Grupo Corpo promove encontro das águas em sua 'Piracema' para abrir um novo caminho nos seus 50 anos
Uma das mais prestigiosas companhias de dança do Brasil apresenta nova coreografia em São Paulo que celebra sua história e vai além, afinal, dança é movimento
Cuidado. Não espere encontrar em Piracema o Grupo Corpo que você viu ao longo dos últimos anos. Ao menos não espere encontrar o mesmo grupo. Dança é movimento. E o movimento que celebra cinco décadas de Corpo traz coisas novas.
Parabelo, trabalho de 1997 que abre a noite, pode dar a falsa sensação de que o espectador encontrará, novamente, mais um espetáculo carregado de brasilidade, cor e o "dançar Pederneiras" que marcou alguns dos trabalhos mais brilhantes da dança nas últimas cinco décadas.
Tudo isso estará lá. Mas não só. E é exatamente esse "não só" que faz dessa coreografia um novo começo para quem virou sinônimo de dança contemporânea brasileira.
Piracema é mais do que um conto metafórico sobre a árdua tarefa de nadar contra a corrente em busca do lugar ideal para a desova. A Piracema do Corpo é, em sua essência, um encontro de águas. O mar de Pederneiras recebendo em sua imensidão as águas de Cassi Abranches.
O encontro deixa marcas. É possível ver "pederneiríces" por todas as partes, mas quem tem Corpo na alma percebe as "abranchisses" que chegam para mudar. Há momentos em que o choque criativo se sobressai. Passado o susto, percebe-se que um terceiro espelho d'água surge a partir desse encontro até então inesperado.
A sonoridade também difere do que se ouviu nos anos recentes. E isso se reflete no dançar, especialmente quando as cordas tocam e o espectador é levado para um cenário europeu, que nos soa "clássico". Tudo muda no momento em que é permitido aos olhos ver o que está no palco. É novo, é diferente, é inesperado.
No encerramento, o corpo de baile — que traz caras novas — surge com movimentos que lembram o fechamento de Parabelo, a obra quase trintona que abriu a noite. Lá está Pederneiras, com toques e perfumes do que o futuro promete nos presentear.
As montanhas que cercam Belo Horizonte dão aos que nasceram naquela terra uma espécie de proteção, transformando o viver num laboratório de experiências ímpares. Mas ao caminhar até o cume da serra, é possível avistar outros horizontes e entender que é hora de mostrar ao mundo o que foi talhado sobre a terra avermelhada de minério.
Na noite fria paulistana do dia 13 do mês do cachorro louco, o Grupo Corpo deu os primeiros passos para seu novo presente. E ele promete.
Serviço - Parabelo | Piracema
- Duração: Parabelo (42 min) e Piracema (37 min)
- Onde: Teatro Sérgio Cardoso. R. Rui Barbosa, 153, Bela Vista - Tel: (11) 3882-8080.
- Quando: De 13/8 a 24/8. Quarta a sábado, 20h; domingo, 16h. Algumas datas já estão esgotadas
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