Carlos Gerbase: "se o cinema é sobre vida, tem que ter sexo"
- Mariana Ghorayeb
Perturbação mental, surtos psicológicos, abandono manicomial, paixão, nudez e imaginação. É nesse universo que o filme Menos que Nada, do diretor Carlos Gerbase, estreia nesta sexta-feira (20) em lançamento multiplataformas - na internet terá exclusividade do SundayTV, plataforma de vídeos online do Terra. Em entrevista exclusiva, Gerbase falou sobre a produção e as cenas de sexo. "Se o cinema é sobre a vida, tem que ter sexo, de forma explícita ou implícita", disse ele.
Assista ao filme 'Menos que Nada' no Sundaytv
'Menos que Nada' tem estreia simultânea no Sundaytv e nos cinemas
Descubra o Sundaytv e tenha acesso ao melhor do cinema e da TV
Seu novo trabalho conta a história de Dante (Felipe Kannenberg), um arqueólogo que trabalha com a parte burocrática de obras. Internado há 10 anos em um hospital psiquiátrico, onde foi esquecido por amigos e pela família, desperta a curiosidade de Paula (Branca Messina), uma médica que decide ajudar o paciente a encontrar o motivo que o levou à internação. Seus surtos envolvem um banco, simulação de atos sexuais, gritos, um buraco e uma encenação de morte.
Menos que Nada conta ainda com a atriz Rosanne Mulholland, atualmente intérprete da Professora Helena na novela infantil Carrossel, no elenco. Ao ser questionado sobre a nudez da atriz, Gerbase contou que os dois conversaram muito a respeito das cenas de sexo. "Ela é uma grande atriz e sabe que seu corpo é um instrumento narrativo fundamental. Filmamos com a maior naturalidade", afirmou.
O diretor também comentou sobre psicologia, sistema manicomial brasileiro, situação do cinema no País e planos para o futuro. Confira a entrevista na íntegra:
Terra - Por que decidiu lançar o filme em quatro mídias diferentes ao mesmo tempo?
Carlos Gerbase - A ideia veio no meu filme anterior, o 3 Efes. Em 2007 (como agora), eu achava que lançar apenas nas salas seria repetir alguns erros anteriores. Lançado em 2007, ele tinha circulado muito bem na internet, em que fez mais de 135 mil espectadores (no portal Terra). Queríamos com o Menos que Nada fazer um filme mais ambicioso, com melhores condições técnicas, e com um lançamento mais bacana. É o que está acontecendo.
Terra - Acredita que o fato do filme chegar à TV e internet pode afetar de alguma forma a arrecadação das bilheterias dos cinemas?
Carlos Gerbase - Espero que afete positivamente, gerando um boca a boca que leve mais pessoas ao cinema. Acho que boa parte do sucesso do Tropa de Elite 1 se deve à circulação informal em DVDs piratas e na internet.
Terra - No Brasil é comum comédias como Se Eu Fosse Você, Divã e E Ai... Comeu? baterem a marca de um milhão de espectadores. O que falta para filmes nacionais de outros gêneros conseguirem o mesmo sucesso de bilheteria?
Carlos Gerbase - Faltam sempre duas coisas: filmes que dialoguem com o público (como as comédias parecem fazer atualmente) e um mercado que permita o lançamento digno de filmes médios e pequenos de todos os gêneros. Ninguém tem a fórmula do sucesso. Se é para culpar alguém pelas dificuldades dos filmes brasileiros, temos que ver quem ocupa um número absurdo de salas e praticamente toma conta do mercado.
Terra - Como você enxerga o mercado de salas de cinema no Brasil? Acha que isso interfere na arrecadação desses filmes, que muitas vezes ficam em circuito fechado e pouco tempo em cartaz?
Carlos Gerbase - Seria bom que o número de salas no Brasil fosse maior e que elas não ficassem tão concentradas em shoppings de zonas nobres das cidades. Carreiras curtas de filmes pequenos, com pouco dinheiro para publicidade, são comuns no mundo todo. Cineastas franceses, espanhóis, alemães e italianos queixam-se exatamente como os brasileiros. Poucos filmes conseguem uma chance real nas salas e é por isso que defendo a circulação em outras mídias desde o lançamento.
