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Pesquisa

Cientistas descobrem espécies diferentes de orcas por genomas

28 abr 2010 - 10h00
(atualizado às 10h17)
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Imagine que você seja uma baleia assassina, ou orca, o nome pelo qual provavelmente preferiria ser conhecido. Você está pensando sobre o que comer no almoço, por exemplo, um belo e robusto pinguim, e avista, em uma placa de gelo que flutua por perto, uma vasta oferta de possíveis petiscos.

Com base em algumas das mudanças de ADN identificadas, estima-se que a primeira cisão tipológica na população de orcas, que separou a população migratória do norte do Pacífico dos demais animais, aconteceu cerca de 700 mil anos atrás
Com base em algumas das mudanças de ADN identificadas, estima-se que a primeira cisão tipológica na população de orcas, que separou a população migratória do norte do Pacífico dos demais animais, aconteceu cerca de 700 mil anos atrás
Foto: Getty Images

Infelizmente, os pinguins estão perfeitamente cientes de que você está rondando, e por isso não têm a intenção de entrar na água para um pouquinho de natação. Como persuadi-los a fazer o que você deseja?

Bem, uma ideia seria unir alguns colegas de seu bando de baleias assassinas, algumas centenas de metros abaixo da placa de gelo; depois, vocês todos nadariam em alta velocidade na direção da placa. As orcas podem atingir velocidades de mais de 50 km/h, e por isso uma fileira delas avançando em alta velocidade causa o movimento de grandes massas de água. Uma fração de segundo antes da colisão, a falange de obras poderia executar uma perfeita manobra de reversão; uma muralha de água varreria a placa de gelo e com isso arrastaria os surpresos pinguins para dentro do mar.

As orcas também empregam táticas de caça do mesmo nível de sofisticação para outras espécies de presas, tais como peixes, focas ou outras baleias. Mas cada uma das populações de orcas parece preferir um determinado tipo de presa. As orcas que costumam se alimentar de baleias podem nem mesmo reconhecer os peixes como alimento.

Essa especialização dietética e em termos de táticas de caça, combinada a pequenas diferenças registradas nos marcadores, há muito leva os biólogos marinhos a supor que poderiam estar observando diferentes espécies de orcas, e não um agrupamento único. Mas testes padronizados de ADN, que utilizam como referencial o sequenciamento de segmentos do genoma mitocôndrico, demonstraram que não existem divisões claras na população mundial de orcas, de acordo com uma equipe de biólogos marinhos liderada por Phillip Morin, do Serviço Nacional de Fauna Marinha dos Estados Unidos.

Agora, Morin e seus colegas por fim conseguiram decifrar o código das orcas. Utilizando métodos avançados de sequenciamento de ADN, que permitem que todo o genoma mitocôndrico seja decodificado, eles encontraram diferenças sistemáticas de ADN entre as diferentes populações do animal. As mitocôndrias são as organelas produtoras de energia nas células, e mantêm um genoma independente, separado do genoma principal abrigado no núcleo celular.

A equipe estudou orcas que habitam diversos nichos ecológicos em todo o mundo. Os biólogos definem cada um desses grupos como um ecotipo. Dois biólogos da Administração Nacional da Atmosfera e Oceano (NOAA) norte-americana, Robert Pitman e Paul Ensor, constataram em 2003 que existiam três ecotipos de orca no Oceano Antártico, um dos quais toma baleias minke como presas; um segundo grupo se especializa em focas e pinguins; e o terceiro come peixes. Outro ecotipo vive na porção leste do Atlântico Norte, e os três ecotipos na porção leste do Pacífico Norte são conhecidos como população migratória, residente e de alto mar.

Com base no comportamento dos ecotipos e nos novos dados de ADN, os dois grupos de orcas no Mar Antártico, que comem um peixe e outro focas, devem ser agora reconhecidos como espécies distintas, e o mesmo vale para as baleias migratórias do Pacífico Norte, concluiu a equipe de Morin em relatório publicado este mês pela revista "Genome Research". Os demais tipos devem ser considerados como subespécies, enquanto não surgirem novos dados, eles afirmaram.

As orcas são predadores que ocupam o alto de suas cadeias alimentares, de acordo com a classificação dos biólogos marinhos; isso significa que elas comem todos os demais animais e nenhum deles as come. Mas isso as torna vulneráveis a uma redução na população de presas e a produtos químicos artificiais que se acumulam à medida que galgam a cadeia alimentar. No momento, todas as orcas são consideradas como parte de uma mesma espécie a Orcinus orca, mas caso as recomendações da equipe de Morin vierem a ser acatadas, os conservacionistas terão de se esforçar para garantir que cada uma das novas espécies separadas seja protegida.

Produtos químicos usados para retardar chamas já foram identificados, em concentrações preocupantes, em alguns grupos de orcas. "Há muito a dizer em favor de enviarmos um alerta no sentido de que essa espécie altamente carismática está sob risco direto de danos causados por alguns dos poluentes que lançamos ao mar", disse Morin.

As diferenças de ADN entre os grupos de orcas não haviam sido identificadas anteriormente porque o processo de especiação aconteceu em período bastante recente, em termos de escala de tempo evolutivo. Com base em algumas das mudanças de ADN identificadas, Morin estima que a primeira cisão tipológica na população de orcas, que separou a população migratória do norte do Pacífico dos demais animais, aconteceu cerca de 700 mil anos atrás.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
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