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Dia de Preto Velho, como surgiu essa figura cultuada nos terreiros de Umbanda

Entidade tem uma história ligada ao perdão e aconselhamento, que se mistura com a história da formação do povo brasileiro

13 mai 2022 09h53
| atualizado às 10h26
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O dia 13 de maio é marcado não só pelo dia em que foi assinada a abolição da escravatura em 1888, mas também é o dia em que se celebra o Dia do Preto Velho
O dia 13 de maio é marcado não só pelo dia em que foi assinada a abolição da escravatura em 1888, mas também é o dia em que se celebra o Dia do Preto Velho
Foto: Fred_Pinheiro/IStock

Escrever sobre Preto Velho não é uma tarefa simples. Não porque sejam entidades difíceis de compreender. Ao contrário, o complicado é tentar resumir o conhecimento e as tradições de uma religião que quase não tem registros escritos, nem posições hierárquicas fortes, como o catolicismo.

Na Umbanda, religião afrobrasileira que significa "arte de curar", segundo o vocabulário quimbundo, de Angola, os Pretos Velhos são as entidades que melhor sintetizam os princípios e valores. Sacerdotes umbandistas ouvidos pelo Terra usam os termos "conselheiro", "guia", "orientador" e "conciliador" para caracterizar a importância dessas entidades para a religião.

A Mãe de Santo Taiane Macedo, conhecida como Mãe Tai, explica que a figura do Preto Velho guarda uma conhecimento muito duro da realidade da vida na Terra: a escravidão. A tradição umbandista ensina que essas pessoas foram, em sua maioria, negros escravizados; muitos deles trazidos direto da África e que precisaram aprender a viver de outro modo, em outro país, sofrendo os horrores da escravidão.

Mãe Tai, a frente, no Centro Umbanda Míst Oxum Apará, que fica em Salvador, na Bahia
Mãe Tai, a frente, no Centro Umbanda Míst Oxum Apará, que fica em Salvador, na Bahia
Foto: Divulgação/ Instragram: @cumoananet

No primeiro registro que se tem de um médium que incorporou um Preto Velho, por exemplo, as lembranças dessa experiência foram bem nítidas. O espírito desencarnado não quis uma cadeira para sentar. Mãe Tai explica: "Ele pediu um toco, pois na cadeira quem sentava era o senhor".

Apesar de terem encarnado em um período violento, os Pretos Velhos são definidos pelo perdão e caridade. Eles não negam ajuda a quem pedir e têm muito a ensinar. Mãe Tai acrescenta que os Pretos Velhos são espíritos de "alta iluminação".

"O fato deles terem sido escravizados, e mesmo assim estarem hoje aqui trabalhando pra qualquer um, branco ou preto, sem distinção, isso já é de uma humildade de um amor incondicional e muito grande", define Mãe Tai, que reforça: "Não adianta entrar em um terreiro, tomar benção, fazer uma consulta com Preto-Velho e lá fora você ser racista, homofóbico e machista. Isso não cabe dentro da Umbanda".

O sacerdote Pai Rafael Dyá, de Fortaleza, reforça que a benevolência é um ensinamento significativo dos Pretos Velhos.

"Quando a gente cresce em uma família espiritualizada, a gente não paga o mal com mal; a gente só oferece o bem. Então, quando você desencarna, leva essa consciência, não leva a amargura, a tristeza. Foi isso que o Preto Velho fez, não levou o ódio ou a raiva", explica.

O Pai Rafael Dyá tem um terreiro dedicado a entidade
O Pai Rafael Dyá tem um terreiro dedicado a entidade
Foto: Reprodução/ Arquivo Pessoal

Celebrados em 13 de maio

O dia 13 de maio é marcado não só pelo dia em que foi assinada a abolição da escravatura em 1888, mas também é o dia em que se celebra o Dia do Preto Velho. Um caso tem relação com o outro, de fato. Por outro lado, há outras explicações para o motivo da data ser associada à entidade. 

O Pai Rafael Dyá cita a devoção à Nossa Senhora de Fátima, também celebrada em 13 de maio. Segundo ele, quando os negros escravizados chegaram ao Brasil, tiveram que aprender outra religião e passaram a se tornar devotos de Maria, a mãe de Jesus. 

Essa devoção pode ser explicada pela similaridade entre a vida dos escravizados e a história contada pela tradição católica. Nossa Senhora também foi exilada de seu país de origem e foi perseguida.

"O Preto-Velho que eu recebo, Joaquim, é devoto da Imaculada Conceição, por isso meu terreiro tem esse nome", conta Pai Rafael.

Essa mistura da tradição africana, da cultura portuguesa e dos hábitos e crenças brasileiros resultaram na figura do Preto Velho. Pai Rafael resume o Preto Velho como o próprio Brasil.

Por outro lado, o Preto velho é também sabedoria. Na manutenção da tradição de aconselhamento com os antepassados, essa entidade orienta e ajuda seus filhos através de conselhos, orações, benzimentos, banhos e ervas.

Psicólogo da Umbanda

De acordo com Mãe Ely, sacerdotisa baiana da Umbanda, a função de aconselhamento é tão forte que os Pretos Velhos são chamados de "psicólogos da Umbanda". O objetivo é sempre que quem visite o terreiro saia melhor do que entrou. 

Para  Mãe Ely, o Preto Velho é o "psicólogo da Umbanda"
Para Mãe Ely, o Preto Velho é o "psicólogo da Umbanda"
Foto: Reprodução/ Arquivo Pessoal

"É um divino, de cura, que está aqui na terra para orientar os visitantes, direcionar para um caminho de cura", explica.

Mas a conciliação e a melhora individual não são as únicas coisas a agradar os Pretos Velhos. Assim como ocorre com outras entidades, as casas de Umbanda também oferecem rituais e itens para as entidades. No caso dos Pretos Velhos, a tradição manda oferecer mingau de milho, tapioca, bolo de fubá, cuscuz temperado, pipoca, cocada, café e outros alimentos que eram consumidos no período colonial no Brasil. 

 

Fonte: Redação Terra
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