Pesquisadores buscam respostas para depressão pós-sexo
Pesquisadores buscam respostas para depressão pós-sexo
Como todos sabem, sexo é bom. Ou não? Nos últimos anos, conheci diversos pacientes para os quais o sexo não era apenas não prazeroso, mas parecia na verdade causar danos.
Um jovem paciente de vinte e poucos anos deu a seguinte descrição: "depois do sexo, me sinto literalmente dolorido e deprimido por cerca de um dia."
Fora isso, ele tinha uma saúde boa, tanto em termos médicos quanto psiquiátricos: bem resolvido, trabalhador, muitos amigos e família unida.
Acredite, eu poderia facilmente inventar uma explicação para isso. Ele tinha conflitos ocultos sobre sexo ou sentimentos ambivalentes em relação à sua parceira. Quem não tem?
Mas mesmo procurando muito por uma boa explicação, não consegui encontrar nenhuma. Embora seus sintomas e sofrimento fossem bastante reais, disse que ele não tinha um grande problema psiquiátrico que necessitasse de tratamento. Ele claramente ficou desapontado ao deixar meu consultório.
Não pensei muito sobre seu caso até um tempo depois, quando conheci outra paciente com uma reclamação parecida. Ela tinha 32 anos e passava por períodos de quatro a seis horas de depressão e irritabilidade intensas após um orgasmo, tanto sozinha quanto com um parceiro. Era tão desagradável que ela começava a evitar o sexo.
Recentemente, um colega psicanalista - um homem conhecido por sua habilidade em desvendar psicopatologias - me contatou sobre outro caso. Ele estava perplexo com um homem de 24 anos que ele considerava psiquiatricamente saudável, exceto por sua depressão intensa que durava horas após o sexo.
Não há nada estranho em sentir um pouco de tristeza após o prazer sexual. Como diz o ditado, após o sexo, todos os animais ficam tristes. Mas esses pacientes sofriam de disforia intensa que durava ou perturbava demais para ser tratada como mera infelicidade.
Mesmo assim, é difícil resistir à tentação de pensar em explicações psicológicas para o comportamento sexual. Psiquiatras gostam de brincar dizendo que tudo se relaciona ao sexo, menos o sexo em si, que é outra maneira de dizer que quase todo comportamento humano é permeado de significados sexuais ocultos.
Talvez, mas me perguntei se nesses casos, a responsável pela sensação terrível desses pacientes não poderia ser nada mais do que uma idiossincrasia na neurobiologia do sexo.
Pouco se sabe sobre o que ocorre no cérebro durante o sexo. Em 2005, o doutor Gert Holstege da Universidade de Groningen, Holanda, usou uma tomografia de emissão de pósitrons para examinar os cérebros de homens e mulheres durante orgasmos. Ele descobriu, entre outras mudanças, uma redução acentuada da atividade das amídalas cerebelosas, região do cérebro que processa estímulos de temor. Além de causar prazer, o sexo claramente reduz o medo e a ansiedade.
A antropóloga Helen E. Fisher, da Rutgers, usou ressonância magnética funcional para examinar mais amplamente o circuito neural do amor romântico. Ela mostrou a um grupo de homens e mulheres jovens que relataram estar apaixonados uma foto dos amados e de uma pessoa neutra. Os participantes tiveram uma ativação acentuada do circuito de recompensa de dopamina do cérebro em resposta ao amado ou amada, similar à resposta do cérebro a outras recompensas como dinheiro ou comida.
Será que alguns pacientes têm uma atividade inversa particularmente forte nas amídalas cerebelosas após o orgasmo que os fazem se sentir mal?
A literatura de pesquisa científica praticamente não cita a depressão induzida pelo sexo, mas uma busca no Google revelou diversos websites e salas de bate-papo sobre algo chamado tristeza pós-coito. Quem diria? Lá, li muitos relatos quase idênticos aos de meus pacientes, com menções a várias curas para a doença.
Quando médicos aplicam os tratamentos costumeiros em vão ou se encontram, como eu, em território desconhecido, com pouca idéia do que fazer, eles consideram os chamados tratamentos novos. Freqüentemente, tal tratamento é desenvolvido com base na investigação da biologia de sustentação da síndrome em questão. Isso pode envolver o uso de drogas aprovadas para situações em que são raramente prescritas.
Uma pista de um tratamento possível é que o Prozac e seus parentes, inibidores seletivos de recaptação de serotonina, comumente interferem no funcionamento sexual em certa medida. A serotonina é boa para o humor, mas em excesso no cérebro e na coluna espinhal, é decididamente ruim para o sexo.
Pensei que se pudesse modular a resposta sexual de meus pacientes, fazendo com que ela fosse menos intensa, isso aliviaria o estado emocional negativo decorrente. Em outras palavras, exploraria os efeitos colaterais geralmente indesejáveis dos inibidores seletivos de recaptação de serotonina para criar um possível efeito terapêutico.
Como qualquer um que já tomou uma dessas drogas é capaz de dizer, pode levar algumas semanas para um paciente se sentir melhor, mas os efeitos colaterais, como disfunção sexual, são geralmente imediatos. Para meus pacientes, isso se tornou uma vantagem. Após apenas duas semanas tomando esses inibidores, ambos disseram que embora o sexo fosse menos prazeroso, não era seguido de abalo emocional.
Agora, existem pelo menos três razões possíveis para meus pacientes terem se sentido melhor: a droga funcionou; teve um efeito placebo; ou houve uma flutuação ocasional de sintomas ¿ eles teriam melhorado mesmo se eu não tivesse feito nada.
Sugeri que parassem o tratamento e recomeçassem se o problema voltasse. Em ambos os casos, os sintomas voltaram e então foram abatidos pela droga - sugerindo, com base nessa amostra reconhecidamente pequena, que o efeito da droga era real.
Se esses pacientes me ensinaram algo, foi que os problemas sexuais nem sempre indicam problemas psicológicos profundos e obscuros. A verdade é que o órgão sexual mais importante dos humanos é de fato o cérebro. O sexo pode ser o mais físico dos atos, mas a depressão também pode ser física - às vezes não mais significante do que uma idiossincrasia da biologia.
Tradução: Amy Traduções