Ala do PL vê prestação de contas de Flávio como fator decisivo para apoiá-lo; leia bastidores
Aposta no forte sentimento 'anti-Lula', a bênção do pai e o sobrenome Bolsonaro são elementos para um entendimento de que o senador segue o candidato mais viável para chegar ao segundo turno na disputa presidencial
BRASÍLIA - Após a reunião da bancada do Partido Liberal com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na terça-feira, 19, uma ala da legenda vê a promessa de prestação de contas do filme "Dark Horse" como um fator decisivo para o apoio ao parlamentar para a presidência da República, segundo avaliações ao Estadão/Broadcast.
Flávio disse à imprensa que pediu à sua equipe jurídica a prestação de contas do valor investido no filme em 30 dias. As declarações ocorrem após o site The Intercept Brasil ter revelado a negociação entre Flávio e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, de R$ 134 milhões para a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). De acordo com as reportagens, R$ 61 milhões foram repassados.
A divulgação de que um contrato vinculado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro e de que o fundo que recebeu os recursos é controlado por aliados dele foi usada por governistas para levantar a suspeita de que pelo menos parte do dinheiro envolva recursos públicos e tenha sido revertido para a sua estadia nos Estados Unidos.
Governistas pediram investigações sobre possíveis irregularidades como lavagem de dinheiro, tráfico de influência e evasão de divisas. Porém, Flávio nega irregularidades e diz que os recursos do fundo não bancaram o irmão para ficar no país americano.
Parlamentares da bancada do PL dizem que Flávio "errou feio" e que deveria ter antecipado aos aliados sobre o seu envolvimento com Vorcaro, para que houvesse tempo de criar uma defesa. Também avaliam que o senador deveria ter admitido a relação com o banqueiro ao ser perguntado sobre o filme horas antes da revelação do Intercept.
Há uma avaliação ainda de que Flávio subestimou a gravidade de seus contatos com o dono do Banco Master, por não ter ainda em mente que seria pré-candidato à Presidência da República e por considerar que o empresário tinha uma série de conexões de grande porte. Segundo essa visão, o senador também teria menosprezado a possibilidade de que a sua relação com Vorcaro viesse à tona e errado em insistir em esconder detalhes.
Por outro lado, conta a favor de Flávio uma crença de que ele convenceu parte dos seus apoiadores de que não tinha más intenções nessa relação e de que a lógica da busca por patrocínio ao filme "fez sentido". A continuidade da defesa da instauração de uma comissão de inquérito no Congresso Nacional ajuda.
Há uma avaliação ainda de que se esperava uma queda pior nas pesquisas, no que não teria se provado pelo menos na pesquisa AtlasIntel. A aposta no forte sentimento "anti-Lula", a bênção do pai e o sobrenome Bolsonaro são elementos para um entendimento de que Flávio segue o candidato mais viável para chegar ao segundo turno.
Segundo essa análise, os impactos da revelação sobre Flávio se dividem no campo "criminal" e "moral". O campo criminal, ou seja, a possibilidade de o senador ter de fato cometido infrações em parceria com o banqueiro, seria o cenário mais difícil para apoiá-lo. Já a contradição moral, sobre Flávio ter pedido dinheiro a Vorcaro, é vista como uma dificuldade mais contornável.
As revelações sobre o filho de Bolsonaro também afetam os parlamentares de outros partidos, mas que têm votos dos conservadores. Um relevante quadro com eleitorado bolsonarista comparou o sentimento sobre Flávio como a torcida por um time de futebol: apesar de duras críticas, sua paixão não permite torcer por outro clube.
Por enquanto, atores da direita avaliam que a pressão sobre Flávio é maior dentro da política do que na população, porque são os demais parlamentares, prefeitos e vereadores que ainda examinam a viabilidade de pedir votos ao filho de Bolsonaro em seus redutos, diante da imprevisibilidade de novas descobertas.
O presidente nacional do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, divulgou nota nesta quarta-feira, 20, em que nega ter falado em "testar resistência" do senador Flávio Bolsonaro nas pesquisas eleitorais. A manifestação consta em suas redes sociais.
"Fiz comentários internos sobre um prazo estimado de 15 dias para o início da retomada do crescimento do senador Flávio Bolsonaro nas pesquisas", escreveu. "De forma oportunista e distorcida, tentaram inverter completamente o sentido da minha fala, atribuindo a ela uma interpretação que jamais existiu."
Valdemar prosseguiu: "Em nenhum momento tratei de 'testar resistência' de Flávio Bolsonaro. Aliás, depois de tudo o que enfrentou ao longo dos últimos anos, sua força política e pessoal estão mais sólidas do que nunca. A verdade é simples: o que veremos nos próximos dias será o crescimento de Flávio Bolsonaro nas pesquisas e o fortalecimento de sua imagem junto à população".
O presidente do PL disse ainda que "isso, sim, deverá incomodar os oportunistas de plantão que vivem da distorção e da má-fé".
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