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Crítica: Rodrigo Portella dirige ótimo trio de atores em sóbria encenação

Drama da britânica Lucy Kirkwood, 'As Crianças' observa dilemas da maturidade

8 nov 2019
18h04
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Gradativamente, São Paulo começa a conhecer os trabalhos que fizeram a fama do diretor Rodrigo Portella. No Rio de Janeiro, ele esteve indicado a todos os mais importantes prêmios nos últimos anos - a ponto de se tornar uma espécie de grife de sucesso, procurado por atores e companhias experientes. Em As Crianças, drama em temporada no Sesc 24 de maio, Portella deixa entrever qualidades que justificam a fama recente ao entregar uma encenação limpa e segura. De uma sobriedade que contrasta com sua trajetória heterodoxa.

Depois de se formar em direção teatral no Rio, Rodrigo Portella tomou uma decisão que certamente contrariava o senso comum: decidiu trocar a capital fluminense por uma cidadezinha no interior do Estado, Três Rios. Paradoxalmente, foi lá, sem a estrutura de editais ou patrocínios, que ele conseguiu se estabelecer profissionalmente: formou uma companhia e criou um espetáculo, Antes da Chuva, com o qual chamaria a atenção da crítica especializada e teria a chance de percorrer todo o País.

Com As Crianças, Portella consegue interpretações muito menos físicas e mais sutis do que em suas obras anteriores. Na recente Tom na Fazenda, trazia os atores em vigoroso embate psicológico e corporal, com movimentos que evocavam uma coreografia primitiva e animalesca. O que soa menos visceral aqui, porém, não é menos interessante e parece bastante adequado ao tom proposto pela dramaturga britânica Lucy Kirkwood.

O contexto é aparentemente ameno: um reencontro entre amigos que não se viam há 38 anos. Ao redor de uma grande mesa, a dona da casa Dayse (Analu Prestes) e a visitante Rose (Andrea Dantas) falam da velhice, de seus novos hábitos de saúde, de filhos e netos. Mas, conforme avança a trama, algo parece fora de lugar - a energia elétrica não funciona, o café é feito com a água morna de uma garrafa térmica, a antiga casa em que a anfitriã morava precisou ser abandonada.

De repente, compreendemos melhor o quadro que se desenha: um casal de físicos aposentados recebe uma antiga colega de trabalho após um acidente nuclear. Juntos, eles trabalharam em uma usina. Um terremoto provocou um tsunami, a água entrou dentro do reator e, desde então, todo o entorno foi tomado por radiação.

Estranhamente, a revelação não surge cercada por gravidade ou por uma mudança no ritmo da peça. Mantém-se certo clima de amenidade, aquela falta de assunto típica entre pessoas que um dia foram íntimas, mas já não se conhecem mais. Conserva-se também uma atmosfera de suspense, como se as revelações - e as responsabilidades que envolvem o acidente nuclear em questão -, ainda não tivessem vindo todas à tona.

Por que Rose voltou à pequena cidade depois de tantos anos distante? A dramaturgia de Lucy Kirkwood brinca com as razões desse retorno. Quando o marido de Dayse, Robin (Mario Borges), chega em casa no fim do dia, a dinâmica do que já fora um triângulo amoroso se restabelece. Há histórias do passado que não foram contadas, há mágoas de todas as partes. Eles trocam farpas, escondem-se por trás de certa ironia para disfarçar um incômodo crescente. Mas a peça não trata de imbróglios amorosos - assim como não tematiza especialmente desastres ambientais.

A cenografia de Julia Deccache e Rodrigo Portella investe em poucos elementos, todos bastante significativos. Além da mesa e de algumas cadeiras, estão dispostos no palco um cavalinho de madeira (aparentemente contaminado pela radiação), uma garrafa de vinho, uma planta. São pistas breves para o questionamento ético e existencial que ganha forma ao longo do espetáculo.

O universo infantil, evocado pelo título As Crianças, diz respeito tanto às novas gerações quanto a um traço de imaturidade que perdura nesses velhos companheiros. É uma espécie de acerto de contas entre gerações. Mas sem que a autora - que tem pouco mais de 35 anos - aponte o dedo para esses personagens que teriam idade para serem seus pais. Quando olhamos para os dilemas desse trio de amigos, não parece existir resposta simples. Eles chegaram à velhice com um mundo em destroços e precisam aprender a continuar a viver. As interpretações alcançadas por Analu Prestes, Mario Borges e Andrea Dantas - todas de ímpar delicadeza - só reforçam esse olhar amorosamente ambíguo.

Estadão
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