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O Agente Secreto (Crítica)

Descobrir e resgatar nossa História real, pelo ponto de vista de quem foi oprimido pelos poderosos, pelo olhar da classe trabalhadora que sangrou e morreu na luta por uma sociedade mais justa, é fundamental para entendermos quem somos e o que podemos fazer para transformar nossa sociedade

25 jan 2026 - 08h40
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Por Pablo Rodrigues*

Foto: CinemaScopio/Divulgação / Porto Alegre 24 horas

Nos minutos iniciais de O AGENTE SECRETO, novo filme do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho (BACURAU, AQUARIUS, O SOM AO REDOR), vemos o protagonista Marcelo (Wagner Moura) parar seu carro em um posto de gasolina de beira de estrada. Contudo, um detalhe bizarro chama sua atenção: um cadáver deitado no chão, coberto por papelões, a poucos metros de seu carro. O funcionário do lugar mostra-se indiferente ao fato e segue trabalhando normalmente, bem como os policiais que chegam ao local logo em seguida, os quais vieram não por conta do corpo, mas por uma simples ronda e também seguem sem demonstrar qualquer preocupação com o homem morto estendido no chão.

Essa ótima cena de abertura acaba sendo uma síntese do que veremos ao longo de todo o filme, ou seja, uma trama que tem como pano de fundo um contexto histórico onde o absurdo é banalizado e a violência naturalizada. Este contexto é a ditadura empresarial-militar iniciada em 1964. É nesse cenário, especificamente em 1977, que O AGENTE SECRETO apresenta a história de Marcelo, um homem misterioso que está retornando ao Recife em pleno período de Carnaval, após anos vivendo em São Paulo para fugir de seu passado violento. No entanto, ao retornar para sua cidade de origem, percebe que os perigos dos quais buscava ficar longe ainda o perseguem.

Em O AGENTE SECRETO, mais do que construir um thriller político repleto de suspense e perseguição (elementos típicos do gênero), o que Kleber faz é transformar o contexto histórico no qual a trama se passa em um personagem fundamental para sua narrativa. Nesse sentido, o trabalho de reconstituição de época do filme é simplesmente brilhante, fazendo o público se sentir voltando no tempo até a Recife de 1977. Isso se deve não apenas pelo excelente design de produção de Thales Junqueira, ou os figurinos impecáveis de Rita Azevedo, mas também pela forma como o diretor consegue trazer para a tela a atmosfera daquele período. Um cenário de extremos, no qual as forças da ditadura não se fazem presentes diretamente na trama, mas sua presença é sempre sentida pelas personagens e pelo público, pois o absurdo e a violência são parte do cotidiano daquelas pessoas, a exemplo da celebração do aumento no número de mortos no Carnaval por parte da polícia, dos tubarões que engolem vítimas do Estado, gatos com dois focinhos ou a perna cabeluda que aterroriza uma parcela específica da população da cidade. E ainda que essas situações pareçam soltas no roteiro, por não necessariamente fazerem a trama principal avançar, porém, ao vermos o conjunto geral da obra, percebemos que elas servem justamente para enriquecer a construção de universo proposta pelo longa.

Desta forma, ao focar nessa atmosfera, o filme apresenta o contexto da ditadura de uma forma diferente do que costuma ser visto nas demais obras que abordam o mesmo período histórico, transformando-o numa espécie de mal onipresente, cuja sombra está sempre pairando sobre as personagens. Um cenário político quase surrealista. Não é à toa que Kleber utiliza elementos do cinema de terror dos anos 1970 para reforçar essa característica, referenciando filmes como HALLOWEEN: A NOITE DO TERROR (1978), de John Carpenter e TUBARÃO (1976), de Steven Spielberg.

Outro diferencial com relação à representação da ditadura é seu caráter empresarial, por vezes deixado de lado, até mesmo no cinema brasileiro, mas que hoje já sabemos o quão importante foram as grandes empresas privadas para a manutenção do regime militar durante seus 21 anos de ditadura no Brasil. Em O AGENTE SECRETO, esse é um aspecto fundamental da narrativa, explorado como poucas obras cinematográficas fizeram. Além de trazer esse tema para a realidade da região Nordeste do país, historicamente menosprezada e desvalorizada pelo eixo sul-sudeste do país, outra temática importante no cinema do Kleber.

