Fotografia impecável de Sebastião Salgado compõe legado que o tempo presente é incapaz de mensurar
Um dos maiores fotógrafos da história, Sebastião Salgado morreu aos 81 anos
Eu costumava dizer que Sebastião Salgado, que morreu nesta sexta, 23, aos 81 anos, era um planeta. Ele alterava a órbita das coisas ao seu redor e trazia consigo uma gravidade própria, apenas pelo simples ato da presença. Ao entrar numa sala, tudo passava a girar, merecidamente, em torno dele.
Essa qualidade não lhe foi concedida, mas conquistada. Sua trajetória não apenas elevou a fotografia brasileira ao mais alto patamar, como também deixou um legado ecológico de enorme impacto — um exemplo de amor e cuidado com amigos, familiares e com o planeta.
Após formar-se em Economia na Universidade Federal do Espírito Santo e concluir o mestrado na Universidade de São Paulo, mudou-se, em 1969, para Paris, onde deu sequência aos estudos e iniciou uma promissora carreira internacional como economista.
Seu trabalho como consultor da Organização Internacional do Café o levou a viajar por diversos países da África, Ásia e América Latina. Nessas viagens, Salgado teve seu primeiro contato real com a diversidade humana e as desigualdades sociais do mundo em desenvolvimento, e começou a usar a câmera fotográfica para registrar imagens das paisagens e das pessoas que conhecia.
A fotografia, inicialmente um interesse paralelo, rapidamente se impôs como uma necessidade vital: uma forma mais direta e visceral de se conectar ao mundo, de narrar suas contradições e belezas, que o trabalho burocrático da economia não conseguia oferecer. Assim, no início dos anos 1970, Salgado decidiu abandonar a carreira de economista para se dedicar integralmente à fotografia.
Sebastião Salgado e o atentado a Ronald Reagan
Curiosamente, a fotografia que minha geração menos conhece de Salgado é justamente a que mais ajudou a moldar seu estilo fotográfico documental. Em 30 de março de 1981, o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, sofreu um atentado em frente ao hotel Hilton, em Washington D.C. E, por uma combinação singular de circunstâncias (não me venham falar de sorte!), Sebastião fez a imagem icônica desse acontecimento. Para gerações anteriores à minha, essa imagem circulou o mundo e, claro, ganhou capas de jornais e revistas. Mas aí vem o mais interessante.
Salgado contou, em entrevista de 2013, que, ao receber um cartão de visitas de outro fotógrafo que se apresentava como "fotógrafo presente no atentado de Reagan", decidiu então deixar de divulgar sua imagem do ocorrido. Disse à sua companheira, Lélia: "Não quero ser reconhecido por isso". Foi nesse momento que compreendeu que seus projetos teriam relevância e impacto muito maiores do que uma notícia isolada.
Olhar para as pessoas e a natureza
Essa poderosa tomada de decisão nos deu Trabalhadores, Êxodos, Gênesis, Amazônia e tantas outras narrativas visuais que não apenas documentam o mundo, mas o interrogam, o celebram e o denunciam, construindo um legado inigualável de beleza, ética e resistência.
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Esse episódio — e, na realidade, toda sua trajetória — revela ainda como Salgado concebeu sua produção e gerenciou sua carreira: sempre em parceria com Lélia, responsável pela curadoria e pelo design das exposições e livros. Juntos, estabeleceram um modelo exemplar de gestão de carreira artística.
Sebastião e Lélia levaram além da fotografia esse poderoso compromisso ao fundarem, em 1998, o Instituto Terra, em Aimorés (MG). A iniciativa, liderada por Lélia e com o envolvimento direto de Sebastião, tornou-se referência internacional em restauração ambiental, recuperando áreas degradadas da Mata Atlântica com o plantio de milhões de árvores. O Instituto sintetiza a visão do casal: transformar não apenas imagens, mas também paisagens, unindo arte, ciência e ação concreta pela preservação do planeta.
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A verdade é que o fruto da dedicação do casal ultrapassa as fronteiras da fotografia documental para dialogar com o cinema, a literatura, as artes visuais e, claro, com políticas públicas de meio ambiente e direitos humanos.
As milhares de imagens feitas por Sebastião, cada uma com sua fração de tempo de exposição e enquadramento impecável, compõem um legado que o tempo presente é incapaz de mensurar. Suas ações, com a câmera e por trás dela, perpetuarão sob a forma de imagens e imensas florestas plantadas.
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Que esses presentes, deixados por ele e por sua parceria amorosa com Lélia, nos inspirem a construir um mundo mais belo e revestido de verde, talvez a única cor que (além do preto e branco) realmente lhe interessava.