Woody Allen faz uma Cinderela às avessas em 'Meia-Noite em Paris'
- Carol Almeida
O que há de mais romântico senão o tempo e o lugar que não são seus? Fica fácil ceder à outra época, à outra cidade, às outras pessoas e à mesma ideia de que a felicidade sempre é mais feliz lá fora, lá longe. É nesse tempo e lugar da fantasia pronta e embrulhada para o amor que Woody Allen nos faz um irresistível convite para se apaixonar. E com Meia-Noite em Paris, nos puxa para a dança em um brilhante e tragicômico conto de fadas do homem que, fatigado com sua vidinha diminutiva, busca o buraco de Alice que o transporte para longe dele mesmo.
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Parte da peregrinação de Woody Allen pela Europa, por onde ele já se seduziu pela dissimulação britânica (Match Point, Scoop, O Sonho de Cassandra e Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos) e pela passionalidade espanhola (Vicky Cristina Barcelona), sua nova comédia é uma elegante declaração de amor ao romantismo parisiense, nesse exercício de rever com bom humor as fantasias do turista que já abre a mala desembrulhando clichês que leva para os lugares onde desembarca. E importante perceber que, desta vez, o cineasta nem precisa do recurso da voz narrativa para deixar seu protagonista ainda mais deslocado no ambiente.
Owen Wilson - vale ressaltar, perfeito no papel de Woody Allen - interpreta Gil, um roteirista de filmes hollywoodianos médios, cujos personagens têm dilemas autobiograficamente medíocres. A despeito de sua falta de convicção pessoal, Gil se autoproclama escritor e vai a Paris ao lado da noiva (Rachel McAdams) e dos sogros na intenção de se inspirar para seu novo projeto de livro cujos personagens são autobiograficamente deslumbrados e alheios à realidade que os cerca.
Entram em cena então as figuras quase grotescas de Woody Allen: o "pseudo-intelectual" que coleciona minutos de sabedoria no nível Wikipedia de profundidade, a namorada do "pseudo-intelectual" que faz abdominais na língua ao tentar pronunciar palavras como Versailles e, claro, os pais republicanos que ajudam o roteiro a criar inevitáveis piadas com o universo Sarah Palin de ser. À exceção de uma participação fina e fofa de Carla Bruni, no papel de uma guia turística, todos estão ali para emular uma contida histeria.
Entediado com esse seu novo círculo de amizades, Gil parte uma noite em caminhada sem GPS. Algumas esquinas adiante, tal como no sonho de qualquer turista romântico, se perde nas ruas iluminadas de Paris. E como numa Cinderela às avessas, ele termina encontrando uma outra cidade quando o relógio bate meia-noite.
Descrever o cenário e as pessoas com quem Gil se encontra daí por diante é tirar boa parte do encanto deste filme. Basta dizer que atores do porte de Marion Cotillard, Kathy Bates e Adrien Brody surgem como figuras conhecidas de uma Paris que só morreu no calendário, mas que ainda sobrevive na memória de pessoas que, assim como o protagonista desta trama, resistem com uma certa razão ao aqui e agora.
É preciso lembrar que, quando resolve investir pesado no realismo fantástico, Allen costuma fazer isso com poesia e uma constante auto-referência ao processo de criação do artista. Nesse aspecto, Gil não deixa de ser uma nova versão de Cecilia, a personagem apaixonada por uma ficção em A Rosa Púrpura do Cairo. A diferença é que, neste caso, o personagem carrega um pouco mais de senso autocrítico e, de um jeito engraçado para o filme de um diretor aos 75 anos, mais otimismo em relação ao futuro.