PUBLICIDADE

'Plano B' traz retorno de Jennifer Lopez e mostra o cinema no divã

23 abr 2010 - 16h30
(atualizado às 16h36)
Compartilhar

É difícil determinar quando a comédia romântica norte-americana começou a fazer terapia, ainda que seja fácil presumir que isso aconteceu no mesmo momento em que os cineastas começaram a se deitar no divã, ou a ler livros de autoajuda.

» vc repórter: mande fotos e notícias

No passado, as comédias românticas envolviam um homem e uma mulher envolvidos em delicadas (ou rudes) negociações de poder. A megera precisava ser domada, ou o menino tinha de amadurecer para enfrentá-la, ou qualquer outra variação da ideia. Esse modelo continua em uso, ainda que o diálogo cômico que acompanhava esses momentos tenha sido substituído por discursos sobre sentimentos.

Freud talvez tenha chegado a Hollywood décadas mais cedo, mas Woody Allen e as gerações de humoristas que ele inspirou têm muito a responder quanto a essa tendência.

Alguns dos envolvidos na produção de Plano B, uma maneira não muito divertida mas ainda assim indolor de perder tempo, certamente refletiu sobre questões de vida e amor. Com roteiro de Kate Angelo e direção de Alan Poul, o filme serve essencialmente como veículo para Jennifer Lopez, uma presença forte na tela mas infelizmente dotada de currículo cinematográfico pouco interessante.

A culpa, provavelmente, não cabe à atriz; os papéis românticos para mulheres muitas vezes ficam para as lerdas ou as loiras (Jennifer Aniston e Katherine Heigl), ou para as raras humoristas estabelecidas (Tina Fey). Angelina Jolie domina os papéis mais combativos, ainda que Lopez tenha provado que se sai bem nesse gênero em Irresistível Paixão (1998), thriller de Steven Soderbergh e seu melhor filme.

Plano B é o primeiro filme estrelado por Lopez desde El Cantante (2007), uma cinebiografia sobre o cantor de salsa Hector Lavoe no qual ela trabalhou com o marido, Marc Anthony. Em consequência, o novo filme não é só sobre uma mulher, Zoe, que decide ter um filho sozinha.

Também gira em torno da beleza que Lopez exibe depois de alguns anos fora das telas, período no qual teve gêmeos e, a julgar pelas tomadas de sua barriga musculosa, coxas firmes e traseiro torneado, não demorou a recuperar a forma. Se você acha que estou exagerando, considere que uma cena inteira envolve Zoe lamentando as glórias de suas nádegas, e brandindo uma foto como prova.

Mas estou me adiantando. O filme começa com Zoe recebendo uma inseminação artificial em uma clínica presidida por um médico brincalhão interpretado por Robert Klein. Terminalmente solteira se não solitária em sua Nova York, Zoe é dona de uma loja de produtos para animais, tem um cachorrinho paralítico e conta com dois funcionários muito leais (Eric Christian Olsen e Noureen DeWulf), que em geral se limitam a sorrir e a servir como escada para estrela, mais ou menos ao modo de Eve Arden nos filmes sobre uma mulher forte em busca de homem ainda mais forte estrelados por Joan Crawford.

Zoe também tem uma sábia avó (Linda Lavin), o que vale momentos bonitinhos e sentimentais em uma casa de repouso (velhinhos dizem cada coisa!). Mas, porque seu pai e sua mãe a abandonaram, Zoe sofre de problemas de autoestima. A complicação surge na forma de um intruso sensível, Stan (Alex O'Loughlin), perfeito para a protagonista. Ele faz queijo artesanal de leite de cabra para vender na cidade grande, e leva Zoe para jantar em um paradisíaco jardim na Avenida B (ele tem algo de rural, algo de gentil, algo de rock melódico).

Stan chega a até a dirigir um trator sem camisa (e sem a nuca vermelha de um agricultor), e fala sensatamente sobre a agricultura sustentável durante a corte. A situação é complicada, e se complica ainda mais à medida que a gravidez de Zoe avança e suas emoções e hormônios entram em conflito com seus medos.

Plano B é inócuo e facilmente esquecível, e parece basicamente um seriado de humor estendido para a forma de filme. Funcionará bem na TV, a mídia mais adequada para closes de personagens exibindo emoções ternas. Com seu rosto anguloso e hipnótico, Lopez nasceu para closes ¿ainda que mais bonitos e suntuosos que os oferecidos nesse filme.

É difícil não lamentar que uma estrela como ela não tenha encontrado uma produção mais luxuosa para marcar sua volta ao cinema, um filme que aproveitasse ao máximo seu charme e talento e lhe desse como tarefa algo mais que fazer os espectadores sorrirem (pode ser que consiga) ou se comoverem (idem) diante dos atrativos de uma história sobre pessoas apaixonadas - e, claro, também diante da visão daquele magnífico traseiro.

AMY Traduções

 Alex O'Loughlin e Jennifer Lopez em cena de 'Plano B'
Alex O'Loughlin e Jennifer Lopez em cena de 'Plano B'
Foto: Divulgação
The New York Times
Compartilhar
Publicidade