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Tumulto e medo da polícia: saiba como é a vida de cordeiro

Correspondente do Terra trabalha como cordeiro na estreia de Bell Marques em carreira solo

5 mar 2014
08h05
atualizado às 12h50
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Personagens relegados a pano de fundo dos blocos de Carnaval de Salvador, responsáveis por separar os afortunados foliões que podem desembolsar até R$ 500 por um abadá do restante da multidão, os cordeiros são colocados constantemente em situações de risco. Por onde quer que se ande na capital baiana durante os seis dias da folia, pipocam relatos de violência sofrida por esses trabalhadores, seja por parte dos foliões ou da polícia.

<p>Cordeiros são recrutados em bairros da periferia de Salvador para trabalhar durante o Carnaval</p>
Cordeiros são recrutados em bairros da periferia de Salvador para trabalhar durante o Carnaval
Foto: Adilton Venegeroles/ A Tarde / Futura Press

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Ao longo do Carnaval deste ano, cordeiros ganharam destaque nos discursos das estrelas da festa. Daniela Mercury, por exemplo, pediu para que os foliões fossem gentis com os cordeiros, já que eles seriam, em suas palavras, “os anfitriões da cidade”. Bell Marques, em uma de suas últimas apresentações com o Chiclete com Banana, fez uma homenagem a Nenê, cordeiro que acompanhou a banda desde seus primeiros Carnavais.

Foi com o intuito de entender melhor como é a vida nos cordões dos trios elétricos que o Terra acompanhou de perto o trabalho desses profissionais. O bloco escolhido não poderia ser mais emblemático: Vumbora, o último trio a sair no circuito de Barra-Ondina, na primeira apresentação de Bell Marques em sua carreira solo.

Percorremos os primeiros 600 metros do bloco, desde sua partida, no Farol da Barra, até a rua Marquês de Caravelas. O trajeto, apesar de curto, tomou mais de uma hora e meia para ser vencido. Tempo suficiente para sentir na pele uma amostra do drama diário desses profissionais da folia.

“Ele quer ser cordeiro, acredita?”
O primeiro desafio da noite foi convencer os coordenadores da equipe de que eu pretendia trabalhar como cordeiro, de graça, pela simples curiosidade jornalística. Fui levado até um contêiner alojado no gramado ao pé do Farol da Barra, com pouca iluminação, onde dezenas de pessoas estavam espremidas, vestindo coletes verdes, laranjas e rosas. Eventualmente, a coordenadora do grupo, Suzi, é apresentada.

“Ele quer ser cordeiro, acredita?”, debocha um dos homens recrutados pela empresa responsável pelos cordões do bloco. “Ah, é? Boa sorte então, amigo”, respondeu Suzi, que tratou de me deixar sob a responsabilidade de um auditor de sua confiança, Josenilson Araujo Bezerra, o Nilson, em uma “área mais tranquila”, segundo ela. “Nas laterais, perto do trio, é mais violento. É melhor você ficar mais pra frente. Mas cola com o Nilson que está tudo tranquilo”, afirmou.

Um estranho no ninho
Uma vez garantida a participação, recebo o kit oferecido a todos os trabalhadores: um colete, uma luva (apenas para a mão direita) e protetores auditivos. Caso o bloco saísse de dia, teria direito também a protetor solar.

Devidamente uniformizado, porém, o primeiro estranhamento foi evidente. Entre dezenas de trabalhadores, eu era o único homem branco. Segundo Suzi, os cordeiros são recrutados em bairros da periferia de Salvador, na faixa etária entre 18 e 60 anos, e são submetidos a um cadastro prévio, em que são exigidos RG, CPF e atestado de antecedentes criminais. “Nós não contratamos quem já teve passagem pela polícia”, garante a coordenadora.

Para cada dia de trabalho, cordeiros recebem R$ 45, mais transporte, e um lanche que consiste em duas garrafas d’água, um suco, um sanduíche, um biscoito e uma barra de cereal. Nesta terça-feira, porém, os cordeiros trabalharam (e receberam) em dobro, já que estiveram presentes, à tarde, na despedida de Bell Marques do Chiclete com Banana, no Circuito Campo Grande, e, à noite, acompanharam o bloco do cantor em sua primeira aparição na carreira solo. Na próxima sexta-feira, quando será feito o pagamento, o cordeiro que tiver trabalhado em todos os dias do Carnaval receberá cerca de R$ 315.

Tensão constante e medo da polícia

Devido à expectativa gerada pela primeira apresentação de Bell Marques fora do Chiclete com Banana, o bloco ingressou na avenida Oceânica, na região da Barra, com quase três horas de atraso, às 23h30. Na companhia de Nilson, os primeiros metros são tranquilos o suficiente para que o auditor pudesse passar as instruções básicas da função.

