Regina Duarte é muito mais feminista do que imagina por vários motivos pessoais e profissionais
Atriz teve atitudes de autonomia e libertação que desafiaram o domínio masculino de sua época
A caminho dos 80 anos, Regina Duarte se define como uma caipira submissa aos homens.
É a favor da separação de papéis entre o masculino e o feminino. Gosta que eles façam as tarefas pesadas.
Disse isso em matéria na ‘Folha’.
Questionada se é feminista, afirmou não gostar do termo. Esse discurso conservador faz brilhar os olhos de bolsonaristas e direitistas em geral.
Regina se trai com a própria história que construiu na TV e na vida privada.
O feminismo grita em sua trajetória.
Entre oficiais e informais, ela teve cinco casamentos.
O primeiro terminou quando nem existia a lei do divórcio no Brasil. Uma mulher desquitada, seja famosa ou anônima, era duramente julgada pela sociedade.
Encerrar um relacionamento e buscar a felicidade com outro companheiro era e ainda é uma atitude feminista.
A maioria das mulheres da geração de Regina não teve essa coragem e amargou longa infelicidade conjugal em nome do ‘até que a morte nos separe’.
E ela também ousou ter filhos de homens diferentes, uma situação socialmente reprovada no início da década de 1980.
Naquele mesmo período, Regina se tornou a atriz mais bem paga da televisão brasileira, com salário superior ao da maioria dos colegas do sexo masculino.
Negociava com pulso firme seus contratos com a Globo. Ficou rica.
Se hoje as mulheres em geral — de operárias a executivas — ainda ganham menos do que os homens desempenhando a mesma função, imagine naquele tempo.
Com talento e jornadas exaustivas nos estúdios, a artista furou o machismo no mercado de trabalho.
Por conta das mocinhas dóceis e caretas interpretadas nas novelas, Regina ganhou o apelido ‘namoradinha do Brasil’.
Era a imagem da esposa-troféu desejada por qualquer ‘cidadão de bem’. Como se dizia na época, uma mulher de família.
Ela rompeu com o rótulo ao viver Malu, a socióloga protagonista do seriado ‘Malu Mulher’, marco do feminismo na teledramaturgia, no ar entre 1979 e 1980.
A atriz emprestou credibilidade artística e poder de influência para suscitar debates sobre o fim do casamento, a violência doméstica, o aborto e outros temas incômodos que ainda fazem a família tradicional pular do sofá.
Na entrevista à ‘Folha’, confessou que aquela personagem explicitamente progressista a tornou “uma nova mulher”.
“Abriu a minha cabeça dizendo ‘é possível, sim, ter vontade, ter opinião, lutar por isso tudo’.”
Regina Duarte pode não se reconhecer na palavra feminista, e tem todo o direito de rejeitá-la.
Mas é difícil olhar para seu percurso sem enxergar uma mulher que, em diferentes momentos, desafiou e derrotou as regras e os medos impostos ao ‘sexo frágil’.
Sem querer e sem militar, ela incentivou milhares ou talvez milhões de brasileiras a ter consciência do direito a relacionamento amoroso saudável, vida sexual, carreira profissional com reconhecimento financeiro e independência intelectual no mundo criado por homens e para homens.
Se isso não é feminismo, qual o nome?
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