Clássicos do cinema francês são lançados em DVD
O cinema francês teve uma longa e distinta existência antes da chegada do Nouvelle Vague em 1959, mas você nem perceberia isso ao olhar para os filmes franceses mais antigos lançados em DVD nos Estados Unidos. Jean Renoir está bem representado, assim como Jacques Tati e Jean Cocteau, mas cineastas celebrados e influentes como Julien Duvivier, Henri-Georges Clouzot, Claude Autant-Lara e Yves Allégret mal existem em vídeo, com exceção de alguns de seus títulos mais famosos.
Na semana passada, a Criterion Collection lançou discretamente mais alguns títulos. As coleções "Essential Art House" são box sets, contendo cada um meia dúzia de títulos do catálogo da Criterion, apresentados sem os extras copiosos da Criterion e oferecidos com preço promocional (US$ 99,95). O volume mais recente, o quarto, contém três filmes importantes familiares - 39 Degraus (1935) de Alfred Hitchcock, Trono Manchado de Sangue (1957) de Akira Kurosawa e Os Contos de Hoffmann (1951) de Michael Powell e Emeric Pressburger - e três filmes raros: Trágico Amanhecer (1939) de Marcel Carne, anteriormente disponível apenas como parte do box de US$ 850 50 Years of Janus Films; e dois lançamentos da Criterion, Mayerling (1936) de Anatole Litvak e Gervaise, a Flor do Lodo (1956) de René Clement. (Os discos também estão disponíveis individualmente por US$ 19,95.)
Dos três, apenas Trágico Amanhecer pode de fato afirmar grandeza, mas juntos os filmes representam uma bem-vinda expansão no mercado americano do que um dia foi conhecido orgulhosamente como a "tradição de qualidade" francesa. Foi François Truffaut que transformou a expressão em um insulto irônico com seu famoso artigo de 1954, Uma Certa Tendência do Cinema Francês, publicado em Les Cahiers du Cinema. Truffaut, um ambicioso crítico de 21 anos, atacou o status quo da época com tal vigor e crueldade que carreiras foram prejudicadas, abrindo o caminho para Truffaut e seus colegas de Cahiers liderarem um novo movimento no cinema francês alguns anos mais tarde.
Lido hoje, o artigo de Truffaut parece hiperbólico e moralista, como quando ele ataca os roteiristas Jean Aurenche e Pierre Bost, e a escola de realismo psicológico que eles representavam: "Para eles, o realismo psicológico inevitavelmente exige que os homens sejam vis, infames e desprezíveis", e "os filmes que eles escrevem são ainda mais vis, desprezíveis e fracos do que qualquer coisa que a arte francesa já produziu até hoje".
Parece ser um pouco de exagero dizer isso, por exemplo, de Gervaise, a Flor do Lodo, um filme que Aurenche e Bost escreveram para seu constante coladorador Clement, dois anos após a publicação do artigo de Truffaut. Uma adaptação do romance de Zola de 1877 L'Assommoir, o filme, na verdade, atenua o naturalismo áspero da obra de Zola, transformando a heroína da classe trabalhadora Gervaise (Maria Schell), antes uma alcoólatra perdida, em uma pessoa determinada e alegre.
Nos sets que recriam meticulosamente a Montmartre do século 19, Gervaise luta para sustentar seus filhos e o marido vagabundo (François Périer) abrindo uma lavanderia. O filme pode não ser tão inovador e excitante quanto Os Incompreendidos, mas é um trabalho habilidoso e artesanal. Seu defeito principal está no desejo de Aurenche e Bost de fazer jus às grandes cenas do livro - uma briga entre mulheres na lavanderia, um jantar de casamento que vira anarquia -, o que faz o filme parecer um pouco atarracado e estático.
O pessimismo de Gervaise, a Flor do Lodo tem raízes no "realismo poético" do cinema francês pré-guerra, um movimento alimentado pelo fracasso da idealista Frente Popular e a crescente ameaça de guerra da Alemanha de Hitler. Algo que diz muito sobre essa atmosfera de desesperança e derrota é o fato de tanto Mayerling quanto Trágico Amanhecer - grandes sucessos do período ¿ narrarem atos espetaculares de suicídio, levando o público passo a passo rumo a uma conclusão pré-determinada.
O fatalismo de Mayerling é histórico: o filme relata o romance trágico entre o príncipe herdeiro Rudolph da Áustria (Charles Boyer) e a baronesa Marie Vetsera (Danielle Darrieux), que culmina em um aparente pacto de suicídio e um escândalo que enfraquece o império austríaco. O diretor, Anatole Litvak, era um judeu ucraniano que havia trabalhado na Alemanha e se mudaria no ano seguinte para Hollywood. Seu filme, particularmente quando se aproxima do desfecho no pavilhão de caça Mayerling, tem uma poderosa atmosfera claustrofóbica, como se as paredes estivessem se fechando não somente sobre os personagens, mas também em volta de todo o continente.
