'Hantavírus nunca representou risco', diz infectologista francês após surto em navio
O surto da cepa Andes do hantavírus, que atingiu os passageiros do navio MV Hondius em abril, despertou o trauma da pandemia na França e exigiu uma resposta rápida das autoridades sanitárias para tranquilizar a opinião pública. Mas, de forma surpreendente, o assunto rapidamente foi relegado a segundo plano pelo governo francês e pela imprensa mundial.
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Para o infectologista francês Jean Paul Stahl, membro da SPIL (Sociedade Francesa de Infectologia), e professor de doenças infecciosas e tropicais no CHU (Centro Hospitalar Universitário) de Grenoble, esse esvaziamento se explica pela "precipitação" das autoridades francesas. Segundo ele, a propagação em massa do hantavírus é uma hipótese que poderia ter sido descartada desde o início. Houve "excesso" na comunicação, além de "perda de sangue-frio".
"É um vírus conhecido há décadas, alvo de publicações científicas há muito tempo. Há uma recomendação das autoridades sanitárias americanas, por exemplo, que data de 2007, e os cientistas conhecem perfeitamente esse vírus desde então. Nesse caso, não há nada de novo. Algumas pessoas se contaminaram, como outras se contaminam regularmente na América do Sul."
O navio de cruzeiro MV Hondius chegou nesta segunda-feira (18) ao porto de Roterdã, encerrando seu périplo de quase 50 dias, após uma etapa nas Ilhas Canárias para o desembarque dos passageiros e de parte da tripulação. Ele transportava cerca de 150 pessoas de 23 países, quando um foco de hantavírus foi detectado e relatado pela primeira vez, em 2 de maio, pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Até o momento, três passageiros morreram. Oito casos, que incluem essas mortes, foram confirmados, e dois são considerados possíveis, segundo a organização, que insiste, desde o início, que o risco é "limitado" para a população em geral.
Na França, uma mulher de 65 anos, repatriada do Hondius, sentiu-se mal no dia 10 de maio, testou positivo e foi internada em estado grave em Paris. As pessoas que estiveram em contato com contaminados foram hospitalizadas e colocadas em quarentena.
As medidas foram determinadas pelo governo francês em função do período de incubação do vírus, estimado em seis semanas. Mas elas são consideradas excessivas pelo infectologista francês. "Esse vírus só se transmite se a pessoa está doente. Sem sintomas, elas não são contagiosas", explica o especialista francês. "É preciso entender que todas essas decisões são políticas, não científicas", resume.
Alegando ter a obrigação de "transparência", a ministra francesa da Saúde, Stéphane Riss, organizou uma coletiva no dia 12 de maio, ao lado de um grupo de cientistas franceses, para esclarecer dúvidas sobre a contagiosidade, modos de transmissão e fatores de risco, deixando claro que muitas perguntas ainda permaneciam sem resposta. Nesse momento, a possível emergência de uma epidemia ainda era difícil de avaliar para o público leigo, e a mobilização das autoridades levantou questões.
Para o infectologista francês, a ansiedade da população é compreensível, mas o único elemento novo no recente surto de hantavírus é o contexto — ou seja, o fato de ele ter ocorrido dentro de um cruzeiro.
"É um bom enredo e uma história interessante para os jornais", avalia. "Imagine uma embarcação com um cadáver a bordo durante dez dias e um vírus circulando entre os passageiros."
As características da cepa dos Andes, explica, já antecipavam o cenário atual, sem disseminação. O vírus tem uma taxa baixa de transmissão, estimada em torno de 0,5%, que pode variar de acordo com as circunstâncias. Esse foi o caso do surto no MV Hondius, onde os contatos são próximos e ocorrem em espaços fechados.
Vírus não sofreu mutação
O vírus também não sofreu mutações, como mostraram recentemente os sequenciamentos de seu genoma feitos pelo Instituto Pasteur de Paris, que utilizou amostras de uma paciente contaminada. Essa é, aliás, uma característica conhecida dos hantavírus. A taxa de letalidade, em torno de 40%, também deve ser vista com cautela, pois depende da capacidade e da qualidade de atendimento, que, em áreas remotas da América do Sul, não são similares às dos países europeus.
"É uma infecção grave, conhecida há muito tempo, mas a questão não é essa. Nesse episódio, não havia nenhum elemento novo além do navio", reitera. "Houve, sem dúvida, uma ou duas transmissões dentro do barco, relacionadas às condições muito particulares que existem dentro de um navio e à promiscuidade inerente a esse meio de transporte. Isso é tudo, e não há nada de novo."
Segundo um comunicado publicado pelo Instituto Pasteur de Paris, não há tratamento específico disponível, embora um medicamento à base de ribavirina tenha demonstrado eficácia durante uma infecção por um tipo específico do hantavírus (vírus Hantaan). A transfusão de plasma humano contendo anticorpos contra o vírus Andes permitiu reduzir a mortalidade em pacientes infectados, mas o resultado ainda precisa ser confirmado em ensaios clínicos.
Os sintomas incluem febre, dores musculares e gastrointestinais, cansaço e podem evoluir para insuficiência respiratória aguda.
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