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Livro de Monteiro Lobato sofre alterações no centenário

Bisneta do autor relança 'A Menina do Narizinho Arrebitado' com alterações textuais que rompem com o racismo, mas mantém a essência da obra

4 dez 2020
09h00
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O primeiro livro infantil de Monteiro LobatoA Menina do Narizinho Arrebitado, comemora seu centenário este ano. Como parte das comemorações, a obra ganhou nova edição em português com atualizações do ponto de vista social e novas ilustrações, assinadas pelo artista pernambucano Rafael Sam. O texto também ganhará versão em inglês ainda este ano, ambos pela editora Underline Publishing em parceria com a Monteiro Lobato Cultural Projects.

Além dos novos lançamentos da obra, será realizado o evento online 100 anos de Narizinho entre os dias 4 e 6 de dezembro. A celebração contará com conteúdos exclusivos, mesas de debate, podcasts, lives e exposições de arte.  

Ilustração da obra de Monteiro Lobato mostra que há mudanças sociais nas forma como Tia Nastácia é retratada
Ilustração da obra de Monteiro Lobato mostra que há mudanças sociais nas forma como Tia Nastácia é retratada
Foto: Divulgação

Para falar sobre as mudanças do livro e os valores deixados pelo escritor ao longo de mais de 100 anos, o Terra conversou com Cleo Monteiro Lobato. Bisneta do autor e residente nos Estados Unidos há mais de 20 anos, ela entendeu que era a hora de a obra romper fronteiras e ser traduzida para outro idioma.

Cleo Monteiro Lobato: bisneta do escritor brasileiro é responsável pela tradução do livro 'A Menina do Narizinho Arrebitado' para o inglês
Cleo Monteiro Lobato: bisneta do escritor brasileiro é responsável pela tradução do livro 'A Menina do Narizinho Arrebitado' para o inglês
Foto: Divulgação

Terra: Quando surgiu a ideia de levar Monteiro Lobato para outro idioma?
Cleo: Afamília inteira, o parceiro comercial, todo mundo pedia para eu traduzir para o inglês. Eu já havia feito outras tentativas. Quando o meu filho, que está com 17, tinha 10 anos eu fiz um teste na escola dele e levei a obra meio traduzida para ler com as crianças. Mas eu não estava pronta. Eu não tinha amadurecido o suficiente para fazer aquela tradução. Apesar de que eu falo inglês desde o meu jardim da infância. Mas depois da evolução social dos Estados Unidos, que a gente teve um presidente negro, isso causou em mim uma evolução e o meu amadurecimento. Aí eu achei que era a hora.

Você acha que o livro vai ser bem recebido pelos americanos?
O meu público são os brasileiros. São pessoas que viram a obra na televisão, viram Lobato, viam o sítio e agora estão tentando criar os filhos bilíngue e com costumes brasileiros. O Estados Unidos tem um mito de que é um caldeirão, mas a realidade é que é o país dos guetos. Todo mundo separadinho. É muito preconceituoso. É só mudar para cá que você descobre isso. Como eles não olham para fora do país, eles não sabem nada a respeito do que não é os Estados Unidos. É uma generalização enorme, mas é tristemente verdadeira. Com essas experiências recentes, descobri, através do Instagram, que esse o meu público é o que quer passar para os filhos o que é o Brasil, o que é o biscoito de polvilho, o que é a jabuticaba. Dá para sentir orgulho de ser brasileiro. Tanto que tem gente no Brasil querendo o livro em inglês, como tem gente nos EUA querendo em português. Isso vai ajudar na educação e no uso dos idiomas para a aprendizagem. 

Como você acha que a obra será recebida pelas escolas?
Sinceramente, eu não sei. Eu foquei nos pais. Quando eu era criança, eu queria livros com ilustrações grandes e coloridas. Eu fiz do jeito que eu queria quando eu era criança. Então temos um livro que é pequeno e leve, dá para o pai ler para a criança. E Eu tirei todas as expressões que 2020 pedia. A Tia Nastácia tem nome. Ela não precisa mais ser identificada como "a negra". Quando cheguei ao ilustrador Rafael San, disse que a Tia Nastácia não podia estar de chinelo e um paninho na cabeça, por exemplo.

Ilustração da obra de Monteiro Lobato é atualizada socialmente
Ilustração da obra de Monteiro Lobato é atualizada socialmente
Foto: Divulgação

As obras então, ao seu ver, precisam ser adaptadas?
Em algumas situações ou impressões, eu pessoalmente usaria a versão original, com notas de rodapé, prefácio e direcionaria a leitura a crianças mais velhas um pouco. Quarta-série (ou quinto ano) talvez. Usando Monteiro Lobato para discutir melhor a escravidão no Brasil, racismo estrural, o que é diversidade. Essas mudanças eu escrevi para criança pequena ler. Na tradução, a gente fez algumas adaptações, mas se a gente mexe demais a gente muda muito quem é Lobato. Porque tem uma essência e é como se Lobato estivesse falando por mim, dentro. Então eu mantive 98,6% do original. Eu mantive algumas expressões como 'salva de prata' e outras completamente em desuso. Nesses casos, a gente optou por definição. Eu só tirei as expressões de cunho preconceituoso em referência a Tia Anastácia. Para mim, a Tia Anastácia era querida, tinha sabedoria popular, ela era a pessoa que ajudou a Dona Benta a criar a Narizinho. Ela tem uma importância afetiva tão grande! Mas hoje em dia você não diz 'a negra deu risada', mas: 'Tia Nastácia deu risada'. Cada vez em que ele usa o adjetivo, eu uso o nome dela. E na ilustração também mexemos. Porque essa é a imagem que vai ficar na cabeça. O objetivo de tudo isso é dizer que Lobato não criou pessoas racistas. Ele criou pessoas liberais, com capacidade de autoanálise e crescimento. E é essa a minha intenção. Mas o que as expressões racistas nos livros revelam? O racismo estrutural do Brasil e dos brasileiros. O que eu fiz, honestamente, trazer pequenas modificações em frases. Se você for contar é minúsculo. Mas é onde eu estou colocando o dedo na ferida. 

A chamada 'cultura do cancelamento' é bastante criticada por não dar espaço para o diálogo. E há quem tenha cancelado Monteiro Lobato de vez. O que você pensa a respeito do tema?
A cultura do cancelamento é novidade para mim. É um negócio de hoje, da internet. Eu sou de 1959. Na minha época era carta, televisão e e-mail depois. Se você teve uma formação de leitor, que lê livros, herda valores lobatianos como um dos que eu herdei e aprendi, vai saber: a ignorância é a mãe de todos os males. E Monteiro Lobato era polêmico e ele crescia através de discussões. Na minha família, sempre se debateu muito. Eu tenho enorme prazer em debater. Na minha tenda, na minha casa, cabem todas as opiniões. A cultura do cancelamento não traz evolução. A discussão não evolui e você não evolui. 

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Fonte: Equipe portal
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