Com a atuação grandiosa de Boyer e Darrieux, que posteriormente se uniriam mais uma vez na obra-prima de Max Ophuls Desejo Proibido (1953), o filme permanece como um clássico de morbidez, constituído por uma autenticidade emocional que nenhuma de suas refilmagens alcançaram (incluindo uma do próprio Litvak, um drama televisivo de 1957 com Audrey Hepburn e Mel Ferrer).
O fatalismo de Trágico Amanhecer, em contraste, é expresso de maneira formal, notoriamente em um dos primeiros e mais influentes usos do flashback. A técnica era tão nova, elaborada pelos roteiristas Jacques Viot (história) e Jacques Prevert (diálogo), que uma narração de abertura foi considerada necessária para orientar o público: "Um homem matou... preso e cercado em um quarto de hotel, ele se lembra das circunstâncias que fizeram dele um assassino."
O homem é François (Jean Gabin, em atuação clássica), um operário fabril que parece ser a materialização dos sonhos e decepções da Frente Popular. Ele matou Valentin (Jules Berry), um músico seboso, que zombava de François dizendo que havia dormido com sua jovem noiva (Jacqueline Laurent) e sua antiga amante (Arletty).
A direção de Carne enfatiza o senso de cerco e isolamento: o interior do quarto de hotel de François foi filmado em um set incomum de quatro lados (os atores e os técnicos tinham que escalar a parede para entrar); o exterior era uma fachada de seis andares que parecia estar sozinha em uma desolada rua de terrenos baldios, construída em uma perspectiva vertiginosa. (A produção foi elaborada pelo grande Alexandre Trauner.)
Tanto Mayerling quanto Trágico Amanhecer são filmes clássicos de estúdio que nada fazem para esconder sua artificialidade, uma característica que também pode ter irritado o jovem Truffaut, que passaria pelo menos a primeira parte de sua carreira na busca por um naturalismo antitético e pela espontaneidade. Após 50 anos, podemos perdoar esses filmes por não serem o que nunca tiveram a intenção de ser. E existe muito mais de onde eles vieram.
Também lançados esta semana:
X-MEN ORIGENS: WOLVERINE
O super-herói da Marvel com poderes animais, garras retráteis e um esqueleto de adamantium (Hugh Jackman) e como ele se transformou nisso, dirigido pelo cineasta sul-africano Gavin Hood (Infância Roubada). Com Liev Schreiber, Taylor Kitsch e Ryan Reynolds. A. O. Scott escreveu no New York Times em maio que "as emoções superdimensionadas que dão a qualquer épico de super-herói um magnetismo adolescente e lirismo pop são diminuídas pela confusão frenética da narrativa." (Fox, Blu-ray: US$ 39,99, definição padrão: US$ 29,99, classificação nos EUA: para maiores de 13 anos)
UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES
A hábil mistura de comédia e horror de John Landis, estrelando David Naughton como o turista americano que tem uma experiência infeliz na área rural da Inglaterra, ganha uma atualização em Blu-ray e uma remasterização em definição padrão. O filme, Janet Maslin escreveu no Times em 1981, "dispara de um início maravilhoso". Com Jenny Agutter e Griffin Dunne. (Universal, Blu-ray: US$26.98, definição padrão: US$ 19,98, classificação nos EUA: para maiores de 17 anos.)
STAR TREK: THE NEXT GENERATION MOTION PICTURE COLLECTION
O capitão Picard (Patrick Stewart) pilota uma nave espacial modernizada nos quatro filmes originados da série de televisão de 1987 a 1994, agora oferecidos em Blu-ray. (Paramount, US$ 69,99, classificação nos EUA: recomendada a presença de adultos.)
WALLACE & GROMIT: A Matter of Loaf and Death
Um novo episódio de 30 minutos da série animada de Nick Park sobre um solteirão do norte da Inglaterra (dublado por Peter Sallis) e seu fiel cão; eles abrem uma padaria, e o amor, na ampla forma de uma rainha da beleza envelhecida (Sally Lindsay) e seu poodle cor-de-rosa, está no horizonte. (Lyons/Hit Entertainment, US$ 14,98, sem classificação.)
GODZILLA, KING OF THE MONSTERS
Acordado por testes de bomba, um lagarto gigante de aparência bizarra assola Tóquio no filme de Ishiro Honda de 1954, agora em Blu-ray. Bosley Crowther, escrevendo no Times em 1956, chamou-o de "um filme incrivelmente terrível". Classic Media, US$ 29,95, sem classificação.)
TULPAN
Um pastor do Cazaquistão decide conquistar o coração de uma bela vizinha no primeiro filme de ficção do documentarista Sergey Dvortsevoy. Scott escreveu no Times em abril que "não existe nada especialmente simples sobre a vida na estepe, ou, mais crucialmente, sobre as emoções das pessoas que vivem lá, e o espectador rapidamente perde a sensação de que eles são estrangeiros, que é substituída por um sentimento de reconhecimento." (Zeitgeist, US$ 29,99, sem classificação.)