Script = https://s1.trrsf.com/update-1770314720/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Clô Lopes faz desfile histórico na Bahia e se projeta na Europa: “Adoro ver uma mulher elegante”

Estilista relata os obstáculos e as alegrias de sair do interior do Brasil para buscar espaço próprio no universo fashion de Londres

3 mar 2026 - 14h51
(atualizado às 14h51)
Compartilhar
Exibir comentários

Cordeiros é um município com menos de 10 mil habitantes no sudoeste da Bahia. Em dezembro, os moradores acostumados às festas religiosas e aos eventos ligados à agricultura tiveram uma experiência diferente: assistir a um desfile de moda pela primeira vez.

Nascido na cidade e hoje vivendo entre Londres e Dublin, o estilista Clô Lopes aproveitou as férias para rever a família e apresentar peças de suas coleções em um evento que teve shows de artistas locais.

De origem humilde, ele se tornou imigrante no Velho Mundo em busca da realização do sonho de ter a própria marca e vestir celebridades que são referência de estilo.

Na conversa franca com a coluna, Clô ressalta a importância do estudo, a dificuldade de novos talentos conseguirem uma oportunidade e indica as mulheres famosas que deseja vestir.

Do interior da Bahia para a luxuosa Londres: Clô Lopes investiu nos estudos para realizar o sonho de trabalhar com moda internacional
Do interior da Bahia para a luxuosa Londres: Clô Lopes investiu nos estudos para realizar o sonho de trabalhar com moda internacional
Foto: Divulgação

Quando começou seu interesse por moda? 

Desde muito jovem, sempre tive um interesse natural por moda, mesmo sem entender bem o que era isso. Eu adorava desenhar vestidos e minha amiga Dalvina, que também tinha a mesma paixão, fazia ilustrações incríveis de corpos femininos nus com asas de anjo, muitas vezes vestindo trajes deslumbrantes. Ela também amava criar suas próprias roupas. Eu era bem novo na época e, como brincadeira, ela desenhou um corpo para eu usar como base, e a partir daí comecei a criar meus próprios vestidos. Lembro que um dia, enquanto desenhava na sala de aula, a professora Zilda me disse: ‘Você poderia ser estilista’. Eu nem sabia muito bem o que isso significava.

Na infância e adolescência, tinha um estilo próprio? 

Fui atraído por vestidos de festa e pelo mundo da moda noite. Adoro ver uma mulher elegante, com vestido e salto alto, acho fascinante. Pensei que, após a faculdade de moda, meu gosto poderia mudar, mas, para minha surpresa, a paixão por ‘evening wear’ só cresceu. É uma imagem que continua a me inspirar a criar.

Era consumista?

Naquela época, eu não tinha condições de comprar muitas roupas, então a moda não era algo que consumia tanto. Eu me vestia de forma prática, sem me preocupar em seguir tendências ou ter um estilo próprio. Não me via como um fashionista, e sim como alguém que usava o que tinha disponível.

O brasileiro se inspirou em mulheres famosas para criar alguns dos looks de suas coleções
O brasileiro se inspirou em mulheres famosas para criar alguns dos looks de suas coleções
Foto: Reprodução

Estudou moda no Brasil? 

Não pude pagar para estudar no Brasil. Uma pessoa próxima a mim disse: ‘Moda é para filhinhos de papai, você é pobre’. Ouvir isso foi muito doloroso, mas nunca desisti do meu sonho. Demorou, mas hoje estou feliz e realizado, fazendo o que amo e, aos poucos, conquistando meu espaço na indústria da moda com o trabalho que tanto amo.

Quais foram seus trabalhos no Brasil?  

Fui assistente de cabeleireiro nos salões 1838 e no MG Hair, ambos localizados no bairro dos Jardins, em São Paulo. Tive a sorte de encontrar pessoas incríveis ao longo da minha trajetória. Uma delas foi Juha Antero, renomado colorista do MG Hair. Embora eu tenha entregue meu currículo pessoalmente, nunca fui chamado. Então, decidi enviar uma mensagem em inglês para ele. Naquela época, eu já dominava o idioma, que aprendi assistindo a filmes e entrevistas de modelos como Naomi Campbell e Gisele Bündchen. Para minha surpresa, Juha respondeu e conseguiu um teste para mim. Após ser aprovado, ele disse à equipe: “Quero que vocês o preparem para que ele se torne até melhor do que vocês”. No 1838, conheci outra pessoa especial, Lucinha Mauro, a proprietária do salão. Ela sempre foi extremamente gentil. Lembro-me de um dia que eu almoçava no vestiário uma simples bisnaga, era o que eu tinha. Ao saber disso, Lucinha decidiu que, a partir daquele dia, o salão providenciaria meu almoço diariamente. Esse gesto de generosidade ficará para sempre na minha memória.

Conheceu mais alguém importante?

