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Como um filme com Jim Caviezel foi envolvido em escândalo político no Brasil

15 mai 2026 - 11h47
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O próximo longa-metragem do ator norte-americano Jim Caviezel, "Dark ‌Horse", um filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, foi anunciado por uma publicação da indústria cinematográfica como um thriller sobre a batalha do político de extrema-direita "contra um establishment corrupto".

Ex-presidente Jair Bolsonaro deixa hospital em Brasília
  14 de setembro de 2025   REUTERS/Mateus Bonomi
Ex-presidente Jair Bolsonaro deixa hospital em Brasília 14 de setembro de 2025 REUTERS/Mateus Bonomi
Foto: Reuters

Mas, nesta semana, a produção foi envolvida em um escândalo que abalou o próprio establishment que pretendia denunciar.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente e escolhido para concorrer nas eleições presidenciais deste ano, confirmou na quarta-feira que conseguiu financiamento para o filme com o banqueiro Daniel Vorcaro, que foi preso em março sob suspeita de liderar um esquema de fraude multibilionário.

O senador descreveu um contrato com Vorcaro para apoiar ⁠o filme, mas disse que o acordo não estava ligado à investigação de fraude contra Vorcaro que está sendo conduzida pela Polícia Federal.

"O que aconteceu ‌foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai", disse o senador em um comunicado, acrescentando que ele se encontrou com o banqueiro antes de a notícia da investigação ser divulgada. "Não ofereci vantagens em troca."

O escândalo envolvendo o Banco Master, de Vorcaro, ‌tem consumido a política brasileira este ano, com figuras de todo o espectro político ‌tentando vincular seus rivais ao banco e se distanciar.

Isso incluiu o próprio senador Flávio Bolsonaro, que recentemente havia negado qualquer ligação com o ⁠agora preso Vorcaro, acusado pela polícia de tentar subornar reguladores e fraudar investidores.

"A esquerda tenta criar narrativas querendo vincular de alguma forma Bolsonaro à questão do Banco Master, mas não dá liga", disse ele a repórteres neste mês.

"Não foi Bolsonaro que se reuniu escondidinho com Vorcaro -- foi Lula", acrescentou, referindo-se a uma reunião em dezembro de 2024 entre o banqueiro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Flávio Bolsonaro e Lula estão praticamente empatados nas pesquisas recentes antes da eleição presidencial de outubro, embora o escândalo de Vorcaro provavelmente tenha prejudicado o pré-candidato do PL, disseram os pesquisadores nesta ‌semana.

CONVITE PARA UM "IRMÃO"

Na quarta-feira, o site de notícias The Intercept Brasil informou, citando documentos e mensagens, que Vorcaro havia prometido a Flávio Bolsonaro US$24 milhões ‌para ajudar a produzir o filme e que, ⁠até o momento, metade desse valor foi ⁠pago.

A reportagem incluiu uma mensagem de áudio e vários textos que supostamente seriam entre o senador e o banqueiro, nos quais eles se chamam de "irmão". Uma fonte ⁠próxima à investigação da Polícia Federal confirmou à Reuters que as mensagens estavam entre os ‌registros apreendidos pela polícia.

A GOUP Entertainment, produtora por ‌trás de "Dark Horse", disse que o filme teve mais de 10 investidores, mas não recebeu "um único centavo" de Vorcaro ou de qualquer uma de suas empresas.

A GOUP não respondeu a perguntas sobre o orçamento do filme, mas afirmou que Flávio Bolsonaro havia entrado em contato com investidores privados.

O senador disse na quarta-feira que Vorcaro parou de honrar as parcelas do contrato e, como consequência, ele e outros procuraram ⁠outros investidores.

"Dark Horse" está programado para ser lançado em setembro, um mês antes da eleição brasileira.

O diretor norte-americano Cyrus Nowrasteh disse ao Deadline no mês passado que o filme, inspirado na vida do ex-presidente Bolsonaro, interpretado por Caviezel, é "um thriller político tenso sobre poder, mídia e fé sob fogo".

Algumas semanas após o término das filmagens em dezembro, Caviezel publicou uma mensagem desejando um feliz Natal ao ex-presidente, recentemente condenado a 27 anos de prisão por planejar um golpe após perder a eleição de 2022.

"Orem comigo pelo ‌nosso irmão Jair e sua família", escreveu ele.

Representantes de Caviezel e Nowrasteh não responderam aos pedidos de comentário.

A reportagem do Intercept Brasil incluiu uma troca de texto de outubro, que a fonte confirmou estar entre os registros apreendidos, em que o senador perguntou se Vorcaro queria jantar com ⁠Caviezel e Nowrasteh.

"Será onde? Quer fazer na minha casa?", respondeu o banqueiro, cerca de um mês antes de ser preso pela primeira vez.

"Pode ser na sua casa sim!", escreveu o senador de volta.

A Reuters não conseguiu determinar se essa reunião aconteceu.

GRANDE ORÇAMENTO

Embora o orçamento do filme não tenha sido divulgado, um compromisso de US$24 milhões, conforme relatado pelo Intercept, faria de "Dark Horse" um dos filmes brasileiros mais caros já feitos.

Falando a repórteres em Brasília na sexta-feira, Flávio Bolsonaro disse que não sabia todos os detalhes do orçamento, mas acredita que "além do que tinha sido investido num primeiro momento", o filme custou cerca de US$16 milhões.

O filme brasileiro indicado ao Oscar deste ano, "O Agente Secreto", custou US$5 milhões. O vencedor do Oscar do ano passado, "Ainda Estou Aqui", do bilionário diretor brasileiro Walter Salles, custou US$9 milhões, de acordo com a mídia.

"Som da Liberdade", um filme recente de Caviezel ambientado na Colômbia, custou US$14,5 milhões, segundo o Wall Street Journal.

Kleber Mendonça Filho, o diretor de "O Agente Secreto", um crítico de Jair Bolsonaro que se manifesta contra os esforços do ex-presidente para cortar o financiamento público para as artes, usou a mídia social para comemorar o escândalo.

"Um grande dia para o Cinema Brasileiro feito na Realidade do Trabalho árduo", escreveu ele, acrescentando que um de seus próprios thrillers, "Bacurau", custou cerca de US$1,5 milhão para ser feito.

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