'O Outro Lado das Redes' revisita escândalo do Facebook sem impacto de 'A Rede Social'
Longa, que chega aos cinemas brasileiros na próxima quinta (22), transforma os escândalos da plataforma em um drama investigativo que tem mais força em seus personagens do que em suas revelações
Em "O Outro Lado das Redes", Aaron Sorkin revisita os escândalos do Facebook ao retratar o vazamento de documentos em 2021 por Frances Haugen ao The Wall Street Journal. Embora apresente uma dinâmica humana forte entre a denunciante e a imprensa, o filme falha em atingir o impacto de "A Rede Social". Prejudicado por um tom excessivamente didático, pela caricatura de Zuckerberg e por uma direção visualmente frágil, o longa chega atrasado ao debate e não surpreende com revelações já superadas.
Atualmente, é difícil pensar no Facebook sem associá-lo às inúmeras polêmicas envolvendo Mark Zuckerberg, seus algoritmos e a influência da plataforma sobre o comportamento de milhões de pessoas. A rede social que surgiu ainda na primeira metade dos anos 2000 como uma promessa de conexão entre indivíduos, e cuja criação foi transformada em história de cinema por David Fincher (Zodíaco) em A Rede Social (2010), tornou-se também símbolo de um ambiente capaz de disseminar desinformação, amplificar discursos de ódio e transformar a atenção humana em mercadoria.
Aquilo que parecia uma ferramenta simpática, quase inocente, de aproximação entre pessoas revelou uma estrutura muito mais complexa e problemática. Parte desse funcionamento veio à tona em 2021, quando documentos internos vazados deram origem à investigação conhecida como The Facebook Files, publicada pelo The Wall Street Journal. É justamente sobre as consequências dessas revelações que O Outro Lado das Redes, escrito e dirigido por Aaron Sorkin (Os 7 de Chicago), se debruça.
Apresentado como uma espécie de continuação de A Rede Social, o longa acompanha Frances Haugen (Mikey Madison, de Anora), ex-funcionária do Facebook responsável por vazar documentos que expunham o conhecimento da empresa sobre os danos provocados por suas próprias ferramentas, e Jeff Horwitz (Jeremy Allen White, de O Urso), jornalista encarregado de investigar o material e torná-lo público.
Paralelamente, acompanhamos Zuckerberg, agora interpretado por Jeremy Strong (Succession), às voltas com as pressões políticas e os questionamentos sobre a responsabilidade da plataforma. Trata-se de uma história que alguns poderiam classificar como desnecessária, daquelas que "ninguém pediu", ou mesmo datada. A primeira crítica parece pouco justificável, considerando que os efeitos dessas práticas continuam presentes em nossa relação com a internet. A segunda, porém, até encontra certo respaldo na maneira como Sorkin escolhe contar essa história.
Isso porque, em um mundo no qual a tecnologia, as redes sociais e seus algoritmos avançam em uma velocidade difícil de acompanhar, muitas das descobertas apresentadas pelo filme já não provocam o mesmo espanto de cinco anos atrás. Não que os acontecimentos tenham perdido importância, mas a percepção coletiva sobre os mecanismos dessas plataformas mudou consideravelmente. Hoje, a ideia de que empresas de tecnologia conhecem os efeitos nocivos de seus produtos e, ainda assim, priorizam interesses comerciais dificilmente representa uma revelação surpreendente.
Sorkin parece reconhecer a gravidade do assunto, mas encontra dificuldades para traduzir essa complexidade em cinema, recorrendo a uma abordagem excessivamente didática, que frequentemente explica aquilo que o espectador já compreendeu. Inspirado pela tradição dos dramas jornalísticos e investigativos de outras décadas, o diretor constrói uma narrativa que, apesar das boas intenções, por vezes parece chegar atrasada ao próprio debate que pretende provocar. Resta a nós, portanto, encontrar interesse não exatamente nas descobertas, mas na encenação do processo que permitiu torná-las públicas.
É nesse aspecto que O Outro Lado das Redes encontra seus melhores momentos, especialmente na dinâmica entre Madison e White. A relação entre a denunciante e o jornalista oferece ao filme uma dimensão humana que suas explicações sobre o funcionamento do Facebook nem sempre conseguem alcançar. Há uma tensão interessante entre a responsabilidade de revelar informações capazes de atingir uma das empresas mais poderosas do mundo e o trabalho de transformar documentos em uma investigação compreensível e consistente.
Em contrapartida, Jeremy Strong parece deslocado como Zuckerberg, apostando em uma caracterização que frequentemente beira a caricatura. Seu personagem existe sobretudo na superfície, definido por gestos, comportamentos e pela maneira como aqueles ao seu redor obedecem às suas determinações, mas raramente alcança uma complexidade que permita compreender o homem por trás da figura pública. O resultado é um retrato limitado de alguém que deveria representar uma das principais forças dramáticas da narrativa, algo que Jesse Eisenberg (A Verdadeira Dor) tirou de letra em 2010 e que o roteiro de Sorkin assim permitia.
Entretanto, a maior fragilidade do longa está justamente naquilo que inevitavelmente o aproxima de seu antecessor: a ausência de um cineasta capaz de transformar a escrita de Sorkin em algo cinematograficamente mais estimulante. Em A Rede Social, Fincher compreendia que as disputas de poder não estavam apenas nos diálogos, mas também na maneira de filmá-los.
Já em O Outro Lado das Redes, Sorkin parece frequentemente subordinado ao roteiro, como se bastasse organizar informações, colocá-las na boca dos personagens e permitir que os fatos falassem por si. O problema é que, sem uma construção visual igualmente expressiva, a sucessão de explicações e diálogos acaba tornando a investigação mais arrastada do que deveria, especialmente quando o filme precisa sustentar o interesse por revelações que já não carregam tanto impacto.
Isso não significa que O Outro Lado das Redes seja uma obra sem valor, tampouco que precisasse reproduzir a linguagem de Fincher para justificar sua existência. Há algo pertinente na decisão de Sorkin de retornar ao universo que ajudou a apresentar ao cinema, agora interessado não mais na ambição por trás da criação do Facebook, mas nas consequências do modus operandi da empresa e em seu protagonismo nas redes.
Se A Rede Social observava o nascimento de uma ferramenta que prometia revolucionar as relações humanas, O Outro Lado das Redes examina o que aconteceu quando essa promessa se transformou em um negócio capaz de influenciar comportamentos, discursos e até a maneira como percebemos a realidade. O problema é que, ao contrário do filme de 2010, que parecia compreender o futuro antes mesmo de ele acontecer, esta nova produção se limita, em grande parte, a organizar um passado cujas consequências já conhecemos. Sorkin tem uma história importante para contar, mas lhe falta encontrar uma maneira impactante de contá-la.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.