Como cultura machista dos anos 2000 que 'embalou' Russell Brand, agora condenado por estupro
O comportamento que serviu de pano de fundo para o processo contra Brand também ajudou a projetá-lo, escreve Katie Razzall, editora de mídia da BBC.
O comediante britânico Russell Brand foi condenado por estupro e agressão sexual após um julgamento de três semanas. Sua trajetória e ascensão na TV e no cinema foram impulsionadas nos anos 2000 por uma cultura de sexismo casual e misoginia disfarçada de humor ousado. Sob o pretexto de quebrar tabus e respaldado pelo interesse financeiro de emissoras que silenciavam denúncias para proteger a estrela, Brand transformou o comportamento predatório de sua vida real em piadas lucrativas e toleradas.
Aviso: Este artigo contém descrições explícitas de atos sexuais.
Nenhuma celebridade britânica soube navegar pelas mudanças culturais do início do século 21 melhor do que Russell Brand.
Sua trajetória tem sido um longo processo de reformulação da própria imagem.
Ele se transformou, passando de comediante de stand-up provocador a astro de televisão e ator de Hollywood. Tornou-se YouTuber e ativista político, abraçando pautas de esquerda relacionadas à desigualdade na década de 2010; depois, passou a defender teorias da conspiração sobre a Covid-19 e, em 2024, manifestou apoio a Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos. No mesmo ano, foi batizado como cristão nas águas do rio Tâmisa, em Londres.
Agora, ele tem um novo papel a assumir: o de estuprador condenado.
Nesta quinta-feira (5/11), o comediante — cuja reputação foi arruinada — foi considerado culpado de uma acusação de estupro e três acusações de agressão sexual pelo Tribunal da Coroa de Southwark, ao final de um julgamento que durou três semanas.
Diante da possibilidade de uma pena de prisão, fica claro que o comportamento que serviu de pano de fundo para o processo contra Brand é o mesmo que, inicialmente, contribuiu para a sua ascensão.
Brand tornou-se famoso como um libertino sexualmente escandaloso, cujo humor ousado fascinava o público.
Ele cultivava a imagem de um mulherengo insaciável e sem vergonha. Sexo, drogas e excessos eram elementos centrais de seu repertório cômico.
Ao longo da década em que protagonizou esses episódios controversos, Brand lotava casas de espetáculos e teatros com seus shows de stand-up, enquanto emissoras — incluindo a MTV, o Channel 4 e a BBC — disputavam sua presença, oferecendo-lhe vultosas quantias.
Com o cabelo eriçado e calças jeans pretas bem justas, Brand divertia o público em suas apresentações relatando, com detalhes explícitos, suas aventuras sexuais: sexo anal, prostitutas e orgias.
Ele simulava masturbação e atos sexuais no palco. Chegou a dizer que gostava de sexo oral com mulheres — descrevendo, inclusive, como o ato faria com que a maquiagem delas, especificamente o rímel, acabasse borrando —, e encenava tudo isso diante da plateia.
Até mesmo o advogado de defesa de Brand classificou o humor como "um produto de sua época", lembrando ao júri que, naquele período, esse tipo de comédia sexualmente explícita era vista como algo "radical e diferente".
Só depois que muitos enxergariam isso como uma misoginia disfarçada de humor. Mas eram outros tempos.
Uma era que celebrava o sexismo casual
O final da década de 1990 e o início dos anos 2000, na Grã-Bretanha, foram um período que celebrava o sexismo casual e, frequentemente, exaltava celebridades que o propagavam.
Em 1999, a revista FHM projetou uma foto nua da apresentadora de TV escocesa Gail Porter na fachada do Parlamento britânico. Ela só soube do ocorrido ao ver a notícia na televisão e, mais tarde, relatou como o episódio afetou profundamente sua saúde mental.
O que hoje poderia ser classificado como masculinidade tóxica era, muitas vezes, considerado engraçado — visto por alguns como o típico "humor masculino" à moda antiga. Para outros, era algo aceitável, pois acreditavam que tudo não passava de uma ironia.
"Não há dúvida de que ele era um comediante muito talentoso", diz Sarah Ditum, autora de Toxic: Women, Fame and the Noughties. "Havia, na época, um desejo por quebrar tabus."
"Ao olhar para trás, tudo isso parece extremamente ultrapassado. Envelheceu muito mal, e duvido que muitas pessoas queiram defender o repertório de Brand agora, sabendo que aquilo refletia seu comportamento na vida real, e não uma performance irônica."
Mas na época já havia indícios de que seu comportamento extravagante nos palcos não terminava quando o espetáculo acabava — o que ficou mais evidente em sua autobiografia de 2007, My Booky Wook, um sucesso de vendas.