Terra - O que mais te chamou atenção no conto de Arhur Schnitzler, que te fez pensar em adaptar a obra?
Carlos Gerbase - Trata-se de um texto curto (oito páginas), mas de grande densidade dramática, em que Schnitzler conta a história de um escriturário que se apaixona perdidamente pela esposa de um militar e, sem qualquer possibilidade real de aproximar-se dela, constrói um universo imaginário para viver seu amor. Embora a trama original se passe na Viena do final do século 19, o conflito psicológico retratado é universal e atemporal, permitindo uma adaptação que dialoga com os espectadores cinematográficos contemporâneos. Para isso, foi fundamental colocar a trama num contexto brasileiro e mais próximo ao espectador atual.
Terra - No texto de Schnitzler, o personagem em questão era um escriturário. Por que no filme ele é um arqueólogo?
Carlos Gerbase - Porque eu queria fazer esse paralelo entre as atividades de um psiquiatra (ou de um psicólogo) com o trabalho arqueológico. Dante é um arqueólogo de pouca ambição, que trabalha com a liberação de obras. (No decorrer do filme) Dante se apaixona por uma mulher, para ele inatingível, e a partir daí sua vida muda inteiramente.
Terra - Como foi a preparação dos textos e roteiros?
Carlos Gerbase - No desenvolvimento da última versão do roteiro teve papel decisivo a leitura de um ensaio de Freud, Delírios e Sonhos na Gradiva de Jensen. Há um detalhe surpreendente nesse ensaio: o personagem principal da ficção de Jensen é um arqueólogo, a mesma profissão de Dante, o anti-herói de Menos que Nada. Coincidência? Talvez não. A investigação psicanalítica pode ser encarada como uma escavação que parte da superfície visível do ser humano e vai penetrando em camadas cada vez mais profundas da sua psique.
Terra - Você sempre teve interesse por temas psicanalíticos?
Carlos Gerbase - Sim, mas o interesse se acentuou nos últimos anos. Freud é um escritor talentoso, erudito e muitas vezes engraçado. É prazeroso lê-lo. Também li algumas coisas de Reich e de Jung. No Brasil, sou fã do José Ângelo Gaiarsa e, em especial, do Paulo Sérgio Guedes, cujos livros são extraordinários e muito inspiradores para qualquer ficcionista que lide com a alma humana.
Terra - Menos que Nada busca, de alguma forma, alertar as pessoas para problemas psiquiátricos?
Carlos Gerbase - Desde a primeira leitura do conto de Schnitzler ficou claro que fazer ficção tendo como base um personagem psicótico, que delira e confunde a realidade com o seu imaginário, exigiria dois cuidados essenciais: pesquisar sobre o tema, para conhecê-lo e dar verossimilhança à abordagem; e depois manter o roteiro longe de soluções excessivamente esquemáticas e psicanalíticas. O psicótico, em seu delírio, está criando um mundo em que possa viver, já que a realidade é insuportável. Assim, o seu delírio é, ao mesmo tempo, sintoma de uma doença (para quem observa) e tentativa de cura (para o próprio doente).
Terra - Em algum momento você pensou em aproveitar o filme para fazer uma denúncia contra o abandono do sistema manicomial no País?
Carlos Gerbase - Não. Não se trata de denúncia, mas espero que o filme ajude no debate do tema. A falência do sistema manicomial brasileiro, construído no século 19, é bem evidente, mas a sua substituição por uma rede descentralizada de atendimentos é mais um desejo que um fato. Menos que Nada conta a história de um destes doentes. Há dez anos internado, ele é considerado um "caso perdido", até que uma jovem psiquiatra decide tratar dele e estudá-lo. Ao dramatizar esse processo, o filme mostra como uma pessoa aparentemente alienada da realidade pode ser conduzida a outro patamar, mais digno e mais humano, mesmo que isso não signifique propriamente uma "cura".
Terra - Como aconteceu a preparação para o filme? Fez visitas a manicômios?
