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'Sinto que estou furando a bolha com 'Labirinto dos Garotos Perdidos", revela Matheus Marchetti

Diretor e os atores Giuliano Garutti, Lucas Bacalon e Henrique Natálio falaram à Rolling Stone Brasil sobre o longa, que chega aos cinemas a partir desta quinta-feira (4)

3 jun 2026 - 18h27
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Labirinto dos Garotos Perdidos, que chega aos cinemas a partir desta quinta-feira (4) com distribuição da FILMICCA, marca um novo momento na trajetória do diretor Matheus Marchetti (Verão Fantasma). O longa, que acompanha a jornada de Miguel (Giuliano Garutti, O Bosque dos Sonâmbulos no Teatro Viradalata) por uma noite repleta de descobertas, encontros, desejos e perigos, chama a atenção por abordar a sexualidade de forma aberta, sem abrir mão do humor e da sensibilidade.

'Sinto que estou furando a bolha com 'Labirinto dos Garotos Perdidos", revela Matheus Marchetti (Divulgação)
'Sinto que estou furando a bolha com 'Labirinto dos Garotos Perdidos", revela Matheus Marchetti (Divulgação)
Foto: Rolling Stone Brasil

Em entrevista exclusiva à Rolling Stone Brasil, Marchetti, Giuliano e os demais atores, Lucas Bocalon (O Bosque dos Sonâmbulos no Teatro Viradalata) e Henrique Natálio (As Núpcias de Drácula), falaram sobre o processo de criação do filme, as cenas íntimas, o sentimento de pertencimento presente na narrativa e a expectativa para a chegada da obra ao circuito comercial. Confira a seguir:

Um novo lugar dentro do cinema queer

Questionado sobre possíveis comparações com cineastas como Bruce LaBruce (No Skin Off My Ass) ou Pedro Almodóvar (Natal Amargo), Matheus Marchetti entrega outra referência: o francês Jean Rollin (Le Frisson des Vampires).

Segundo ele, a associação feita por um crítico faz sentido porque o diretor explora frequentemente universos femininos e relações entre mulheres, algo que Marchetti vê como um paralelo à maneira como constrói personagens masculinos e histórias centradas em experiências queer.

Para o cineasta, o lançamento de Labirinto dos Garotos Perdidos é um momento importante em sua trajetória. Embora os seus trabalhos anteriores já circulassem em festivais e tivessem boa recepção crítica, ele acredita que esse é o seu primeiro filme a ultrapassar os limites de um nicho muito específico: "É a primeira vez que sinto que estou furando a bolha", comenta.

O desejo de contar uma história

Apesar do retorno positivo, Marchetti afirma que nunca fez Labirinto dos Garotos Perdidos pensando em atingir um público mais amplo. Pelo contrário: o projeto nasceu de maneira espontânea, movido apenas pelo desejo de contar aquela história. "Eu queria que fosse um filme que girasse em torno do sexo e queria fazê-lo com amigos", afirma.

Para o cineasta, dois elementos foram essenciais: o humor e a sexualidade. "O sexo afasta algumas pessoas, mas também atrai", observou. Já o humor, segundo ele, costuma pegar o público de surpresa: "Muitas pessoas chegam esperando um drama pesado e descobrem uma obra cheia de situações engraçadas e desconfortavelmente divertidas", declara.

Uma química construída muito antes das filmagens

Para os atores, parte da naturalidade vista em cena nasce de uma convivência que antecede o longa. Os três já haviam trabalhado juntos em uma peça teatral, experiência que criou uma base de confiança importante para um projeto que exigia exposição emocional e física. Lucas Bocalon acredita que "para causar desconforto é preciso estar confortável".

Henrique Natálio destaca que o processo teatral ajudou a eliminar qualquer quebra de gelo. Durante dois anos, o grupo compartilhou ensaios, apresentações e uma rotina intensa de criação coletiva, algo bastante diferente do que costuma acontecer em produções cinematográficas tradicionais. Quando as gravações começaram, todos já estavam "aquecidos" artística e emocionalmente.

O que Giuliano compartilha com Miguel

Protagonista da história, Giuliano Garutti vê muitas semelhanças entre sua trajetória e a de seu personagem, Miguel. Assim como o jovem retratado no filme, o ator também precisou deixar sua zona de conforto para perseguir seus objetivos. Nascido em São Bernardo do Campo, ele passou a frequentar São Paulo após concluir o ensino médio para estudar teatro e construir sua carreira artística.

Segundo Giuliano, ambos compartilham a sensação de mergulhar em uma cidade cheia de possibilidades, mas também de incertezas. "Você começa a viver com pessoas que não conhece, tentando perseguir os seus sonhos sem uma base de apoio estabelecida", explica.

Ambiguidade, pertencimento e descoberta

Ao refletirem sobre os temas centrais do filme, cada ator destaca um aspecto diferente da narrativa. Para Henrique, o elemento mais marcante é a ambiguidade da noite. Ele enxerga a história como um equilíbrio constante entre perigo e sedução, medo e desejo. Ao longo do percurso, Miguel se vê diante de experiências cada vez mais intensas e arriscadas, mas também se torna mais destemido.