Foi lá também que minha vida tomou um novo rumo ao conhecer (a empresária e socialite) Ana Paula Junqueira. Passei a trabalhar com ela como ‘private hairstylist’ (maquiador e cabeleireiro exclusivo), e isso abriu as portas do mundo da moda para mim. O closet dela era um verdadeiro sonho, repleto de peças de Valentino, Azzedine Alaïa, Prada, Dolce & Gabbana, Stella McCartney, Reinaldo Lourenço, Pedro Lourenço, Glória Coelho, entre outros. Essa experiência fez minha paixão pela moda florescer ainda mais. Ana Paula me apresentou ao estilista Reinaldo Lourenço, seu amigo e alguém que eu sempre admirei. Comecei a estagiar na marca dele, onde pude acompanhar de perto o processo de criação na fábrica e vivenciar a experiência de ver as peças finalizadas sendo vendidas na loja.

Antes de se dedicar 100% à moda na Europa, Clô Lopes trabalhou como cabeleireiro e maquiador no Brasil
Antes de se dedicar 100% à moda na Europa, Clô Lopes trabalhou como cabeleireiro e maquiador no Brasil
Foto: Divulgação

Quem eram suas referências na moda? 

Sempre foram Clodovil, Ronaldo Esper, Reinaldo Lourenço, Pedro Lourenço, Glória Coelho, Valentino Garavani, Stella McCartney, Marc Jacobs, Vivienne Westwood e Azzedine Alaïa. Cada um deles deixou uma marca profunda em minha trajetória, seja pela sua criatividade, inovação ou domínio excepcional da arte de criar moda. Mesmo aqueles que já partiram continuam a me inspirar de forma única, mantendo seu legado vivo no meu trabalho.

Como foi parar na Europa? 

Conheci meu namorado irlandês, e começamos a nos relacionar. Em um determinado momento, ele me convidou para visitá-lo na Europa. Assim que cheguei, me identifiquei tanto com o lugar que senti que não queria mais voltar. Disse a mim mesmo: “É aqui que quero ficar.” No primeiro ano, viajei algumas vezes ao Brasil, até que finalmente decidi ficar de vez.

Fale um pouco de seus estudos de moda em Londres. 

Primeiro, estudei em Dublin, na Irlanda, na Grafton Academy of Fashion Design, uma escola renomada e especializada em desenvolvimento de moda, modelagem, corte e costura. Foi lá que adquiri uma base sólida e desenvolvi a habilidade de criar uma peça completa, desde o croqui até a peça final. Minha experiência na Grafton foi essencial para me tornar um profissional completo e confiante no processo criativo e técnico da moda. Minha dedicação e paixão foram reconhecidas, e consegui concluir o curso de três anos em apenas dois. Como resultado, fui convidado a continuar meus estudos com um Master of Fine Arts (MFA) in Fashion Design, aprofundando ainda mais meu conhecimento em design e expressão artística. Com essa experiência, segui para Londres, onde tive a oportunidade de estudar no prestigiado Istituto Marangoni. Durante meu Master of Arts (MA) em Design de Moda, ampliei minha visão criativa e adquiri um conhecimento mais aprofundado sobre o mercado de moda global. A combinação das bases práticas e técnicas da Grafton Academy com a abordagem conceitual e estratégica do Istituto Marangoni foi fundamental para minha formação como designer.

Peças criadas pelo estilista e ele no dia da formatura no renomado Istituto Marangoni em Londres
Peças criadas pelo estilista e ele no dia da formatura no renomado Istituto Marangoni em Londres
Foto: Reprodução

Já criou várias coleções?

Desenvolvi coleções durante meus estudos, e ainda as guardo comigo. Embora não tenha colocado essas peças à venda, meu estilo é clássico e comercial. Acredito que, se tivesse optado por vendê-las, elas teriam tido boa aceitação no mercado.

Qual seu objetivo no mercado de moda? 

Atualmente, colaboro como ‘guest designer’ (estilista colaborador) com a marca Nominal London aqui em Londres. Estava em busca de oportunidades na indústria da moda, que pode ser uma verdadeira bolha difícil de furar quando não se tem conexões. No entanto, tive a sorte de conhecer a CEO da marca, Krisztina Kalman, em um evento de moda. Curiosamente, estávamos usando jaquetas do mesmo tecido e cor, o que iniciou uma conversa descontraída. Compartilhei com ela minha experiência ajudando estudantes de mestrado na Jimmy Choo Academy a finalizarem suas coleções para a London Fashion Week. Ela me entregou seu cartão de visita no mesmo dia e, pouco depois, entrei em contato para buscar uma oportunidade. Realizamos nossa primeira colaboração, foi um sucesso. Desde então, continuamos a trabalhar juntos. Recentemente, colaborei na coleção de Inverno 2025 da marca.

Faz sob medida?

