Os discos flexíveis - mais popularmente, disquetes - um dia já representaram um tecnologia de ponta, a possibilidade de expandir a memória, transferir arquivos, fazer backups. "Eu cresci jogando jogos que eram salvos em uma pilha de disquetes", relembra Nick Gentry, artista britânico que hoje usa as "relíquias" tecnológicas como tela para suas pinturas.
Britânico Nick Gentry usa disquetes que recebe de pessoas em todo o mundo como tela para pintar seus quadros. A "arte social feita a partir do obsoleto", como a define em entrevista por e-mail ao Terra, reflete sobre o consumismo advindo dos avanços tecnológicos e sobre como os objetos que são muito usados em um momento podem ser, no seguinte, por causa das novas criações, descartados. Aqui, Collective memory
Foto: nickgentry.co.uk / Divulgação
"Para mim, os disquetes marcam a guinada do mundo digital", conta, em entrevista ao Terra, por e-mail. Hoje, a maioria dos computadores sequer tem o leitor necessário para inserir os discos "três e meio", como eram chamados por causa da dimensão radial. "De alguma forma eu sempre estive às voltas com eles, e agora que os formatos de mídia física estão desaparecendo, imagino que é natural que eu considere fazer arte com disquetes", diz.
O londrino, que também já experimentou trabalhar com fitas VHS, cassetes e negativos fotográficos, conta que o artista brasileiro Vik Muniz é uma de suas inspirações para o trabalho. "Estive no Brasil há alguns anos e vi as obras dele pela primeira vez. Ele considera a escolha do suporte como (um ponto) central na criação da arte. Isso me fez perceber que a arte pode escapar o confinamento da tela branca", afirma.
Gentry coloca os disquetes uns ao lado dos outros, às vezes com etiqueta, às vezes sem, em outros casos com o que restou quando alguém tentou arrancá-las. Para formar a pupila dos retratos, algumas "peças" são viradas de trás para frente. A pintura, sobre a "tela tecnológica" construída com base de madeira, também não segue um critério fixo quanto a cobrir ou não os resquícios do que vai sob a tinta.
"Estou interessado na ideia de as coisas se tornarem obsoletas. Todos parecemos concordar que quando a tecnologia produz algo mais eficiente, os precursores que antes usávamos são rapidamente considerados inúteis. Ao criar o tecido para as pinturas com essas evidências do que passou, a arte se apropria da história consolidada", explica.
Além de versarem sobre o consumismo do mundo atual com o avanço tecnológico, as obras do inglês trazem também outro diferencial: o da arte construída socialmente. No início, os disquetes que usava eram seus, mas quando seu trabalho ficou conhecido, pessoas de todo o mundo agora enviam "pedaços de tela" - disquetes. "As pessoas querem se envolver em algo artístico e criativo, e gosto da ideia de que as pinturas podem ser, de algum modo, uma experiência compartilhada", opina. Questionado sobre como resumiria seu trabalho em uma frase, ele responde: "arte social feita a partir do obsoleto".
As obras do londrino já figuraram em exposições no Reino Unido e nos Estados Unidos, além de em cidades de outros países ao redor do mundo. E quando elas serão vistas no Brasil? "Isso vai acontecer, espero, em breve. Tenho boas memórias das pessoas e cultura muito criativa das ruas (do País)", adianta.
Os nomes das peças de Rodrig costumam também se relacionar à matéria-prima. Esta obra, que parece um sutiã, chama-se Supporting Her Data, ou Apoiando as Informações da Moça, em tradução livre
Foto: www.pcbcreations.com / Reprodução
O cubano Steve Rodrig é mais específico quanto às peças de eletrônicos que usa para compor seus trabalhos: escolhe sempre as placas de circuito. Aqui, Sea Turtle Searches for Deep Data (Tartaruga Marinha em Busca de Dados Profundos, em tradução livre) expressa um dos conceitos do artista, de dar "vida orgânica" às obras a partir dos materiais que usa
Foto: www.pcbcreations.com / Reprodução
Dishaw também tem entre suas obras de Junk Art (arte de lixo, em tradução livre), o Blazer Pentium, que imita um calçado comum e rendeu ao artista uma matéria na revista "PC World"
Foto: www.gabrieldishaw.com / Reprodução
As peças de Powell integram a coleção do museu Ripley's Believe it or Not, que também adquiriu a obra Fembot, escultura assinada por Gabriel Dishaw e que utiliza componentes de eletrônicos para moldar um corpo feminino
Foto: www.gabrieldishaw.com / Reprodução
Outra obra de Powell precisou de ainda mais teclas: 5.951. Com 1,21 m de largura e 1,83 m de altura, Space Shuttle (nave espacial, em tradução livre) tem 14 palavras "escondidas" em seu desenho
Foto: www.duzzleart.com / Reprodução
Além da brasileira, outros artistas usam sucata eletrônica para criar obras. Doug Powell e sua Arte Duzzle assinam o quadro Abe Lincoln, que retrata o ex-presidente norte-americano Abraham Lincoln e utiliza 4.081 teclas em sua composição
Foto: www.duzzleart.com / Reprodução
Esculturas e painéis, segundo Naná, são mais difíceis de vender nas feiras de artesanato em que expõe e comercializa suas obras, por isso a artista teve a ideia de criar objetos menores, como os acessórios. Aqui, painel Jardim de Fios, com partes de cabos e fontes
Foto: Divulgação
Além de quadros, a artista também cria tecnojoias, acessórios como anéis e colares também feitos com partes de equipamentos de tecnologias deixados para trás por seus antigos usuários
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Depois que começou a usar peças de eletrônicos para compor painéis e esculturas, Naná não parou mais. Aqui, escultura usa imãs de HD, uma velha webcam, fios de guitarra e peças de relógios.
Foto: Divulgação
Segundo a brasileira, depois do cabo da impressora ela decidiu abrir o computador e ficou maravilhada. As placas de circuito, diz Naná, parecia uma cidade vista de cima. Aqui, em Tecno Bikini, placa mãe e cabo flat compõe quadro, que concorreu ao Prêmio Rifiuti in Cerca d'Autore
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A artista brasileira Naná Hayne fez a primeira obra com componentes de sucata eletrônica há nove anos: Bocanet usava os fios coloridos que a encantaram quando, após um acesso de raiva, deu um puxão no cabo da impressora, que não funcionava