Lucas foi surpreendido por outro aspecto: o humor. Como participa principalmente do início e do fim da trama, ele acompanhou a construção da história apenas pelo roteiro e imaginou um filme muito diferente daquele que encontrou na tela. Ao assistir ao resultado final, descobriu uma comédia construída a partir do constrangimento e das situações desconfortáveis vividas pelos personagens. "Eu não sabia que tinha feito uma comédia", brinca.

Giuliano aponta o pertencimento como o tema que mais o impactou. Para ele, o filme mostra Miguel descobrindo não apenas novos afetos, mas também diferentes formas de viver a sexualidade e experimentar o prazer. Segundo o ator, a obra evita julgamentos e estereótipos, preferindo apresentar a diversidade de experiências que compõem a comunidade LGBTQIAPN+.

A construção das cenas íntimas

Um dos aspectos mais comentados do filme são as cenas de sexo e nudez. Marchetti contou que desde o início deixou claro para os atores qual seria o teor da produção. Seu objetivo era realizar um filme mais erótico, em que o sexo fosse um elemento central da narrativa.

Ao mesmo tempo, ele queria trabalhar com amigos e colaboradores de confiança. Por isso, o processo foi construído em torno do diálogo constante. Os atores utilizavam tapa-sexo, as cenas eram ensaiadas previamente e todos os limites eram discutidos antes das gravações. "Era sempre uma questão de encontrar o que era confortável para eles e o que funcionava para a câmera", explica.

Henrique afirma que encarou as sequências íntimas como um desafio artístico. Apesar da exposição exigida, ele viu a experiência como uma oportunidade rara de explorar novas possibilidades de atuação. "Eu gostei muito de ter a oportunidade de trabalhar esse lado, porque eu nunca tinha feito uma coisa tão explícita e tão delicada", afirma.

O mito das cenas de sexo

Marchetti aproveitou para desmitificar a ideia de que cenas íntimas são momentos de sensualidade durante as filmagens. Segundo ele, a realidade é muito mais técnica e, muitas vezes, até constrangedora. Há iluminação, marcações, ajustes de câmera, intervenções da equipe e uma série de detalhes que tornam tudo bastante mecânico.

O curioso, segundo o diretor, é que a montagem transforma completamente essa percepção. "Na hora que você edita, aquilo fica tão constrangedor e tão sexy também", revela o diretor, que também montou o material.

Ele relembrou ainda o caso de uma espectadora que saiu convencida de ter visto uma cena de sexo oral no filme, apesar de nada daquilo ter acontecido durante as gravações. "Os atores vão confirmar que isso nunca aconteceu", brinca.

Bastidores marcados pelo riso

Embora o filme trate de temas intensos, o clima nos bastidores foi frequentemente divertido. Uma das lembranças favoritas de Marchetti envolve uma cena em que dois personagens observam um pepino dentro de um micro-ondas. Como grande parte do diálogo foi improvisada, o diretor não conseguia conter o riso e precisou deixar a sala durante a gravação.

Outra história envolve uma sequência de festa filmada em sua própria casa. Para simular vômito, a equipe utilizou guacamole. O resultado visual foi tão convincente que uma das atrizes passou a associar o alimento à cena e disse nunca mais conseguir olhar para o prato da mesma forma.

Houve ainda uma participação inesperada dos gatos do diretor, que começaram a repetir os movimentos dos atores e aparecem correndo em diversos takes.

O que o público pode esperar de Labirinto dos Garotos Perdidos?

Embora todos reconheçam que Labirinto dos Garotos Perdidos ainda dialogue diretamente com um público específico, existe a percepção de que o longa possui um alcance maior do que os trabalhos anteriores de Marchetti. "Se esse filme é para você, é porque ele foi feito para você", resume Henrique.

Segundo o ator, a produção mantém características muito particulares da filmografia do diretor, mas amplia seu alcance ao misturar gêneros, referências e uma estética capaz de dialogar com espectadores que talvez nunca tenham assistido às obras de Marchetti.

Lucas acredita que justamente essa combinação de elementos deve gerar reações variadas. Para ele, Labirinto dos Garotos Perdidos é um filme difícil de rotular, transitando entre suspense, humor, erotismo e drama, o que faz com que cada espectador tenha uma experiência diferente. Para ele, "toda experiência é válida".

Talvez por isso uma das descrições mais inesperadas que Marchetti ouviu tenha vindo de um espectador, que definiu o filme com uma única palavra: "fofo". Ele reconhece que o longa ainda pode ser visto como um filme de nicho por abordar uma realidade que, embora faça parte do cotidiano brasileiro, muitas vezes continua sendo tratada como algo restrito a determinados públicos.

Ainda assim, ele espera que os espectadores se aproximem da obra sem preconceitos. "Além de tudo que está acontecendo dentro do filme, ele está contando uma história sobre pessoas", afirma o diretor. "Como toda arte, ele tenta tocar alguma coisa íntima em quem assiste", conclui.

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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