Atriz brasileira Grace Passô estreia primeiro longa como diretora no Festival de Cinema de Berlim
A atriz e diretora mineira Grace Passô apresentou na 76ª edição do Festival de Cinema de Berlim o filme "Nosso Segredo", seu primeiro longa-metragem. Na produção, ela mergulha na história de uma família que tenta, à sua maneira, enfrentar a perda de um de seus membros. Entre o hiper-realismo e o surrealismo, o filme também representa a nova onda do cinema nacional, marcada pela busca por maior representatividade nas telas.
Silvano Mendes, enviado especial a Berlim
Esta não é a primeira participação de Grace Passô na Berlinale. Em 2020, ela apresentou, ao lado de Ricardo Alves Jr., "Vaga Carne", um média-metragem exibido na seção Forum Expanded. Agora, porém, a atriz chega ao festival com seu primeiro longa - e não esconde a emoção.
"Tem um super gosto especial, porque é o meu primeiro longa dirigindo. Eu sou atriz, então eu trabalho em muitos filmes. Mas essa possibilidade de criar e dirigir um filme, um longa, era um sonho", disse a diretora à RFI em Berlim, um dia após a estreia. "Eu achei muito bom estrear aqui justamente por isso, por já ter estado aqui. É um evento muito importante no circuito de festivais de cinema do mundo. Então me dá uma medida do que eu construí ao longo desses anos, desde que eu vim aqui com outro filme", avalia.
Filmado em Belo Horizonte, "Nosso Segredo" acompanha uma família negra que tenta reconstruir sua rotina após uma perda recente. Enquanto cada integrante vive o luto a seu modo, o filho caçula guarda um segredo capaz de provocar transformações profundas na dinâmica familiar. O elenco reúne Robert Frank, Ju Colombo, Efraim Santos, Jéssica Gaspar, Flip, Marisa Revert e Juan Queiroz, além das participações especiais de Mateus Aleluia, Tássia Reis, Gláucia Vandeveld e Nanego Lira.
"Acho que é um momento muito importante que a gente vive. Um momento em que nós, pessoas negras, temos uma dinâmica muito maior em termos de apropriação da nossa própria história", comenta a atriz e diretora sobre a questão da visibilidade nas telas. Segundo ela, o atual momento do cinema brasileiro - no qual parcelas da população antes excluídas ou marginalizadas passam a se ver representadas - está diretamente ligado a políticas culturais que estimulam novos tipos de produção. "Isso tem a ver com a ideia de lidar com a arte como meio simbólico importante numa sociedade", resume.
"Nosso Segredo" integra a lista das nove produções brasileiras presentes nesta edição da Berlinale, entre elas outro filme mineiro, "Se eu fosse vivo… vivia", de André Novais Oliveira. O país também participa indiretamente com dois filmes dirigidos por brasileiros na competição principal: "Rosebush Pruning", coprodução de Itália, Alemanha, Espanha e Reino Unido, rodada em inglês e dirigida por Karim Aïnouz; e o norte-americano "Josephine", de Beth de Araújo, cineasta filha de pai brasileiro e mãe sino-americana. Outro título com participação brasileira na seleção é "Narciso", do diretor paraguaio Marcelo Martinessi, coprodução que reúne sete países, entre eles o Brasil.