Sim, paralelamente, tenho minha própria marca, a Cloazus, que estou construindo passo a passo. Optei por me dedicar ao ‘bespoke’ (sob medida) porque iniciar e financiar uma marca própria não é fácil, especialmente sem grandes oportunidades na indústria. Busco trabalhar de forma consciente e sustentável, desenvolvendo peças modernas, sofisticadas e de alta qualidade, pensadas para valorizar quem as veste e durar por muitos anos.

Ainda encontra portas fechadas?

Uma das maiores dificuldades na minha trajetória foi tentar entrar na indústria da moda sem ter contatos ou influência. Eu me dediquei muitos anos aos estudos, buscando aprender profundamente modelagem, design e construção de roupas, porque sempre acreditei que ser bom no que faço seria o suficiente para conquistar uma oportunidade. Mas a realidade nem sempre funciona assim. Muitas empresas pedem experiência em grandes marcas, mas, ao mesmo tempo, não dão espaço para que novos profissionais possam provar o seu talento. Isso cria um ciclo difícil de quebrar, principalmente para quem vem de fora e precisa construir tudo sozinho. Tive experiências como estagiário que me fizeram refletir muito sobre isso. Em muitos momentos, o estagiário trabalha tanto quanto, ou até mais, do que pessoas contratadas, mas ainda assim não é valorizado da mesma forma. Percebi que, se eu esperasse apenas por uma oportunidade, talvez ela nunca chegasse. Foi quando decidi abrir meu próprio estúdio sob medida, como uma forma de criar o meu próprio caminho dentro da moda. Até hoje ainda não consegui uma oportunidade dentro da indústria da forma como muitos imaginam que deveria acontecer. E isso me faz pensar no quanto o talento, sozinho, pode não ser suficiente quando não se tem acesso, indicação ou influência. Não digo isso com amargura, mas como uma reflexão.

Ser brasileiro traz vantagens ou desvantagens em trabalhar com moda em Londres? 

Acredito que ser brasileiro traz muitas vantagens. Nossa alegria, o calor humano e a personalidade nos ajudam a nos destacar em um ambiente onde, muitas vezes, as pessoas podem ser mais reservadas. A energia positiva e a vontade de vencer, características tão presentes na nossa cultura, contagiam e abrem portas. Isso tem sido algo muito positivo para mim e tem contribuído bastante para o meu crescimento profissional.

Entre os estilistas que inspiram Clô Lopes estão os brasileiros Reinaldo Lourenço, Pedro Lourenço e Glória Coelho
Entre os estilistas que inspiram Clô Lopes estão os brasileiros Reinaldo Lourenço, Pedro Lourenço e Glória Coelho
Foto: Divulgação

Hoje, você se espelha no trabalho de alguém? 

O trabalho de Daniel Roseberry na Schiaparelli é incrível, pois ele consegue manter a excelência no craftsmanship (criação artesanal) e a ousadia que essencial para a estética única da marca, mesmo com o avanço da tecnologia. Ele continua a criar peças que são artísticas, modernas e atemporais. Também me inspiro no trabalho de Reinaldo Lourenço, que mantém sua moda elegante, moderna e, ao mesmo tempo, com um toque atemporal.

Quais famosas, brasileiras e gringas, gostaria de vestir?

Eu adoraria vestir mulheres que são ícones de estilo e confiança, como Adriane Galisteu, Maria Fernanda Cândido e Marina Ruy Barbosa. Elas representam a elegância e a sofisticação que busco nas minhas criações, têm um porte sofisticado e uma presença marcante. A Ana Paula Junqueira, além de ser uma grande amiga, também é uma fonte de inspiração pela sua personalidade única. Ela exala elegância e confiança, e sua maneira de se portar e de se expressar transmite uma sensualidade natural que, para mim, é um exemplo de como a moda pode ser poderosa. Posso citar ainda Naomi Campbell, Gisele Bündchen, Beyoncé, Rihanna, Kate Moss, Alessandra Ambrósio, Sabrina Sato, Izabel Goulart, Deborah Secco, Isabella Fiorentino e Ana Hickmann.

Algum sonho especial?

Sonho voltar para minha cidade, Cordeiros, e abrir uma fábrica de costura, onde eu possa capacitar pessoas e criar oportunidades para que a gente cresça juntos. Quando fiz meu primeiro curso de moda a distância, pela Escola de Moda Profissional em São Paulo, minha comunidade se uniu e fez doações para que eu pudesse pagar o curso e as apostilas. Esse gesto marcou minha trajetória e reforçou meu desejo de um dia retribuir.

Abaixo, um momento do desfile realizado em Cordeiros, na Bahia, no fim de 2025.

Sala de TV Blog Sala de TV -  Todo o conteúdo (textos, ilustrações, áudios, fotos, gráficos, arquivos etc.) deste blog e a obtenção de todas as autorizações e licenças necessárias são de total responsabilidade do colunista que o assina. As opiniões do colunista não representam a visão do Terra. Qualquer dúvida ou reclamação, favor contatá-lo diretamente no e-mail beniciojeff@gmail.com.
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra












Publicidade