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Carnaval de rua de São Paulo cresce e explode na capital

Até 2013, o paulistano nem pensava em ficar na cidade para curtir a folia; hoje o “hype” é tanto que já se fala em “inflação dos blocos”

23 fev 2020
07h00
atualizado às 09h26
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Nem parece que faz tão pouco tempo assim, mas há sete carnavais, nessa mesma época, cerca de 30 blocos oficiais e independentes davam os primeiros passos para transformar o Carnaval de rua de São Paulo no que é hoje: um dos maiores do Brasil. Concentrados majoritariamente nos bairros da região central da capital paulista, esses grupos começavam a endossar uma festa tímida, que já acontecia na cidade desde os anos 1920, mas ainda era pouco divulgada e autônoma.

Foliões se divertem acompanhando o Bloco Casa Comigo, na Avenida Ipiranga, no centro de São Paulo
Foliões se divertem acompanhando o Bloco Casa Comigo, na Avenida Ipiranga, no centro de São Paulo
Foto: HÉLVIO ROMERO / Estadão Conteúdo

De 2013 para cá, é visível que o paulistano foi sendo conquistado, ano a ano, pela folia nas ruas, gratuita, e livre das regras das festas fechadas de clubes e do sambódromo. Os números ajudam a ilustrar o movimento crescente: em 2020 serão 644 blocos autorizados pela Prefeitura Municipal (180 a mais do que no ano passado) a realizarem 678 desfiles (um bloco pode desfilar mais de uma vez), tornando este o maior Carnaval que a cidade já presenciou. A expectativa é de que o evento atraia 15 milhões de pessoas.

“O paulistano era muito carente de eventos na rua e de Carnaval. Nesse sentido, a gente se ‘descolava’ do que era o Brasil. Parecia que o paulistano não era brasileiro”, analisa um dos fundadores do Bloco Casa Comigo, Raul Silêncio. “Mas de uns anos para cá, dá para ver que as pessoas estão deixando de viajar e curtindo o próprio Carnaval”.

Essa mudança no comportamento do folião acabou chamando a atenção das autoridades e órgãos públicos. Até o início da gestão de Fernando Haddad (PT) na prefeitura, que começou em 2013, o Carnaval de rua era organizado pela Associação das Bandas Carnavalescas de São Paulo (Abasp) e Associação das Bandas, Blocos e Cordões Carnavalescos do Município de São Paulo (ABBC), fazendo do processo de colocar um bloco na rua muito mais burocrático do que é hoje.

Confete no asfalto: como o Carnaval de rua explodiu em SP

“Só depois da gestão Haddad que o Carnaval de rua começa, não só a ser debatido, como também incentivado”, aponta Thiago França, criador da Espetacular Charanga do França. Atualmente, para atender a demanda do evento, foi criada, dentro da Prefeitura de São Paulo, uma comissão intersecretarial que reúne diversas secretarias municipais para cuidar de assuntos como segurança pública, transporte, banheiros químicos e outras necessidades exigidas para a realização.

Com o apoio da prefeitura, vem também a participação da iniciativa privada, que encontrou na festa uma oportunidade de visibilidade e lucro. “Tem também um pouco da percepção de que São Paulo consegue proporcionar estrutura e essa parte comercial aos blocos. Tanto que blocos grandes, de outros Estados, começaram a vir para cá”, pontua Alê Natacci, presidente do Bloco Acadêmicos do Baixo Augusta.

Exemplo disso é a vinda de “megablocos” cariocas, como Sargento Pimenta, Orquestra Voadora, Monobloco e Bangalafumenga, além da presença de celebridades baianas, como Daniela Mercury, Bell Marques, Banda Eva e BaianaSystem, do pernambucano Alceu Valença e também da paraibana Elba Ramalho que já se consideram “consolidados” na folia paulistana. Esse ano, a cidade ainda conta com o desfile do Galo da Madrugada, um dos blocos mais tradicionais de Recife, estreando em São Paulo.

