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Revistas especializadas enfrentam problemas em Hollywood

16 mar 2010 - 19h03
(atualizado em 16/3/2010 às 11h16)
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A revista Variety, considerada a bíblia do setor de entretenimento, nasceu quase 105 anos atrás quando o jovem Sime Silverman, de acordo com o seu relato, foi demitido do jornal Morning Telegraph por uma resenha na qual classificava como NB (nada bom) um número de comédia de um artista que por acaso era anunciante na publicação.

Silverman decidiu que deveria criar uma publicação própria. No primeiro número, prometeu que as críticas "não seriam influenciadas por publicidade". Com isso nasceu uma tradição combativa de jornalismo de entretenimento que vem enfrentando, nas últimas semanas, problemas graves a ponto de causar a impressão de que a era desse tipo de publicação está por se encerrar.

As medidas de corte de custos anunciadas pela Variety na segunda-feira passada, que incluem a demissão de dois dos mais conhecidos críticos da revista, além de outros funcionários, causaram choque em Hollywood. Há gerações, os críticos de Variety exercem uma influência muito superior ao número de leitores que atingem, e oferecem indicações iniciais sobre a recepção a novos filmes e espetáculos da Broadway, lidas por uma audiência de figuras influentes do setor.

Em seguida, na terça-feira, surgiram notícias de um processo que acusava a revista de ter atraído um produtor de cinema a participar da disputa do Oscar, com a promessa de amplo apoio em troca de um pacote promocional de US$ 400 mil "as chances de premiação do filme em questão foram muito prejudicadas pela crítica negativa que ele recebeu em seguida de Variety. A crítica, sobre o filme Iron Cross, foi removida do site da revista depois de uma queixa do produtor, em dezembro. Mas o texto retornou cerca de dois meses mais tarde, depois que o confronto se havia tornado um embaraço público.

O duplo golpe se tornou apenas o mais recente incidente em uma série de revezes que levaram muitos leitores regulares das notícias de entretenimento a expressar preocupações quanto às as chances de sobrevivência de Variety e de sua rival mais recente, Hollywood Reporter.

"Dispor de algo pelo que valha a pena pagar é o truque", disse Martin Kaplan, diretor do Centro Norman Lear de Estudos de Entretenimento e Sociedade, na Universidade do Sul da Califórnia. Ele estava descrevendo a versão Hollywood de um problema que vem afetando todo o setor noticioso.

As companhias de cinema e televisão, que estão produzindo menos conteúdo e enfrentando quedas de receita, vêm cortando sua publicidade especializada. O representante de um conglomerado de mídia, que pediu que seu nome não fosse revelado para proteger relacionamentos delicados, disse que sua empresa havia reduzido em 50% a publicidade veiculada em publicações especializadas, no ano passado, ante 2008.

Um exemplo claro é o comportamento da Paramount Pictures, que não comprou anúncio algum em mídia impressa para o filme Amor Sem Escalas (indicado para seis Oscars, mas sem qualquer prêmio conquistado). Ainda no ano passado, era rotineiro sustentar filmes indicados ao Oscar com uma sucessão de anúncios em Variety, a preços de US$ 1,2 milhão ou mais.

Enquanto isso, o conhecimento especializado que no passado era o fator essencial do sucesso das revistas de Hollywood se tornou menos exclusivo, e está acessível gratuitamente na Internet. Dezenas de sites específicos de entretenimento, entre os quais thewrap.com, hollywood.com, deadline.com e TMZ.com, se tornaram sérios concorrentes das revistas tradicionais, e algumas publicações convencionais reforçaram sua cobertura de entretenimento.

Os executivos que respondem pelas duas grandes revistas de cinema afirmaram em entrevistas que planejam reformulação completa e programas de reorientação.

"Por mais negligenciado que venha sendo o trabalho da Hollywood Reporter, nossas ambições são imensas", disse Richard Beckman, presidente-executivo, da e5 Global Media, que adquiriu a publicação em dezembro junto à Nielsen.

Beckman, em uma entrevista telefônica curta, se recusou a discutir planos específicos, mas acrescentou que "estamos colocando investimento considerável em nossa marca, e não planejamos parar até que nos tornemos a mais importante fonte de notícias de entretenimento no setor".

Em entrevista mais detalhada, Neil Stiles, presidente da Variety, disse que sua revista não estava no vermelho mas se recusou a discutir a situação financeira da publicação, controlada desde 1987 pela Red Elsevier. Ele disse que a queda na receita publicitária de Variety havia sido tão severa em 2009, com relação a 2008, que estimativas de 50% de recuo se tornaram comuns em Hollywood.

Demissões e medidas de corte de custos sucessivas vêm acontecendo desde 2008, e mantiveram a lucratividade da publicação, ele disse. Na mais recente leva de demitidos, oito funcionários foram cortados, entre os quais Todd McCarthy, o principal crítico de cinema da casa, que escrevia em Variety há 31 anos, e David Rooney, editor de teatro e principal crítico de teatro da publicação.

As reações do setor foram rápidas e bastante negativas. Em tributo online a McCarthy, o crítico de cinema Roger Ebert afirmou que "se Variety já não precisa de seu principal crítico de cinema, também não precisa mais de mim como leitor".

