Crítica: Filme de terror 'Hereditário' não é tão assustador assim
O que, no limite, salva o longa e garante o mínimo de interesse é o elenco, com a sempre ótima Toni Collette
Cinéfilo de carteirinha sabe que a Academia de Hollywood resiste aos filmes de gênero se não forem western ou musical. Este ano, um jovem negro, Jordan Peele, fez história ao vencer o Oscar com Corra!. Venceu melhor roteiro original, mas, apesar do seu inegável interesse e importância, há controvérsia se Corra! é tão bom assim.
Surgiu agora o que talvez seja o Get Out! deste ano. Desde que fez sensação no Sundance Festival, em janeiro, Hereditário, de Ari Aster - que está em cartaz nos cinemas -, tem dado o que falar.
O novo melhor terror, o mais assustador - você já deve ter lido, ou ouvido isso. É exagero. Aster é jovem, como Jordan Peele, e seu passaporte para o longa foi uma média-metragem, The Strange Thing About the Johnsons, que focava o abuso do ângulo familiar.
Talvez seja necessário advertir que esse texto contém informações essenciais. Olha o spoiler.
Aster retorna ao tema da família, e até ao abuso.
De cara morre a vovó, o que desestabiliza mamãe - a sempre ótima atriz Toni Collette. Coisas estranhas começam a ocorrer na casa e, ao tema da casa assombrada, Ari Aster superpõe a influência das seitas.
O que Toni descobre - e isso através de sucessivas perdas familiares - é que está sendo buscado um sucessor para o culto a Paimon, um dos reis do inferno. Tem de ser um homem. Toni tenta proteger sua família - os filhos -, mas o morticínio é inevitável.
Aster busca certa consistência para o descontrole emocional de Toni - a presença da médium, a invocação dos mortos, a descoberta do destino sinistro que a matriarca reservou para seus descendentes.
Mas logo os efeitos atropelam a lógica - por que um homem para suceder a matriarca nesse momento de empoderamento? O que, no limite, salva Hereditário e garante o mínimo de interesse ao filme é o elenco, com destaque também para a menina Milly Shapiro e Alex Wolff, da nova versão de Jumanji: Bem-Vindos à Selva.
Toni Collette faz uma maqueteira. Constrói casas em miniatura, e o diretor joga com a questão da escala - que Stanley Kubrick também fazia em O Iluminado, mas seria absurdo comparar os dois. O Kubrick, sim, era - e continua sendo - assustador.