Berlinale: Brasil tem filme de animação exibido pela primeira vez no Festival de Cinema de Berlim
Em uma edição marcada pela forte presença brasileira, a 76ª Berlinale contou, pela primeira vez, com um longa de animação produzido no Brasil. "Papaya", dirigido por Priscilla Kellen, narra a história de uma semente que sonha em voar. A produção aborda, com delicadeza, temas ligados à ecologia e aos impactos da industrialização.
Silvano Mendes, enviado especial a Berlim
Reconhecida por sua liberdade curatorial, a Berlinale é igualmente conhecida por suas seções Generation e Generation KPlus, voltadas sobretudo a obras sobre e para um público mais jovem. Em algumas sessões, as salas se enchem de crianças, e a dimensão pedagógica se faz presente em boa parte da programação, pensada para formar os espectadores de amanhã.
Foi justamente na seção Generation KPlus que a produção brasileira "Papaya" foi exibida pela primeira vez, no domingo (15). "Foi uma grande surpresa", disse a diretora Priscilla Kellen sobre a seleção do projeto pelo evento alemão. Ela explica que o Festival de Cinema de Berlim não estava em seu radar, já que, historicamente, "a Berlinale não costuma selecionar longas de animação".
"É uma super oportunidade porque é um público bem cinéfilo e a curadoria do festival escolhe filmes com uma cinematografia que respeita o senso crítico e o olhar poético também das crianças", avalia.
"Papaya" acompanha uma pequena semente de mamão que sonha em voar e precisa continuar em movimento para não se enraizar. Sua curiosidade e um desejo incontrolável de liberdade a tornam diferente das outras sementes e, ao longo da jornada, a protagonista descobre a força transformadora das raízes, mas também os desafios impostos pelo mundo contemporâneo.
A semente representa um crescimento orgânico guiado pelas leis da natureza. Em contraste, o que ela presencia ao ser arrastada para uma fábrica funciona como um alerta sobre produtos moldados pela intervenção humana e por processos químicos - um retrato que chama atenção para a crescente industrialização das plantas.
Viés ecológico
"Não foi intencional, a princípio pelo menos, trazer esse viés ecológico ou político de uma conscientização ambiental", aponta a diretora. "Ao mesmo tempo, para mim era uma coisa natural, uma vez que eu ia falar sobre a vida de uma semente. E as crianças percebem o mundo e o planeta onde a gente está vivendo e estão preocupadas com essas questões também", explica Priscilla.
Com suas cores vibrantes, a diretora define o estilo do filme como um "tropicalismo pós-apocalíptico". Ritmado por composições de Talita Del Collado, o longa conta com Alê Abreu - diretor de "O Menino e o Mundo", indicado ao Oscar em 2016 - entre seus produtores.
Além do reconhecimento obtido no Festival de Berlim, o filme amplia sua circulação internacional ao ser representado pela empresa belga Best Friend Forever. Em 2026, "Papaya" chegará aos cinemas franceses pela Gebeka Films, distribuidora responsável por clássicos e grandes sucessos da animação mundial, como "Kirikou e a Feiticeira" (Michel Ocelot), "Meu Amigo Totoro" (Hayao Miyazaki) e "Minha Vida de Abobrinha" (Claude Barras). No Brasil, a obra será distribuída pela Cajuína Audiovisual.