"Sou um sujeito com um bom emprego e um corte de cabelo fantástico, que ganhou um 'bilhete dourado' — tipo o do Willy Wonka — para uma deliciosa fábrica de sexo, tudo por causa da tal fama."
É claro que muitas de suas parceiras sexuais lhe deram consentimento. Como seu advogado afirmou ao júri, "ele se dedicou, por muitos anos, a uma vida altamente promíscua", lembrando aos jurados que "fazer muito sexo é algo totalmente lícito".
My Booky Wook, que liderou a lista de mais vendidos do Sunday Times por sete semanas em 2007 e teve 600 mil exemplares vendidos em capa dura no Reino Unido, começa com o relato de sua internação em uma clínica para tratamento de vício em sexo.
No livro, ele descreve suas idas a clubes de lap dance, a prática frequente de sexo oral em banheiros e a participação em muitos encontros sexuais a três.
A fama e o sucesso lhe trouxeram garotas
"As regras mudam quando você é famoso. Nesse caso, dois costuma ser melhor do que nenhum ou apenas um."
Ele escreve sobre como uma assessora de imprensa da MTV "me lembrou que eu coloquei danças sensuais e prostitutas na conta do cartão de crédito dela — um cartão 'gold' — e convenci o hotel a me dar dinheiro em espécie, tudo isso sem que ela soubesse".
O jornal The Observer descreveu a obra como "um livro de memórias escandaloso e libidinoso, mais bem escrito e divertido do que tantas outras autobiografias de celebridades que entulham as prateleiras".
A revista Heat comentou: "Ao terminar o livro, você sente que realmente conhece — e gosta — do verdadeiro Russell".
É difícil imaginar uma celebridade hoje escrevendo um livro de memórias no qual afirma que, na escola de artes cênicas, uma atriz famosa — que ele chega a nomear — "me beijou uma vez em um corredor" e que, por anos, ele dizia às pessoas: "Eu transei com ela e, quando digo transar, quero dizer que fiz sexo anal".
Mas tudo é relatado de um jeito brincalhão e revelador, por "um cara de Essex que gosta de mulheres com bumbuns grandes e seios fartos".
Diante de suas condutas abusivas, textos que antes eram celebrados por sua franqueza, honestidade — e por serem muito engraçados — agora revelam uma natureza completamente diferente.
As pessoas "tendem a confundir ironia e autoconsciência com sinceridade e confiabilidade", diz Ditum. "A ideia por trás das piadas que ele fazia, retratando-se como uma espécie de 'monstro sexual', era convencer o público de que, na vida real, ele não era, de fato, um monstro sexual."
Será que a normalização de seu comportamento permitiu que ele se escondesse à vista de todos? As empresas de mídia que o acolheram, os espaços de comédia que o promoveram e o público que ria de seu humor teriam sido, de alguma forma, cúmplices?
Um ex-executivo de televisão, que preferiu não ser identificado, explicou a lógica de seus pares da seguinte forma: "Você tem um apresentador carismático que parece ser extremamente talentoso — e você não quer perder isso."
"As mulheres que sofriam abusos não se sentiam encorajadas a denunciar; e, se alguma o fazia, era logo rotulada como 'problemática'. Na prática, elas não eram levadas a sério, porque ninguém queria perder a estrela. Esse era o mecanismo."
De fato, no processo envolvendo Brand, uma das denunciantes relatou ao tribunal que não denunciou o ocorrido por acreditar que não seria levada a sério, dado o "clima cultural da época, marcado por uma mentalidade machista e de camaradagem masculina". "Era a minha palavra contra a dele", ela afirmou.
'A marca foi habilitada'
Jo Caulfield, contemporânea de Brand no circuito de stand-up do início dos anos 2000, conta que, a princípio, o achava "extremamente encantador", mas observa que ele foi "encoberto" e que "ninguém ousa dizer nada a respeito".
"As pessoas têm gente ao seu redor — promotores, assistentes na TV. É uma questão de hierarquia na televisão. Se um assistente de produção júnior vai ao camarim dele e ele saca o pênis, a reação é algo como: 'ah, qual é, não faz escândalo'."
E, embora as normas de proteção e segurança tenham se tornado muito mais rigorosas em certos setores do mundo do entretenimento, ela afirma que "isso ainda acontece".
"Ninguém quer contrariar a estrela. Essa pessoa gera dinheiro, então, para quem está abaixo na cadeia hierárquica, é melhor ficar calado diante de qualquer mau comportamento", diz Caulfield.
Ao final de My Booky Wook, Brand escreve: "Cometi coisas terríveis ao longo deste livro... quer dizer, ao longo da minha vida".
Agora, entendemos exatamente o quão terríveis elas foram.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.