Script = https://s1.trrsf.com/update-1768488324/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Este Coringa também é um dançarino

A dança é o que permite a Arthur Fleck, interpretado por Joaquin Phoenix, relaxar, flutuar no espaço e empoderar-se no papel de vilão

14 out 2019 - 18h05
(atualizado às 19h47)
Compartilhar
Exibir comentários

(Este artigo contém spoilers de O Coringa)

O personagem que dá título ao filme Coringa chegou à idade adulta não da maneira que você imagina - com uma ladainha de piadas -, mas por meio da linguagem silenciosa da dança. É nesse papel não verbal que o desempenho de Joaquin Phoenix, juntamente com a partitura melancólica de Hildur Gudnadottir, dá ao filme uma tristeza incontrolável.

Você não consegue banir completamente seu eu verdadeiro quando dança; Arthur Fleck ainda está em algum lugar dentro de Phoenix, mesmo quando ele se transforma no Coringa. O que torna a interpretação de Phoenix tão comovente - e não se trata apenas de uma história do bem contra o mal - é a maneira como ele coloca basicamente dois personagens num corpo que dança.

Do mesmo modo que o Coringa assume o controle com passos confiantes e empertigados - sua postura ereta é como se ele olhasse de cima para o resto do mundo -, a dança permite a Arthur, fragilizado pela tensão, relaxar. Amolecer um pouco. Flutuar no espaço.

Coringa dividiu os críticos, mas num aspecto eles concordam: Phoenix é um grande dançarino. E estão certos. Não é só a maneira como ele se movimenta, com uma finesse não cultivada, animalista, como uma estrela de rock. Ou como quando ele estende os braços, evocando os fantasmas de Jim Morrison ou Brandon Lee em The Crow. Tem a ver mais com a maneira sutil com que seu corpo expressa emoção: você vê a mente trabalhando e por causa disto a dança entra num outro universo.

No filme, dirigido por Todd Phillips com coreografia de Michael Arnold, Arthur - que sofre de uma doença mental e foi psicologicamente afetado por abusos e bullying - trabalha como um palhaço de festas. Um aspirante a comediante stand-up, ele se consola assistindo a um talk-show apresentado por Murray Franklin (Robert De Niro). Mas Murray também é um brutamontes.

A dança é o único escape de Arthur, sua força vital. A primeira vez que ele dança não é na cena marcante num banheiro público sujo, depois de ter cometido seus primeiros crimes. É no apartamento em que vive com sua mãe enquanto assiste na TV ao filme de Fred Astaire e Ginger Rogers, de 1937, Vamos Dançar?. A música é Slap That Bass: "O Mundo está uma bagunça/com a política e os impostos/ e as pessoas disputando/ não existe felicidade".

Arthur, sem camiseta e usando um jeans folgado, demonstra pouca alegria. Mas quando começa a se movimentar, arma na mão, seus braços balançam sobre sua cabeça. Ele parece mais confiante, gira de um lado para outro e conversa consigo mesmo como se estivesse num talk-show.

"Hei, qual é o seu nome?"

"Arthur"

"Hei, Arthur, você é um dançarino realmente bom".

Seus braços planam sobre sua cabeça para formar algo como uma coroa de diamantes.

"Eu sei".

"Sabe quem não é? Ele.".

Ele pega sua arma e atira no "ele" imaginário. A bala atinge uma parede e nesse momento Arthur fica alarmado e radiante. A dança é o seu caminho para a bravura, algo que nunca soube. À medida que Arthur regride e o Coringa assume o controle, a coreografia se prolonga mais. Na cena do banheiro, o pânico se transforma em poder assustador, Phoenix cruza um pé sobre o outro e gira, envolve os braços na cabeça e em torno do seu torso. Seus ombros se levantam e seus cotovelos se sobressaem perigosamente à medida que seu corpo flutua e infla até que, no momento final, seus braços se estendem para os lados. Esta é a pose de poder do Coringa.

Às vezes, Phoenix, que emagreceu bastante para o filme, parece um dançarino de balé numa pausa do ensaio. Pálido e esquelético, com o cabelo ondulado, colado no rosto, por vezes tem um toque de Rudolf Nureyev ou Sergei Polunin - dois russos com atitude. Sua pele esticada e as costelas salientes. Mas não é apenas uma transformação cosmética. Nem que ele faça balé. Phoenix tem a capacidade enorme de transformar seu corpo - particularmente as costas - num show de horror butô de ângulos bizarros e excêntricos.

Mas mais do que o butô - forma japonesa conhecida, em parte, por seus movimentos lentos e sombrios -, sua dança envolve o vaudeville. O que faz sentido. Quando criança, Phoenix passava o tempo tocando música com seus irmãos e irmãs em Los Angeles; o vaudeville está no seu corpo. E, quando ele disse à agência de notícias Associated Press que o The Old Soft Shoe, de Ray Bolgers, foi inspiração para a arrogância do Coringa, há também algo de Fred Astaire nos seus movimentos, especialmente na maneira como ele cria leveza e espaço em seu torso.

Mas a dança de Phoenix também é alimentada pela sensação, como se estivesse mergulhando no Gaga, linguagem de movimento criada pelo coreógrafo israelense Ohad Naharin.

O vocabulário é impulsionado pelas imagens. Numa aula de Gaga, os participantes respondem a instruções físicas, como movimentar imaginando que sua espinha é feita de algas - se fica embaraçado ou se contém, não funciona. (Não há nenhum espelho na sala de aula). Phoenix pode não praticar o Gaga, mas parece compreender a diferença entre pele e carne. É sutil, mas diferente.

O Gaga pode ser bizarro até sensual e táctil, e tem a ver, como disse Naharin, com encontrar uma conexão com o ritmo. Como Coringa, Phoenix descobre isso quando dança descendo uma escada externa, batendo suas pernas em cada degrau numa folia que envolve o corpo todo. Em vez de ser chutado, é ele que dá o chute. É a dança do empoderamento.

O Coringa, que continuamente confunde a realidade, parece menos uma história linear do que uma sequência de danças enlaçadas pelo diálogo. No final Arthur, embora algemado, tem uma música na cabeça e uma sensação de energia. À medida que desaparece no corredor todo branco, ele usa os ombros, que têm mobilidade, que se movimentam para cima e para baixo ao som de That's Life, de Frank Sinatra. Seus pés deixam rastros sangrentos num diagrama de Arthur Murray. São os nomes no filme, o Arthur de Phoenix, e o Murray de De Niro, uma coincidência?

De qualquer modo, a dança final é uma dança de libertação: enquanto ele conseguir se movimentar, está livre. E Phoenix sabe como se movimentar. Sua dança não é uma piada.

Tradução de Terezinha Martino

Estadão
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra












Publicidade