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'Tigre de Papel' reafirma olhar melancólico de James Gray sobre o sonho americano

Filme exibido na abertura da 50ª Mostra de Cinema de São Paulo transforma uma história de ambição e criminalidade em um retrato melancólico dos laços familiares

19 out 2026 - 13h53
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Resumo
Exibido na Mostra de SP, Tigre de Papel reafirma o olhar melancólico do diretor James Gray sobre o sonho americano. Estrelado por Adam Driver e Miles Teller, o longa acompanha dois irmãos que entram no perigoso esquema do petróleo ligado à máfia russa visando dar segurança à família. Mais focado nas consequências emocionais do que na ação mafiosa, o filme constrói um suspense dramático potente sobre ambição, ruína moral e a dolorosa deterioração dos laços de confiança fraternos.

Há algo de profundamente trágico na maneira como James Gray (Armageddon Time) observa seus personagens. Em sua cinematografia, famílias estão sempre ao centro, revelando seus conflitos, expectativas e frustrações, enquanto indivíduos tentam encontrar seu lugar em um mundo que parece determinado a frustrar suas ambições. Seja nas relações amorosas de Amantes (2008), nos dilemas morais de Era Uma Vez em Nova York (2013) ou nas memórias de infância de Armageddon Time (2022), o cineasta demonstra especial interesse por pessoas que acreditam na possibilidade de uma vida melhor, mesmo quando tudo ao redor aponta para o contrário.

'Tigre de Papel' reafirma o olhar melancólico de James Gray sobre o sonho americano (Divulgação)
'Tigre de Papel' reafirma o olhar melancólico de James Gray sobre o sonho americano (Divulgação)
Foto: Rolling Stone Brasil

Em Tigre de Papel, exibido na sessão de abertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Gray retorna a esse universo temático da busca pelo sonho americano, desta vez concentrando seu olhar na relação entre dois irmãos que, seduzidos pela promessa de prosperidade, acabam envolvidos em um negócio tão lucrativo quanto perigoso.

Gary e Irwin, interpretados respectivamente por Adam Driver (Ferrari) e Miles Teller (Whiplash: Em Busca da Perfeição), são homens adultos que ainda preservam uma ingenuidade quase juvenil diante das promessas do sonho americano. Quando surge a oportunidade de enriquecer por meio de um esquema envolvendo petróleo, os irmãos enxergam no empreendimento a possibilidade de transformar definitivamente suas vidas. Gary, um ex-policial carismático e cheio de contatos, acredita ser capaz de administrar os riscos de um universo criminoso que conhece melhor do que gostaria de admitir.

Irwin, por outro lado, encontra na promessa de estabilidade financeira uma maneira de assegurar um futuro confortável para os filhos. Embora movidos por interesses distintos, ambos compartilham a convicção de que a prosperidade está finalmente ao alcance das mãos. O problema é que, ao se envolverem com a máfia russa, descobrem que determinadas oportunidades cobram um preço muito maior do que aquele inicialmente anunciado.

Não por acaso, Tigre de Papel começa com uma citação de Ésquilo: "Que haja riqueza sem lágrimas; o suficiente para o homem sábio, que não pedirá mais". A passagem funciona quase como uma advertência sobre aquilo que está por vir, contrapondo a sabedoria de reconhecer os próprios limites à ambição de quem acredita que nunca possui o suficiente. Para Gray, entretanto, essa busca por riqueza não nasce necessariamente da ganância, mas de algo muito mais humano: o desejo de oferecer segurança àqueles que amamos.

É justamente nessa contradição que reside a força do longa-metragem. Gary e Irwin não são simplesmente homens seduzidos pelo dinheiro, mas indivíduos que justificam escolhas cada vez mais questionáveis em nome de um futuro que talvez nunca chegue. Quanto mais tentam proteger aquilo que construíram, mais colocam em risco os próprios vínculos que deveriam preservar.

Embora se aproxime do cinema de gângsteres, Tigre de Papel está muito mais interessado nas consequências emocionais da criminalidade do que propriamente em seus mecanismos. Gray constrói um suspense soturno, de montagem lenta, no qual a violência permanece durante boa parte do tempo como uma ameaça à espreita, capaz de transformar uma conversa aparentemente banal ou um telefonema inesperado em motivo de angústia.

Há algo de particularmente eficiente na maneira como o diretor recupera elementos recorrentes de sua obra, como a corrupção institucional, as conexões obscuras entre o poder e o crime organizado e a atmosfera opressiva da vida nas grandes cidades. Entretanto, em vez de apenas revisitar esses elementos, Gray os reorganiza em torno de uma tragédia íntima, na qual o verdadeiro perigo não está somente nos criminosos que cercam os protagonistas, mas na deterioração gradual da confiança entre dois irmãos. O resultado é um filme que encontra sua identidade na sensibilidade de um melodrama familiar.

Essa dimensão ganha força sobretudo pelas atuações de Driver e  Teller, que estabelecem uma dinâmica convincente a partir de personalidades quase opostas. Driver imprime a Gary um magnetismo inquietante, próprio de alguém que parece acreditar tanto na própria capacidade de controlar as circunstâncias que acaba incapaz de reconhecer quando tudo já escapou de suas mãos.

Teller, por sua vez, trabalha em um registro mais contido, dando vida a um homem que tenta preservar algum senso de racionalidade enquanto se vê progressivamente engolido por decisões que não consegue mais desfazer. A relação entre os dois constitui o verdadeiro coração do filme, justamente porque Gray compreende que uma tragédia familiar não depende apenas de grandes acontecimentos, mas também dos pequenos ressentimentos, silêncios e gestos que revelam a distância crescente entre pessoas que um dia acreditaram compartilhar os mesmos objetivos.

Nem tudo, porém, encontra o mesmo equilíbrio. Scarlett Johansson (Jurassic World: Recomeço), apesar de sua presença expressiva, parece habitar uma narrativa paralela àquela que realmente interessa ao diretor. Sua personagem não recebe o mesmo desenvolvimento dramático concedido aos irmãos, e mesmo os momentos em que Johansson busca conferir maior intensidade emocional à interpretação encontram pouco respaldo em um roteiro que parece não saber exatamente como integrá-la ao conflito central.

Ainda assim, Tigre de Papel reafirma a habilidade de James Gray em encontrar humanidade em personagens que caminham inevitavelmente em direção à própria ruína. Na visão melancólica do cineasta, o sonho americano continua exercendo seu fascínio justamente porque aqueles que o perseguem raramente percebem o quanto já perderam pelo caminho. E aí está a maior crueldade da história dos dois irmãos: na tentativa desesperada de conquistar uma vida que ainda não possuem, acabam destruindo aquilo que, desde o princípio, deveria ser sua maior riqueza.

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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