Carlos Gerbase - O Hospital Psiquiátrico São Pedro foi um parceiro importante do filme, ainda antes das filmagens. Fomos muito bem recebidos e os atores puderam vivenciar o cotidiano dos pacientes e dos profissionais de saúde. Fiquei com uma impressão muito positiva do trabalho desenvolvido no hospital. Também visitei o Cais Mental, em Porto Alegre, um centro de apoio psicológico e clínico para doentes não internados e fiquei bem impressionado com o trabalho ali desenvolvido. Tem gente que faz milagres com muito pouco dinheiro.
Terra - O que constatou nessas visitas? Alguma coisa foi inesperada e mudou o rumo do filme?
Carlos Gerbase -
Constatei que o universo da doença mental é fascinante e perturbador. E que mais filmes deveriam ser feitos com esse tema.
Terra - A imaginação está presente em muitos de seus filmes, como Tolerância e Sal de Prata, por exemplo. É coincidência ou esse sempre foi um tema de seu interesse?
Carlos Gerbase - O tema da imaginação está bem presente em meus últimos filmes. Minha motivação principal em Menos que Nada é dar mais um passo nesse conjunto de reflexões sobre a imaginação humana. Pretendo que ultrapasse os limites da imaginação dita normal e penetre no campo das imaginações ditas patológicas. Realizar este filme foi um aprofundamento e uma radicalização de ideias que já vinham sendo desenvolvidas em meus trabalhos: a imaginação como elemento constituinte (e formador) da existência humana; as dificuldades que todos temos de relacionar o mundo imaginado com alguns de nossos instintos mais básicos e que nos aproximam muito dos animais, em especial as pulsões sexuais; o cinema como a mais poderosa máquina de criar imaginários, pois é capaz de representar mundos com grande verossimilhança, e mesmo assim plenamente estéticos e arbitrários.
Terra - Seus trabalhos costumam mostrar cenas de sexo e nudez. Tem algum motivo especial? Alguma atriz já resistiu a tirar a roupa em cena?
Carlos Gerbase - Somos o que somos pela nossa história pessoal, individual, íntima e secreta. O sexo é elemento fundamental nesse processo. Sexo faz parte da vida. Se o cinema é sobre a vida (e nem sempre ele é: pode ser sobre a morte, ou sobre seres que perderam o interesse pela vida) tem que ter sexo, de forma explícita ou implícita. Tirar ou não a roupa é detalhe, depende da história, depende de cada cena. Sempre respeitei os limites de atores e atrizes, e continuarei fazendo isso. Ao mesmo tempo, sempre admirei o trabalho de fotógrafos como Helmut Newton, que fazem a nudez ser obra de arte. Se é bonito e tem sentido dramático, o corpo deve ser mostrado e admirado.
Terra - Em Menos que Nada, Rosanne Mulholland também está em uma cena de sexo. E, atualmente, a imagem dela está muito ligada ao público infantil da novela Carrossel, do SBT. Ela aceitou tirar a roupa numa boa?
Carlos Gerbase - Sem nenhum problema. Rosanne é uma grande atriz e sabe que seu corpo é um instrumento narrativo fundamental. Basta ver suas cenas em A Concepção, do Belmonte. Dialogamos bastante sobre o que iríamos fazer e filmamos sua cena de sexo com a maior naturalidade.
Terra - Como aconteceu a escolha do elenco? Na criação do filme você escreveu os personagens para determinados atores ou a escolha veio depois?
Carlos Gerbase - Com raríssimas exceções, só escalamos o elenco depois do roteiro estar pronto. No caso do Menos que Nada escolhi à distância. Na época estava em Paris, e o Facebook foi fundamental para achar as pessoas e fazer os primeiros convites. Cada escolha do elenco tem sua história e contar cada uma daria um livro.
Terra - Para você, como foi realizar esse filme?
Carlos Gerbase - Produção competente da Luciana Tomasi, que fez um BO (filme de baixo orçamento) parecer, às vezes, uma super produção. Equipe fantástica. Elenco maravilhoso. Foi muito bom.
Terra - Já tem algum novo trabalho em mente? Se sim, em qual fase de produção?
Carlos Gerbase - Quero fazer séries de TV e para a internet. Gostaria de usar meu romance Todos Morrem no Fim como argumento para uma série policial. Se alguma TV ou site estiver interessado, podemos conversar...