Cine Marrocos retrata ocupação em cinema histórico de SP
Documentário vencedor do É Tudo Verdade 2019 estreia nesta quinta (3) nos cinemas
Quem passa pela frente do antigo Cine Marrocos, um prédio abandonado no centro de São Paulo, não imagina que astros do cinema hollywoodiano e europeu já passaram por ali. Foi em 1954, quando o local sediou o primeiro festival internacional de cinema do Brasil, exibindo clássicos como “O Crepúsculo dos Deuses”, de Billy Wilder, “A Grande Ilusão”, de Jean Renoir, e “Noites de Circo”, de Ingmar Bergman.
Em 2021, completam-se 70 anos desde a criação do espaço, inaugurado em janeiro de 1951. Desativado desde 1994 e desapropriado em 2010 pela Prefeitura, o prédio foi ocupado pelo Movimento dos Sem Teto do Sacomã (MSTS) em 2013, e passou a abrigar brasileiros sem-teto, imigrantes latino-americanos e refugiados africanos. Foi uma visita nesta ocupação em 2015 que fez o jornalista Ricardo Calil ter a ideia para filmar "Cine Marrocos", longa que estreia nos cinemas nesta quinta (3).
"Fiquei muito fascinado com a ideia de um cinema que virou lar para as pessoas, porque pra mim ele sempre foi um lar simbólico. E a ocupação era uma coisa muito potente, os moradores eram figuras muito fortes e interessantes", lembra Calil.
Na ocasião, o local estava ocupado por 2 mil sem-teto de 17 países, dormindo em quartos provisórios e em constante ameaça de despejo pela prefeitura. Unindo passado e presente, realidade e ficção, o cineasta e sua equipe decidiram reabrir o teatro para exibir, novamente, os filmes do festival de 54. Somado a isso, propuseram uma oficina de teatro para os moradores do antigo cinema. No final do processo, eles reencenaram cenas icônicas dos filmes que assistiram e reinventaram papéis famosos de estrelas do cinema como Gina Lollobrigida, Vittorio de Sica, Gloria Swanson e Harriett Anderson.
Ao intercalar os jogos cênicos dos moradores com as cenas originais e explorar a história de vida desses personagens, o documentário traz uma discussão importante sobre acesso à moradia, pobreza, desigualdade, imigração e até mesmo saúde mental. Neste grupo extremamente diverso, encontramos desde um jornalista perseguido em seu país natal até um iluminador de teatro que perdeu tudo após a depressão.
"Criamos ali uma espécie de intervalo de fantasia, de ficção, no meio daquela realidade muito dura. Acho que o filme discute um pouco essa ideia: o quanto que a gente pode transcender da realidade, e o quanto que ela nos soterra como um avalanche", explica o diretor.
Outra discussão interessante levantada pelo longa é a deterioração dos equipamentos culturais da cidade e o fechamento dos cinemas de rua. Para Calil, a desvalorização da cultura e os ataques do atual governo contribuem para criar uma situação preocupante.
"Acho que estamos em um momento ruim do país e da cultura brasileira, porque temos uma série de pessoas no poder que não entendem a importância da cultura e a enxergam como inimiga. Então, somamos uma tragédia mundial, que é a pandemia, a uma tragédia política e social brasileira, além de uma questão estrutural histórica, que é o abandono e a decadência do cinema de rua, trocado pelos cinemas de shopping", opina Calil.
O Terra conversou com o diretor Ricardo Calil sobre os bastidores do filme, os desafios encontrados ao longo do processo e a situação atual do cinema no Brasil. Confira no vídeo a entrevista completa: