"Raul Seixas é um retrato em preto e branco", diz diretor
O fotógrafo Walter Carvalho acha que Raul Seixas é um retrato em preto e branco. Porque simples. Porque linguagem encerrada em si mesma. É com essa relação de respeito com a imagem já construída que o diretor Walter Carvalho delineia hoje o roteiro final do documentário sobre o Maluco Beleza, a "luz que se apaga, a beira do abismo, o tudo e o nada" que foi Raul Santos Seixas.
O cineasta acabou de voltar dos Estados Unidos, onde fez as últimas entrevistas com algumas ex-mulheres, filhas e neto do músico. Agora, ele entra na escura sala de montagem para criar uma obra das mais de 200 horas de filme gravado e 90 entrevistas captadas durante os últimos meses. A previsão de lançamento do filme é para o primeiro semestre de 2010.
Em entrevista exclusiva ao Terra, Walter Carvalho fala sobre como está estruturando a biografia do artista que, com sua morte, há 20 anos, deixou de herança músicas que queriam ir além da sonoridade para se transformarem em metamorfoses ambulantes, sempre desconfortáveis com o senso comum.
De que maneira você construiu o roteiro desse filme e qual o recorte que você optou em dar à história de Raul Seixas?
Nós construímos o trabalho da seguinte forma: primeiro, faço o roteiro a partir dos elementos que consigo recolher de pesquisa com meu objeto de observação. A partir dessa pesquisa, elaboro uma pauta de assuntos e pessoas que eu vou, digamos, atacar, pessoas que vou verificar in locu. A partir disso criei o que chamo de a genealogia da trajetória de Raul Seixas. Fui por um caminho que começa em sua origem, na Bahia, onde ouvi os parentes, irmãos, tios. Passo então para o momento em que ele começa a virar profissional, primeiro com o Raulzito e os Panteras. Depois disso, observamos a época em que ele deixa de ser Raulzito e passa a ser Raul Seixas, sua chegada ao Rio de Janeiro, a parceria com o Paulo Coelho. Para finalizar, há o período dos anos 1980, os mais dolorosos da vida do Raul, quando ele passa quatro anos sem praticamente trabalhar. Para tudo isso, entrevistamos cerca de 90 pessoas e gravamos mais de 200 horas de filme. E aí entra o processo de montagem, que é o que estou fazendo agora. Na montagem vem o fechamento final, a elaboração do roteiro final. Porque é na montagem que o filme se dá realmente.
Há o depoimento de Paulo Coelho?
Sim, fizemos uma entrevista muito boa com ele. O Paulo Coelho foi muito generoso e atencioso, passou muito mais do que o tempo previsto de entrevista, foi uma hora e meia de gravação.Houve um trabalho de parceria com a família do Raul Seixas?
Na verdade o que aconteceu é que várias pessoas da família consentiram em falar sobre ele. Elas se dispuseram a conversar, mas não foi algo criado em parceria.
Desde quando você trabalha nesse filme?
Há um ano fui apresentado ao projeto de um documentário sobre o Raul Seixas. Houve um extenso período de pesquisa e as gravações começaram mesmo em abril deste ano.
Você co-dirigiu Cazuza - O Tempo Não Pára, que é uma biografia dramatizada da vida de Cazuza. Você chegou a dramatizar alguns episódios da vida de Raul Seixas?
Não, não há ninguém interpretando o Raul no filme. O que existe são algumas encenações que faço a partir da iconografia dele. Há uma cena, por exemplo, que faço uma encenação com os "panteras" hoje. Esse filme é um metadocumentário, não é aquele clássico documentário jornalístico.
Raul Seixas tem covers espalhados por todo o País, há um momento no filme dedicado a esses fãs que são tão representativos para a imagem dele?
Sim, claro. Tem uma sequência só para isso e usei um artista, conhecido como Pena Seixas, para representar esse segmento da biografia dele.
No processo de pesquisa, onde você foi procurar cenas com o próprio Raul Seixas?
O filme usa imagens diversas de Raul Seixas, arquivos em Super-8, VHS, U-Matic, 16 mm, fotos e todos os tipos de bitolas imagináveis. Isso veio da família, televisão, arquivos de fã-clube, Cinemateca Brasileira, várias fontes.
Qual sua afinidade com o trabalho de Raul Seixas?
Sempre fui fã dele. Sou de uma geração que admirava o Elvis Presley e foi a partir disso que o Raul começou a carreira dele, imitando o Elvis. Além disso, meus dois filhos sempre escutaram o Raul Seixas.
Aliás, nesse filme um de seus filhos, o Lula Carvalho, trabalha novamente como o diretor de fotografia de um filme dirigido por você (em Budapeste, Lula também fez direção de fotografia). Como foi esse processo de passar o bastão para ele?
Na verdade a minha parceria com meu fotógrafo vem de longas datas. Ele começou como foquista, que é o trabalho mais importante depois da direção de fotografia. Trabalhou comigo em vários filmes. Essa passagem de assistente de foquista para a fotografia foi natural, quando vi, já era. Agora não posso dizer que teve uma hora em que eu disse: agora você vai ser diretor de fotografia. Não houve isso.Não houve uma preparação, tudo aconteceu naturalmente.
Como fotógrafo, como você faria hoje uma foto de Raul Seixas? Qual a iluminação, cores, onde está o foco dessa imagem?
O Raul Seixas é uma fotografia em preto e branco. A fotografia dele é como um baquinho e um violão. Simples. Porque quando você faz um trabalho sobre um personagem que já existe, você não precisa construir. Já encontrei o Raul pronto. Acho que o segredo é então encontrar neste arquivo humano a cor, o contraste, o brilho, as relações de volume que ele já tem. Tudo que eu fizer de artificial nessa foto, estarei me distanciando desse personagem. E o preto e branco já é a linguagem em si.