Exclusivo: Diretor de 'VIPs' diz que fará versão feminina da trama
VIPs se inspira na história real de Marcelo Nascimento da Rocha, um homem que ficou nacionalmente conhecido depois de dar entrevista para o programa do apresentador Amaury Jr. se passando por Henrique Constantino, filho do dono da Gol. Mas é uma inspiração de um respiro só, porque a trama termina adotando um personagem bem mais complexo e bem menos criminoso que o Marcelo real. A ideia de dar a meia volta na realidade e pegar o retorno para a pista da ficção foi uma decisão que partiu já do argumento do filme, criado pelo diretor Toniko Melo e pelo roteirista Bráulio Mantovani. Toniko, que assume pela primeira vez a direção de um longa em ficção, conversou com o Terra sobre as ideias originais da trama, trabalhar com Wagner Moura (protagonista da trama) e próximos projetos. Confira abaixo.
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VIPs teve uma recepção muito boa no Festival do Rio. Gostaria que você comentasse sobre a importância dos festivais de cinema no Brasil para um filme antes de ele chegar às salas comerciais.
Toniko Melo - Bem, esse é meu primeiro filme. Meu amigo cineasta Mauro Lima acha que festival estraga, porque o Johnny (Meu Nome Não É Johnny) por exemplo não fez carreira de festival e foi super bem na bilheteria. E tenho outro exemplo, o filme do Esmir (Esmir Filho), Os Famosos e os Duendes da Morte ganhou também o Festival do Rio e não foi bem de bilheteria depois. Não acho que exista uma regra, mas pra carreira no cinema nacional acho que principalmente o Festival do Rio é muito importante, porque a Hilda (Hilda Santiago, organizadora do evento) leva o que há de melhor nos Estados Unidos, na Europa, e você termina fazendo contatos. Você olha pro mundo e o mundo olha pra você.
O filme transforma a história de um criminoso na história de um cara com problemas de se encontrar no mundo. De certa forma, ele poetiza aquilo que, se fosse uma adaptação biográfica, seria outro filme. Ainda assim, o Marcelo Nascimento da Rocha real pareceu não gostar muito do resultado e ameaçou processar o filme. Como você recebeu a notícia?
Toniko Melo - Acho que o Marcelo foi somente mal informado. Na cadeia, ele não tem acesso a notícias e creio que, em função disso, as pessoas levaram uma informação pra ele completamente errada. É compreensível até que ele tenha tido uma reação. Mas acho que isso já foi esclarecido. Todas essas questões aconteceram depois de dois posts que coloquei na internet sobre esse caso, no começo de fevereiro. O primeiro post falava que os argumentistas Bráulio Mantovani e Toniko Melo criaram a história do filme. E o outro post dizia que eu estava muito bravo com as pessoas que, depois de ver o filme, diziam que ele era biográfico. Acho que o Marcelo pode ter se aproveitado disso. Primeiro ele implicou com o Wagner. Falou que ia processá-lo. Mas como viu que tomou pedrada porque o Wagner é uma pessoa muito querida, apontou os canhões pra mim. Mas o Marcelo não tem acesso ao Facebook, a nada disso. Isso foi levado por um jornalista a ele lá na prisão. E aí deu essa celeuma toda. E outra coisa: a Universal comprou os direitos do livro (Vips - Histórias Reais de um Mentiroso), então o que legalmente a gente tinha que fazer está feito. E desde que isso começou até agora não consigo mais falar mais sobre o filme. Na coletiva em São Paulo teve até um jornalista que, quando fez uma pergunta sobre o filme, o Wagner disse que queria dar um beijo nele porque finalmente alguém falava outra coisa.
Então vamos falar do filme. Dirigir um ator que consegue controlar a cena tão bem como Wagner Moura exige mais ou menos do diretor?
Toniko Melo - Posso te dizer isso bem claramente, porque como eu tinha 43 atores pra dirigir, acho que o comportamento precisa ser mais ou menos o mesmo para esses 43. O ator precisa, mesmo que seja um talento e uma pessoa maravilhosa como o Wagner, de um 'Olha, aqui foi demais, aqui foi de menos'. O 'demais e o de menos' com o Wagner exige pouco, principalmente porque ele tem uma consciência de cinema muito grande. Mas o que é importante no caso de um ator como o Wagner é colocar as ideias na mesa. Daí a enorme, gigantesca e monstruosa importância do argumento, porque quando um ator como o Wagner percebe o personagem já de seu argumento, ele monta quase tudo dali. Em VIPs há várias cenas também com não-atores. E com eles eu não pedia uma consciência de personagem, pedia uma coisa rápida. Em várias cenas eu tinha não-atores com o Wagner. Era uma instrução absolutamente filosófica pra um e pro outro era coisa do tipo "não passa dessa linha aqui" ou "não olhe pra câmera". A riqueza desse atrito, se é que podemos chamar de atrito, é que você percebe o que passa pra um e pra outro. E o Wagner ajuda bastante nisso, porque sabe tirar a ansiedade da pessoa.
Como é seu processo de direção, há muitos ensaios e marcação de cena ou há espaço para o improviso?
Toniko Melo - É tudo shooting board, não faço nem storyboard. Chego pro ator e falo como a cena vai ser antecipada. Mas é uma forma de mostrar que o controle é absoluto. Por que? Porque custa caro, tenho que prestar contas. Conversando agora com o Heitor Dhalia por Skype, porque ele está filmando nos Estados Unidos (Dhalia está na direção de Gone), brinco que ele está comendo o pão que o diabo amassou. Porque era ele quem ficava me dizendo que eu era durão e tal. Disse agora que lembra de mim todo dia (risos). Mas é que tenho essa disciplina. Até porque depois disso, se o Wagner quiser plantar bananeira, a Gisele Fróes quiser tirar a roupa, tudo é possível. Se eu enxergar que aquilo que o ator está dando faz parte do universo do filme, deixo total. E às vezes eu também quebro a regra. Tem uma cena em VIPs que o Wagner é interrogado pelos policiais federais. Aquilo era uma coisa que, como era humor, deixei os atores montarem a cena e disse: "não sei onde a câmera vai estar, faz aí e vamos ver". Quando fizeram a cena, vi como ela ia funcionar e foi aí que posicionei a câmera.
Quais os teus próximos projetos no cinema?
Toniko Melo - Tenho três projetos. Um eu comprei os direitos do livro de uma escritora carioca chamada Tatiana Levy, A Chave de Casa. Poderia dizer pra você que é a mesma pegada do VIPs em termos temáticos, porque agora é uma mulher em busca de sua identidade. E a trama é baseada na história dela. É um filme em que estou fazendo uns pitchs com umas roteiristas, até porque quero que sejam todas mulheres. Quero fazer esse filme como se estivesse filmando um documentário de longe. Tenho muita vontade também de adaptar uma peça do Bráulio Mantovani (Menecma), mas o problema agora é conseguir roteirista, porque ninguém tem coragem de adaptar um texto do Bráulio! É uma peça com humor negro e acho que não seria um filme comercial. Aliás, acho que falta isso no cinema nacional, o humor negro. E o terceiro projeto é também uma adaptação de uma peça, mas é algo que estou ainda tentando entender. O problema é que, como não sou produtor, nem trabalho pra uma produtora, não tenho onde fazer nenhum desses filmes. Porque as produtoras brasileiras estão no limite da Ancine em captação. Quem sabe eu consiga fazer um desses filmes na Argentina, não sei ainda... Vamos ver.