Em meio a tudo isso, o roteiro nos apresenta uma gama de personagens maravilhosos. A começar pelo protagonista Marcelo, interpretado brilhantemente por Wagner Moura, o qual mais uma vez demonstra por que é um dos grandes atores de sua geração. Sua atuação é contida, com expressões sempre calculadas, como se estivesse sendo vigiado a todo instante, sem expor demais o que realmente está sentindo. E o veterano ator consegue expressar isso de forma magnífica.

Já no elenco de coadjuvantes, todos estão ótimos, até mesmo os que possuem menor tempo de tela, ainda assim conseguem ser marcantes e terem função importante na trama. A exemplo de Dona Sebastiana, vivida pela sensacional Tânia Maria, em seu primeiro papel de destaque nos cinemas, no auge de seus 78 anos de idade. A atriz rouba a cena sempre que aparece, esbanjando carisma no papel da dona de uma casa que acolhe "refugiados", pessoas que, por alguma razão pessoal ou política, estão sendo perseguidas ou marginalizadas.

Destaque também para Robério Diógenes como o delegado Euclides, um personagem que é ao mesmo tempo cômico e perigoso. Além de outros nomes como Maria Fernanda Cândido, Hermila Guedes, o maravilhoso Carlos Francisco como Seu Alexandre (inspirado num personagem real que era projetor de cinema em Recife) e Alice Carvalho que, mesmo com pouco tempo de tela, traz uma atuação marcante e arrebatadora.

Contudo, O AGENTE SECRETO é também uma espécie de síntese da carreira de seu diretor, já que as principais referências que o mesmo utiliza aqui é a sua própria filmografia. Desde seus curtas como VINIL VERDE (2004), documentários como RETRATOS FANTASMAS (2023) (um dos mais referenciados aqui), toda a obra de Kleber é usada como para construção da narrativa desse novo filme.

Entretanto, ao escolher situar sua obra na década de 1970, em meio ao período de ditadura que nosso país experenciou, Kleber não faz isso apenas pelo prazer de fazer um filme de época. Na verdade, a escolha de falar sobre este passado tão significativo para a história brasileira é para falar também do Brasil de hoje, pois toda obra de arte é um reflexo de seu contexto histórico. Com o cinema não é diferente. Quando um filme escolhe contar a sua história no passado ou no futuro, ele não está falando somente sobre esses tempos, mas também sobre o nosso tempo, com o olhar contemporâneo de seus artistas no contexto social e político no qual a obra é produzida.

Assim, o Brasil de 1977 retratado em O AGENTE SECRETO, é um espelho do nosso Brasil contemporâneo, que vive um período histórico onde, assim como no passado, as ameaças de forças autoritárias pairam novamente sobre nós (o crescimento da extrema direita no Brasil e no mundo), a violência é cada vez mais naturalizada, se tornando sensacionalismo midiático nos programas policiais da TV e nas redes sociais, o absurdo vem virando regra, a ponto de termos que reafirmar o óbvio (a Terra não é plana, não existe ideologia de gênero, houve ditadura no Brasil SIM). Em outras palavras, ainda precisamos estar alertas como o protagonista Marcelo, pois o espectro fascista ainda está à espreita.

No entanto, Kleber nos traz também uma alternativa de resistência, a saber, o resgate de nossa memória histórica, tema recorrente em sua filmografia e que em O AGENTE SECRETO ganha camadas ainda mais profundas. Nossas memórias enquanto povo são fundamentais para a constituição da identidade de nosso país, por essa razão que uma das principais ferramentas de dominação ideológica da extrema direita é o revisionismo deturpado da História. É por isso que o diretor, que também escreveu o filme, toma a decisão de utilizar duas linhas temporais na narrativa, a que se passe em 1977 e outra no tempo presente. E ainda que esta segunda utilize de uma exposição desnecessariamente exagerada nos diálogos, ela amarra muito bem a proposta temática da obra.

Descobrir e resgatar nossa História real, pelo ponto de vista de quem foi oprimido pelos poderosos, pelo olhar da classe trabalhadora que sangrou e morreu na luta por uma sociedade mais justa, é fundamental para entendermos quem somos e o que podemos fazer para transformar nossa sociedade. E a arte pode ser uma importante ferramenta no resgate de nossas memórias históricas. Nesse sentido, é muito bom ver um cineasta brasileiro e nordestino como Kleber Mendonça Filho fazendo um cinema que se mostra cada dia mais pertinente para esse objetivo.

*Psicólogo, crítico de cinema, criador do canal Cinema em Movimento e colaborador do portal Tem Que Ver.

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