Evento gratuito (As vagas são limitadas de acordo com a capacidade do auditório)