Com curso na Casa do Saber, Kaká Werá analisa indígenas em ‘Terra e Paixão’
Escritor e ambientalista opina sobre a maneira como a imprensa e a teledramaturgia retratam os povos originários
Nascido no povo tapuia e criado em uma comunidade guarani, Kaká Werá atua fortemente na divulgação da cultura indígena e em defesa dos povos originários. Já esteve, por exemplo, no centro da arena do ‘Roda Vida’, da TV Cultura.
No momento, ele faz parceria com a plataforma Casa do Saber em um curso on-line sobre aspectos do pensamento dos indígenas. Comenta sobre vida, ancestralidade, espiritualidade, a relação com o tempo e morte.
Atento à exposição e exploração da imagem dos nativos brasileiros, Kaká Werá enxerga como positiva a visibilidade na mídia e especialmente em novelas.
Como o senhor analisa a maneira que a imprensa se refere aos indígenas? Há um olhar estereotipado?
De modo geral, por conta de todo um imaginário constituído de vieses na sociedade brasileira, a imprensa ainda se refere, sim, aos indígenas de uma maneira estereotipada. No entanto, há uma crescente transformação nesse sentido, provocada por várias causas, entre elas, o empenho de lideranças e estudiosos acessando os diversos meios de comunicação e as redes sociais, oferecendo outras possibilidades de olhar. Ao mesmo tempo, o público que se interessa pelo saber, pelas filosofias, invariavelmente foge desse estereótipo. É mais aberto e empático. São pessoas em busca de autoconhecimento, transcendem esses estereótipos.
Os povos nativos têm ampliado presença na TV. Um indígena apareceu na abertura da novela ‘Vai na Fé’ e outros, entre eles o escritor e ativista Daniel Munduruku, estão no elenco de ‘Terra e Paixão’. Considera importante essa visibilidade?
Se você olhar as produções de cinema e televisão no Brasil, raramente vai ver um representante, um cidadão indígena, incluído ali sem que seja de uma forma ou estereotipada, ou muito generalizada. No entanto, algumas iniciativas colaboram para quebrar essa visão distorcida. A participação em uma novela de uma liderança como Daniel Muduruku, de uma maneira respeitosa, contribui para diminuir os vieses. Outro fato importante é que agora temos um indígena na Academia Brasileira de Letras, o Ailton Krenak (eleito em outubro deste ano), um pensador reconhecido e premiado.
Como seu curso na Casa do Saber pode ajudar um leigo sobre a história e as tradições indígenas a encarar a vida de maneira mais significativa?
Embora esse curso se fundamente na tradição Tupi, apresenta uma filosofia, uma cosmovisão, com princípios universais que tocam diretamente na alma, na nossa essência. Dessa forma, tem o potencial de inspirar as pessoas, ajudá-las a encarar a vida de uma maneira mais ampla, saindo do seu paradigma e ressignificando alguns aspectos da própria vida.