Denise Fraga fala sobre seu papel em 'As Melhores Coisas do Mundo'
Denise Fraga foi a última a concordar participar do filme As Melhores Coisas do Mundo, porque estava ocupada com a peça A Alma Boa de Setsuan, em cartaz há mais de dois anos. Mas, como afirmou em entrevista ao Terra, obviamente que acabaria dizendo "sim" no final. "Eu fiquei muito feliz com o convite, porque eu adoro o trabalho da Laís (Bodanzky, diretora). Amo Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade", conta.
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No longa, ela é Camila, mãe de Mano (o estreante Francisco Miguez) e Pedro (Fiuk). Como se não bastasse ter que conviver com os surtos adolescentes dos filhos, ela, que é professora de universidade, está passando por uma situação familiar difícil, já que acaba de se divorciar.
Para Denise, atriz, também mãe de dois filhos, tal experiência foi inesquecível, uma espécie de curso pré-preparatório para a difícil tarefa de lidar com os primeiros questionamentos dos pequenos. "Ninguém está preparado para enfrentar os dramas de um filho adolescente", conta.
Veja como foi a conversa com a atriz:
Por pura curiosidade, como foi sua adolescência em São Paulo? Parecida com a dos meninos do filme?
Eu era super tímida, ficava na minha, não gostava muito de me expressar. Mas essa relação com o filme é engraçada. Na minha escola também tinha um grêmio, onde os meninos defendiam alguns interesses dos alunos. Eu os considerava "seres superiores".E já fui definindo minha personalidade ali. A primeira peça que eu fiz, foi na escola.
Em uma recente entrevista, a atriz Andréa Beltrão disse que nunca se inspirava em acontecimentos da própria vida para compor seus personagens. Você acha que o fato de ser mãe te ajudou a interpretar Camila?
Foi muito bom ser mãe e interpretar a Camila. O ofício do ator consiste em imitar a vida. Minha inspiração natural para o trabalho é a própria vida. A Laís, por exemplo, é dona deste projeto. Mas quando ela me convidou, queria que eu mostrasse um pouco do que eu tinha para contar, da minha experiência. Então eu dei algo em troca e recebi de volta. Porque você está aprendendo ao interpretar uma personagem que está passando por algo que eu nunca passei. É como se eu fosse ela por um tempo.
Em quanto tempo você rodou sua participação no longa?
Nós ficamos uma semana rodando as cenas na casa de Pinheiros e depois fizemos algumas externas esporádicas, na escola, no carro... Mas na verdade não sei mais se o set era em Pinheiros. Só lembro que o roteiro dizia que Mano era um jovem da classe média alta do Alto de Pinheiros. O engraçado de ser ator é isso. Você confunde algumas coisas vividas no trabalho com a própria vida. Acho que quando eu estiver bem velhinha, já com as ideias meio tortas, vou lembrar dessa casa de Pinheiros como se eu tivesse vivido ali mesmo em algum momento (risos).
Depois dessa experiência de fazer o filme, você acha que está preparada para a adolescência dos seus próprios filhos?
Ninguém está. Meu filho agora está começando. Uma vez ele veio com uma série de perguntas, bravo. Lembrei de uma coisa bonita, que Toquinho diz numa canção: 'a vida se abrirá num feroz carrossel'. Acho que a adolescência é bem isso. De repente você começa a questionar algumas coisas. Eu o vejo em momentos de crise às vezes, tento ajudar, mas nem sempre ele aceita. De repente nada tá bom. É tudo um excesso quando ele se compreende como um ser único, que toma as suas próprias atitudes. Mas é tão bonito ver ele crescer.
Você é o tipo de mãe como a Camila, que acredita na escola como formadora dessa postura social que as pessoas necessariamente devem seguir? O que você acha dos métodos de ensino aplicados na escola, hoje?
Essa pergunta é engraçada. Tem um momento no filme que o Mano (Francisco Miguez) fala, revoltado: 'o inferno é aqui'. Ele está certo. O inferno é na escola. A escola não evoluiu com o resto do mundo. Esses métodos ensinados hoje são super questionáveis. Tudo o que se aprende é um misto de decoreba. Num momento em que existe o Google, você ainda precisa decorar a tabela periódica! Isso é velho. A escola não deveria ensinar meras decorebas, que hoje podem ser acessadas com a maior facilidade. Mas o que a internet não ensina? Juízo de valor, liberdade de escolha. Para mim, professores deviam ganhar como deputados. Eles deveriam funcionar como mestres que são. Como é que isso acontece? Essas pessoas são responsáveis pela educação de nossos filhos. Como elas ganham tão mal?