Armênio inspirado por Aracy Balabanian para ser ator no Brasil chora a morte dela
Famoso por entrevistas no ‘Programa do Jô’, Arthur Haroyan descobriu a atriz quando estava refugiado na Rússia na época da guerra na Armênia
Os primeiros armênios chegaram ao Brasil por volta de 1920. Hoje, são cerca de 100 mil descendentes daquele povo que habita o Cáucaso, entre a Europa e a Ásia.
A comunidade em São Paulo é tão importante que há uma estação de metrô chamada Armênia, em homenagem aos imigrantes.
Um dos armênios mais conhecidos no Brasil é o ator e escritor Arthur Haroyan. A paixão pelas novelas da Globo o fez se aventurar aqui, onde construiu uma carreira no audiovisual.
Sua maior inspiração na teledramaturgia foi Aracy Balabanian, filha de imigrantes armênios, nascida no Mato Grosso do Sul. A aclamada atriz morreu no dia 7 de agosto, aos 83 anos.
Em entrevista ao Sala de TV, Haroyan comenta sua ligação com a artista.
Como soube que Aracy descendia de armênios?
Descobri Aracy não na Armênia, mas na Sibéria, para onde minha família foi morar temporariamente por causa da guerra. Era 1996 e eu já sabia que o Primeiro Canal Federal da Rússia exibiria uma novela nova com o título ‘A Próxima Vítima’, preenchendo toda minha atenção. Estava sentado no sofá, ansiosamente esperando o primeiro capítulo, quando começaram a anunciar os atores. Ao escutar o nome da Aracy Balabanian, dei um pulo. Não porque a conhecia, mas porque o sobrenome de todos os armênios possui a mesma terminação ‘ian/yan’. Gritei: “Mãe, tem uma atriz armênia no Brasil e se chama Aracy Balabanian”. Enrolando charutinhos de folha de uva, minha mãe respondeu que nenhum armênio chegaria no Brasil, pois era impossível chegar lá. Sentei, fechei os olhos e fiz um desejo: encontrar Aracy Balabanian e provar para minha família que havia uma armênia no Brasil e que, sim, era possível chegar no país. Depois de 18 anos, encontrei a Aracy e enviei a foto que fiz com ela para minha família, provando o impossível.
Qual a influência de Aracy em sua decisão de ser ator e vir para o Brasil?
A minha escolha profissional aconteceu antes de eu saber sobre Aracy. Ela é uma grande referência, não apenas como artista, também como ser humano. A sua comédia sempre foi sofisticada, o seu drama era denso, um exemplo a seguir, a se inspirar, ainda mais quando há uma base de autoidentificação, pois somos do mesmo povo, do mesmo ‘ian’.
Quais suas personagens preferidas de Aracy?
O papel que me fez conhecê-la foi Filomena Ferreto Giardini (de ‘A Próxima Vítima’). Mais tarde, quando me mudei para o Brasil, minha querida amiga Ana me presenteou com a coletânea da novela ‘Rainha da Sucata’, pois um dia, sem querer, eu falei “na chon”, porque confundia os gêneros, ainda não falava bem português. O papel da Dona Armênia foi emblemático não apenas para mim, mas para toda comunidade armênia no Brasil. Agradeço a ela por isso!
Como a conheceu pessoalmente?
Através da entrevista que dei para o Jô Soares, a assessora da Aracy entrou em contato comigo, dizendo que ela queria me conhecer. Antes do nosso encontro, conversamos ao telefone. (Mais detalhes desse momento especial podem ser lidos no livro ‘O Armênico’, lançado por Arthur Haroyan pela editora The Books.)
Vocês mantinham contato?
Só virtualmente, pois eu moro em São Paulo e ela vivia no Rio. Mas quando Aracy mandava emojis para os meus Stories, eu literalmente caia “na chon”.
Acha que a morte dela será noticiada na TV da Armênia?
Sim, foi noticiada. Ao saber da morte, fui andar por uma estrada linda, cercada de florestas e montanhas aqui na Armênia. Chorei e depois sorri, agradecendo ao meu país e aos nossos ancestrais por Aracy. Enquanto eu estiver vivo, farei de tudo para que o nome de Aracy Balabanian seja glorificado.