“Fique com a mão na corda e atento a tudo o que acontece em volta. Quando alguém identificado com o bloco pede para entrar ou sair, você levanta a corda. Agora, quando você sentir a corda vibrar porque um colega está batendo nela, puxe e se afaste, porque está vindo a polícia.”

A apreensão com a presença policial é justificada. “Tome bastante cuidado com a polícia. Se alguém bater na corda, deixe afastado para eles poderem passar. E deixe espaço também para que outras pessoas possam passar entre os policiais e o cordão, porque pode dar briga. E não deixe também a mão muito exposta quando a polícia passa, porque tem policiais que batem no que estiver na frente”, explica Nilson.

Pergunto para um colega a meu lado do que ele tem mais medo: do folião brigão ou da polícia? “Da polícia, com certeza. Eles não querem saber, se você encostar neles enquanto eles passam, eles já descem o pau.”

O primeiro tumulto
Mal o bloco avança em direção a Ondina e nos deparamos com o “batismo de fogo”. A esquina das avenidas Sete de Setembro e Oceânica, em frente ao Farol da Barra, é considerada pelos cordeiros um dos pontos mais críticos do trajeto, já que o afunilamento do público é inevitável quando o trio faz a curva. Empolgados com a apresentação dos músicos, foliões dão início a um empurra-empurra para avançar os cordões.

“Levanta esse cordão, pelo amor de Deus, eu preciso sair se não eu vou morrer aqui”, grita uma foliona, desesperada ao ser espremida contra o cordão do bloco. Uma mulher a seu lado tropeça e por pouco não cai no chão, onde correria o risco de ser pisoteada pela massa. “Gente, vocês precisam aumentar essa corda. Tem muita gente aí, não dá pra se mexer”, reclamou um homem do lado de fora do cordão, vestido com o abadá do bloco. Cercado pelas mais de 4 mil pessoas que acompanhavam o bloco, ficava cada vez mais difícil manter a mão agarrada ao cordão. “Está vendo? E isso é só o começo”, brincou Nilson diante de minha dificuldade para acompanhar o ritmo dos colegas.

<p>Cordeiros recebem R$ 45 para cada dia de trabalhado no Carnaval de Salvador</p>
Cordeiros recebem R$ 45 para cada dia de trabalhado no Carnaval de Salvador
Foto: Eduardo Martins/A Tarde / Futura Press

Mais à frente, a vibração da corda denuncia a aproximação da polícia. A centímetros dos cordeiros, dois foliões são rendidos por PMs, que abrem caminho entre a multidão na base de empurrões e “cutucões gentis” com os cassetetes.

Prisões e brigas
Cordeiro há cinco anos, Jackson da Silva Lima veio de São Paulo para Salvador acompanhando a ex-mulher, com quem teve uma filha. Atualmente separado, aguarda na Justiça a possibilidade de ter a guarda compartilhada. “Mas é muito difícil, tá uma briga feia”, conta.

O dinheiro garantido com o trabalho nos Carnavais ajuda, mas é insuficiente. “É um bico. É um trabalho em que você até pode se divertir, mas está exposto a muito problema, e o dinheiro é pouco.” Já em seu primeiro Carnaval, relata, teve problemas com a polícia. “Eu estava trabalhando tranquilo quando um policial me puxou pra fora do bloco. Eu apanhei, fui algemado e levado para um posto da polícia. Lá eles puxaram a minha ficha e viram que eu estava limpo, que eu nunca fiz nada, e me liberaram. Mas no momento em que você fica lá você fica pensando um monte de besteira, é um pavor só”, recorda-se.

Ao ser questionado sobre outros episódios de violência sofridos ou testemunhados, Jackson ergue os lábios superiores, deixando em evidência um corte recém-cicatrizado. “No último sábado, eu estava acompanhando o bloco e me envolvi numa briga com cinco cordeiros. Um deles tinha deixado uma latinha de cerveja no chão, e eu não sabia que estava cheia e chutei. Só na hora que chutei que eu vi que ela estava cheia. Ele se virou pra mim e me xingou, eu xinguei ele e a gente começou a brigar. Eu derrubei ele, só que aí vieram outros quatro pra cima de mim e um deles me deu um soco na boca. Levei pontos, ficou tudo aberto. Só agora que melhorou”, disse.

Diante do risco, o bom humor
Mesmo com o risco de agressões, com a tensão constante em relação à polícia e aos foliões, reina entre os cordeiros um sentimento de companheirismo. “Eu gosto de trabalhar em Carnaval porque dá pra curtir. Eu sou fã do Chiclete, fã do Bell. Aí você vê uma mulherada, pega um movimento. O pessoal já faz uma brincadeira legal”, comentou um colega.

Não demora muito para que as piadas recaiam sobre o “penetra”. “Jornalista e quer saber como é um dia na nossa vida? Puxa, irmão, eu queria muito passar um dia como você, trabalhando no ar-condicionado.”

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Fonte: Terra
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