“Efeito paleta mexicana”

O Bloco Acadêmicos do Baixo Augusta já desfilou no pré-Carnaval de São Paulo de 2020 e levou cerca de 1 milhão de foliões para as ruas
O Bloco Acadêmicos do Baixo Augusta já desfilou no pré-Carnaval de São Paulo de 2020 e levou cerca de 1 milhão de foliões para as ruas
Foto: BRUNO ROCHA / Estadão Conteúdo

Mas não são só os megablocos que se empolgaram com as possibilidades que o Carnaval paulista tem a oferecer. Blocos menores passam a surgir a cada ano, fazendo com que há três a cidade bata os números do Rio de Janeiro.

“No momento está rolando aquele efeito paleta mexicana nos blocos de Carnaval”, alerta França, citando o número exorbitante de inscrições recebidas pela prefeitura para o desfile de 2020. Em outubro de 2019, o governo divulgou que 865 blocos queriam participar da festa, o que resultaria em 960 desfiles. Na prática, seriam 401 blocos a mais do que 2019, com 470 apresentações extras. “Fora a galera de bairro que sai e não se inscreve, mas está contemplada dentro da Constituição”, completa.

Para o músico, o crescimento tem relação com a visão de oportunidade de lucro que o Carnaval tende a passar. “Um monte de gente achava que era um festival de dinheiro caindo do céu. Achava que era só se inscrever e a prefeitura ia dar dinheiro, que tinha fila de marca querendo patrocinar e não é bem assim.”

Em fevereiro, o discurso da prefeitura sobre o número de blocos na rua havia mudado: com uma desistência de 26% em relação às inscrições, 221 blocos deixaram de sair nas ruas tendo como motivo principal a falta de verba. “Por isso eu acho que essa inflação do Carnaval de São Paulo vai passar e vai passar rápido”, prevê França.

Ainda falta estrutura

Mesmo com as desistências, a cidade nunca teve um número de blocos tão alto quanto terá neste ano. Para comportar a festa, a prefeitura diz que terá, durante todo o Carnaval, um esquema especial de transporte público para a população, além de bloqueio de ruas, desvios e monitoramento para garantir a fluidez do trânsito, circulação de veículos, acesso de moradores e foliões. 

Contudo, nos primeiros dias oficiais da festa, iniciada em 15 e 16 de fevereiro, já se pôde notar problemas de segurança. Mais de 400 pessoas, segundo balanço feito pela Secretaria da Segurança Pública, foram presas.

O fim de semana ainda contou com diversos relatos de roubos de celular, arrastões, incluindo um episódio onde cinco pessoas foram baleadas por um policial civil que estava de folga e reagiu a uma tentativa de assalto durante a bloco Chá da Alice do domingo (16), na Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, Zona Sul.

Líderes de blocos chegara a se manifestar após as ocorrências em uma carta aberta para o comando da Polícia Militar e Prefeitura de São Paulo pedindo por mais segurança nos próximos seis dias de folia “diante de um evento de tamanha relevância cultural e econômica na cidade”.

O perigo atrapalha a festa de todos. “Já cheguei a parar a festa no meio para avisar que estavam roubando, pedir para pararem de brigar e saírem de cima de um monumento ou poste. Espero que a polícia esteja preparada para agir e garantir a segurança de todos, porque um arrastão no meio de um bloco que leva mais de 200 mil pessoas para as ruas pode ser uma tragédia”, conta Fernando Magrin, idealizador do Bloco MinhoQueens. “Nós saímos nas ruas para festejar e espero que seja assim”, finaliza.

Para saber mais sobre o processo de evolução do Carnaval de rua na capital paulista, que hoje proporciona uma das maiores festas do País, assista ao documentário “Confete no asfalto: como o Carnaval de rua explodiu em São Paulo”.

 

Fonte: Equipe portal
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