'The Boys' diminui ritmo, prioriza personagens e evita erros da HQ em sua 5ª e última temporada
Eric Kripke usa episódios finais para preparar despedida de seus protagonistas sem pegar atalhos
Quando começou a trabalhar em The Boys, em 2006, Garth Ennis tinha como único objetivo destilar toda a sua desilusão com a indústria de super-heróis, dominada por DC e Marvel. Ao lado de Darick Robertson, o quadrinista passou 72 edições criando cenários cada vez mais mirabolantes para ridicularizar o gênero e chocar o leitor, preterindo qualquer desenvolvimento real de personagens pela explosão de sangue, tripas e fluidos corporais. Embora a adaptação para o Prime Video não tenha fugido das nojeiras e apelos do criador da franquia, o showrunner Eric Kripke mostrou desde cedo que seu objetivo com a série era outro.
Mais do que levar seus protagonistas de um ponto A a um ponto B, The Boys passou cinco temporadas focando nas ações e reações de seus personagens a situações cada vez mais perigosas, com cada trama servindo como consequência da anterior. No quinto e último ano, essa progressão se manteve firme, evidenciada por uma diminuição acentuada da ação e zelo pelo estado emocional de suas figuras centrais.
Derrotados de forma aparentemente irreversível na quarta temporada, Bruto (Karl Urban), Hughie (Jack Quaid), Annie/Luz-Estrela (Erin Moriarty) e companhia se viram, pela primeira vez na série, na defensiva contra os avanços megalomaníacos do Capitão Pátria (Antony Starr). Isolados e desesperançosos, os boys não podiam contar com os mesmos recursos de anos anteriores, dando adeus às operações explosivas que se tornaram marca da série. O quinto ano teve outro foco: curar as feridas psicológicas e emocionais de seus protagonistas para prepará-los para um último ato de resistência.
De fato, num momento em que os consumidores de conteúdo estão mais acostumados às produções "maratonáveis" e que mais parecem filmes de oito horas, como Loki ou Stranger Things, a aversão de The Boys a forçar acontecimentos bombásticos e ganchos pode passar a sensação de monotonia para quem assistiu ao quinto ano com o celular na mão. Vista com atenção, no entanto, a natureza episódica da temporada permitiu uma maior exploração dos arcos de seus personagens e uma conclusão orgânica das histórias iniciadas em 2019.
Conclusão de Kripke acerta onde Ennis errou
Na HQ original, Ennis nunca teve muito carinho por seus personagens. Com exceção de Hughie, todos os protagonistas eram tratados como meras ferramentas para cenas de ação ou depravação. Mesmo Bruto, cuja obsessão anti-supers serve como força motriz da trama impressa, termina The Boys traindo as próprias crenças para que o roteirista e Robertson pudessem se despedir com um baque final de seus leitores.
Kripke, no entanto, mantém as características básicas dos personagens apresentadas na primeira temporada para que sua conclusão agridoce fizesse sentido na história que desenvolveu. Bruto ainda é um vingador sem escrúpulos, Leitinho (Laz Alonso) segue arriscando tudo por quem considera família e Francês (Tomer Capone) e Kimiko (Karen Fukuhara) não perdem de vista seu desejo de redenção por erros passados. Mesmo quando essas convicções são testadas ao extremo, eles se mantêm fiéis em sua busca pela salvação da humanidade.
Mesmo mais lenta que as anteriores, a quinta temporada conseguiu criar uma conclusão natural para uma série que, por muito tempo, parecia ser comentada apenas por seus momentos mais brutais. Divergindo o foco do sangue para os corações e mentes de seus personagens, The Boys lembrou que sempre teve muito mais a oferecer na TV do que jamais teve nos gibis.
Ainda ancorada na inocência e esperança inabaláveis de Hughie, The Boys impediu que seus protagonistas se tornassem versões irreconhecíveis das figuras apresentadas anos atrás. Os raros casos de descaracterização, mais evidentes em Annie e Leitinho, foram revertidos de forma orgânica, muito por conta do foco que a temporada final deu à relação entre os mocinhos.
Entre erros, traições e provações, o amor entre os mocinhos manteve viva a humanidade que os separava dos vilões, mesmo quando a história parecia puxá-los para o fundo do mesmo poço sombrio. Claro, nem todos puderam cavalgar para o feliz pôr do sol antes dos créditos finais, mas até essas conclusões mais trágicas se tornam naturais quando relembramos seus caminhos desde a primeira temporada.
Como escapar do apocalipse
O grande acerto de Kripke com The Boys, no entanto, não foi apenas seu trabalho com os personagens e veio ainda no terceiro ano, quando a série passou a deixar de lado o escárnio à indústria hollywoodiana para se tornar uma violenta sátira política. Dos discursos de ódio absurdos da extrema-direita à natureza permissiva da esquerda, o showrunner se recusou a fazer vista grossa para as aberrações administrativas mundo afora, o que, de certa forma, proporcionou ao roteiro — escrito entre 2023 e 2024 — bizarras "previsões" ao cenário mundial de 2026.
View this post on Instagram
Na quinta temporada, o retrato jocoso da situação política norte-americana se tornou a grande força dos episódios. Através de Annie, Bruto e Ashley (Colby Minifie), Kripke canalizou o sentimento apocalíptico que tem tomado conta de debates sobre o futuro, refletindo manchetes desumanas e acontecimentos avassaladores que causam cada vez mais ansiedade.
Ao mesmo tempo, o roteirista usa Hughie, Leitinho e Francês para criar uma luz no fim do túnel, numa tentativa de dar esperança a seus espectadores ao pregar coragem e amor ao próximo como ferramentas indispensáveis para a continuidade da humanidade.
Indo contra a corrente da maior parte das produções "woke" vomitadas por Hollywood com o objetivo de sinalizar virtude, The Boys evita ao máximo usar discursos verborrágicos e pregadores para expor suas ideologias. Segundo a série, a esperança e a crença na família — seja ela escolhida ou de sangue — são atos políticos infinitamente mais importantes que qualquer manifesto demagogo feito para um público já cativo.
Kripke e sua equipe não hesitaram em abrir mão da ação alucinante — e até da boa-vontade dos fãs — para levar uma mensagem otimista para um público que se acostumou com a espera do fim do mundo. O resultado desse sacrifício, por mais divisivo que tenha sido, resultou no final mais coerente possível para uma história pautada em escolhas difíceis.
Mais reflexiva e profunda que suas concorrentes no gênero, The Boys soube transformar sua violência e seus diálogos profanos em um imenso Cavalo de Tróia. Especialmente em sua temporada final, a série deixou de ser apenas um entretenimento zueiro para se tornar um dos comentários políticos mais relevantes na grande mídia na atualidade. Afinal, o que pode ser mais revolucionário do que um encerramento esperançoso em meio à atual torrente de notícias apocalípticas?
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.