Stiles se recusou a comentar sobre os lamentos públicos, mas disse esperar que alguns dos jornalistas demitidos continuassem a colaborar com a publicação como freelancers.

McCarthy disse que ainda não estava certo de seus planos, mas que esperava conversar com editores de outras publicações para se tornar colaborador. Rooney não respondeu a tentativas de contato realizadas na semana passada.

Em reunião na manhã de terça-feira, Stiles mencionou um plano para montar pacotes de críticas para vendas a alguns dos jornais e revistas convencionais que demitiram críticos como medida de economia. A ideia é parte do esforço para distribuir mais amplamente o conteúdo, e aproveitar o nome Variety, em diversas publicações de todo o mundo.

Stiles disse que os jornalistas da Variety agora terão de cumprir diferentes funções, trabalhando tanto como repórteres quanto como críticos, e ocasionalmente como moderadores no número cada vez maior de conferências que a empresa organiza. (McCarthy e Rooney já exerciam múltiplas funções.)

Stiles se recusou a informar quantos funcionários restam em Variety e no pequeno número de outras publicações da divisão, mas ao que parece ainda restam centenas de empregados.

Com a ajuda dos avanços no departamento de assinaturas, a circulação da versão em papel da revista subiu em 10%, para 27.314 exemplares, no semestre encerrado em 30 de setembro, ante o mesmo período um ano antes, de acordo com o Audit Bureau of Circulations.

Timothy Gray, editor de Variety, afirmou em mensagem de e-mail na sexta-feira que não acredita que a revista perca prestígio devido à saída dos críticos, especialmente se McCarthy e os demais se tornarem parte do grupo de freelancers que já responde por muitas das resenhas publicadas.

Quanto ao problema relacionado a Iron Cross, Gray diz ter retirado a crítica do site depois que um advogado de Joshua Newton, diretor e produtor do filme, objetou ao texto, mas que a restaurou depois de assistir ao filme e decidir que "a resenha publicada merecia o nosso endosso".

A separação entre o lado editorial e o publicitária da revista continua tão clara quanto na era de Silverman. "Não existe influência ou pressão do lado publicitário sobre a independência editorial de nosso jornalismo".

À medida que a revista expande suas conferências para 12, este ano, ante as sete de 2009, Stiles diz que espera que a receita propiciada por elas ajude a compensar o declínio do investimento publicitário, mas apenas até certo ponto.

Uma depressão no investimento publicitário torna mais urgente a decisão da publicação de começar a cobrar pelo acesso à notícia e alguns outros recursos online.

O acesso ainda não foi completamente restrito, e por isso não é possível avaliar como a experiência funcionará. Stiles disse que uma publicação especializada como Variety, com marca forte e quadro de leitores pequeno mas leal, teria mais capacidade do que os veículos maiores de imprensa para cobrar pelo acesso ao site.

"O jornalismo especializado é o que eu quero fazer", disse.

A situação do Hollywood Reporter, concorrente constante de Variety no campo da mídia impressa, é mais grave. Mas Beckman se declara igualmente otimista.

No mês passado, ele contratou uma empresa de busca de executivos para localizar um editor geral para a revista. Em memorando no qual delineia o perfil do cargo, e que circulou rapidamente em Hollywood, Beckman afirma que "desejo presença em múltiplas plataformas, seja TV, banda larga ou eventos. Nosso projeto é criar entretenimento de marca em seu sentido mais amplo".

O Hollwyood Reporter ainda tem áreas fortes. A cobertura de TV da publicação sempre foi sólida, e seus repórteres financeiros e jurídicos continuam a furar os concorrentes. Mas a revista se tornou quase um panfleto, depois de uma mudança de projeto gráfico e com a forte perda de anúncios, e vem sendo desconsiderada pelo setor.

A decisão de publicar apenas edições online durante duas semanas em dezembro estimulou os boatos de que a edição em papel da revista havia morrido "e os cancelamentos de assinaturas. O Audit Bureau of Circulations informou não acompanhar mais a circulação da revista.

A receita, que era de cerca de US$ 50 milhões dois anos atrás, foi estimada em cerca de US$ 30 milhões por duas pessoas que conhecem os números mas não querem que seus nomes sejam mencionados.

Na Variety, Gray afirmou que o futuro da revista estaria garantido pelo rigor editorial continuado. "Com tantas reportagens baseadas em rumores, boatos e fofocas, oferecemos mais profundidade e precisão que os concorrentes", escreveu.

Outros antigos profissionais de revistas especializadas de Hollywood sugerem que a salvação de uma ou ambas as publicações pode depender de abrirem seu conhecimento especializado aos milhões de consumidores que agora se consideram também especialistas.

Mas talvez seja tarde demais, diz Kaplan.

"Tradicionalmente, elas sempre ofereceram fofocas, listas de elenco, resenhas pré-lançamento e, com sorte, algum conteúdo noticioso", disse. "Estude a lista e veja o que lhes resta. Tudo está amplamente disponível em outros veículos".

The New York Times
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