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Expectativa exagerada pode arruinar experiência com Pantanal

Público espera nova ‘Avenida Brasil’ sem perceber as mudanças em si mesmo e na maneira de ver TV nos últimos 10 anos

30 dez 2021 11h05
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As Jumas Cristiana Oliveira e Alanis Guillen
As Jumas Cristiana Oliveira e Alanis Guillen
Foto: Fotomontagem: Blog Sala de TV

Quando ‘Pantanal’ estrear, em março, ‘Avenida Brasil’ vai completar uma década. O remake da novela rural exibida na TV Manchete, que abalou a Globo em 1990, tem a missão de igualar ou ultrapassar o resultado do folhetim suburbano que parou o País em 2012.

Nos últimos 10 anos, nenhuma produção das 21h conseguiu a mesma média de audiência da trama das rivais Carminha (Adriana Esteves) e Nina/Rita (Debora Falabella). Aqueles 38.7 pontos estão muito à frente da parcial 22.5 da novela atual no horário, ‘Um Lugar ao Sol’.

A faixa teve alguns sucessos, como ‘Amor à Vida’ (2013/2014) e ‘O Outro Lado do Paraíso’ (2017/2018), porém, distantes do frenesi provocado por ‘Avenida Brasil’ nas conversas do dia a dia, nas redes sociais e no imaginário popular.

Desde então, os noveleiros e a imprensa especializada em TV aguardam outro fenômeno semelhante. A paixão pelo gênero mais popular de ficção no Brasil, cultivada nos últimos 70 anos, faz a gente ter alta expectativa – e o risco de frustração é proporcional.

Apesar das opções intermináveis nos canais pagos e em plataformas de streaming como Amazon Prime, o telespectador ‘das antigas’ ainda tem uma ligação emocional forte com o novelão da Globo.

Afinal, foi o principal entretenimento noturno na casa da maioria das famílias ao longo de décadas. Era nossa segunda vida. “A televisão provou que as pessoas preferem olhar qualquer coisa a se olharem”, escreveu a jornalista americana Ann Landers.

‘Pantanal’ poderá resgatar aquele desejo diário de assistir, se deixar envolver, torcer pelos personagens aos quais projetamos o que somos ou gostaríamos de ser, embarcar no escapismo efêmero antes de ir dormir para logo acordar a fim de, a contragosto, encarar a realidade sufocante. Novela pode ser um delírio, um estímulo, um analgésico.

O contrário não é improvável: acompanharmos sem empolgação, apenas à espera do sono. Vivemos tempos de indiferença e desencanto. É cada vez mais difícil uma obra artística capturar nosso interesse e despertar entusiasmo. ‘Verdades Secretas 2’ conseguiu nos seduzir ao oferecer fantasias sexuais que a maioria de nós nunca viveu nem viverá. Como resistir ao instinto à flor da pele?

O telespectador mudou sensivelmente nesses 30 anos que separam a ‘Pantanal’ da era pré-internet à ‘Pantanal’ da era metaverso. As belas imagens da natureza serão suficientes para satisfazer quem ainda se dispõe a ficar passivamente diante da TV?

Melhor controlar a ilusão. Jamais teremos uma nova ‘Avenida Brasil’ porque aquele mundo não existe mais e não somos os mesmos. Agora, menos ingênuos, menos influenciáveis, mais céticos e exigentes.

As redes sociais já estão cheias de desdém e cobrança. “Não vai superar a ‘Pantanal’ original”, “Será que agora a Globo reaprende a fazer novela?”, “Não gostei da atriz que escolheram para ser a Juma”, “Não troco minha Netflix por nada”, são frases replicadas incontáveis vezes. Outros perfis veem o folhetim lúdico e contemplativo como a atração ideal para amenizar o pessimismo da atualidade.

No fim, uma novela é apenas uma novela, ainda que pretenda ser reflexo da sociedade, criticar involuções e suscitar transformações. Precisamos assistir à ‘Pantanal’ como mero entretenimento, sem comparações inadequadas. Simplesmente relaxar e curtir. Não cobrem demais da pobre Juma (Alanis Guillen). Já basta ela precisar virar onça para sobreviver nesse mundo hostil.

 

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