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Pesquisa

Cientista busca explicação para ambientes calmantes

3 jul 2009 - 08h44
(atualizado às 10h47)
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Dra. Abigail Zuger

Digamos que você viva em um ambiente abaixo do ideal. O vizinho de cima gosta de mudar as posições dos móveis no meio da noite. O cachorro do apartamento ao lado se sente entediado e solitário, e é barulhento. O proprietário do animal grita com ele. A sala de sua casa tem a forma errada, as janelas estão na posição errada e a cor das paredes, que parecia tão criativa e elegante cinco anos atrás, já deu nos nervos. Por isso, você decide se mudar. E enquanto desfruta do silêncio e da simetria, dos vizinhos agradáveis, da vista deslumbrante e das paredes aconchegantemente brancas da casa nova, sente que algo se liga - ou desliga - em sua cabeça. Não importa: você se sente bem.

O que está sendo ligado ou desligado, e por quê? Trata-se das questões enganosamente simples que Esther Sternberg se esforça por responder em ¿Healing Spaces¿ (espaços que curam), um livro sobre as influências do ambiente sobre o cérebro e o corpo, bem como sobre o curso das doenças mentais e físicas.

Sternberg, conhecida neurologista e imunologista do Instituto Nacional de Saúde Mental, decidiu encarar uma tarefa gigantesca, que incorpora arquitetura, estética, psicologia, neurobiologia, fisiologia e aromaterapia, entre muitas outras disciplinas. Ela não consegue levar a tarefa a bom termo, pelo menos não completamente, mas o esforço empreendido em para livro pelo menos define os parâmetros mais complexos do que talvez continue a ser um dos maiores mistérios das ciências médicas.

Afinal, se o cérebro é capaz de causar sofrimento a uma pessoa na sala da casa em que ela vive, imagine o quanto as coisas poderiam ser piores em um quarto comum de hospital, cercado de ruídos, confusão, maus cheiros e um cenário nada atraente. Seria de imaginar que uma disciplina científica tão competente no estudo do cérebro o seria igualmente na descoberta de como atenuar esse sofrimento.

Mas os circuitos neurais que respondem pela tranquilidade mental, por mais primais que seja, são mesmo assim espantosamente complexos. Além disso, a ciência que descreve a conexão entre a estética e o bem-estar físico - a infame conexão entre corpo e mente - é tanto controversa quanto nada firme, e a maioria dos tratamentos ainda não foram avaliados de maneira rigorosa.

Tudo começa pelos cinco sentidos, e é por eles que Sternberg também principia. "Se você fosse um paciente em um hospital, despertando de uma cirurgia, o que preferiria contemplar ao abrir os olhos?", ela pergunta ¿"um prado arborizado ou uma parede de tijolos?"

Você talvez imagine que saiba a resposta certa, e o motivo para que o saiba, mas considere todas as variáveis que os cientistas precisam levar em conta ao analisar sua decisão. Entre elas estão a posição dos tijolos e das árvores (porções diferentes do cérebro lidam com a visão de perto e a distante), e as cores envolvidas (nossa percepção do verde e do amarelo foi a primeira a se desenvolver - será por isso que gostamos do verde das plantas?). Além disso, cada paciente pode ter respostas condicionadas diferentes a árvores e tijolos.

Além disso, será que uma vista para um jardim realmente ajuda na cura de uma incisão abdominal? Alguns poucos estudos sugerem que isso pode acontecer, mas as descobertas podem ser generalizadas para todos os pacientes, todos os tijolos, todas as árvores? E quanto a pacientes míopes, paredes de tijolos ensolaradas e árvores murchas?

E isso é só o começo. Som e cheiro também devem ser considerados, e igualmente o senso de lugar, de orientação espacial e direção, uma experiência composta equilibrada com tamanha precisão que perder o rumo em um lugar escuro e desconhecido (como o porão de um hospital a caminho de uma radiografia) pode resultar no pior tipo de estresse, mas caminhar lenta e deliberadamente por um labirinto em um jardim é uma receita de tranquilidade.

Pensar em todos os grandes cérebros que refletiram sobre esses fenômenos é causa de humildade. Walt Disney foi provavelmente o mais bem sucedido na manipulação em larga escala do ambiente para animar e acalmar a mente.

Até mesmo as atrações mais assustadoras da Disneylândia - Sternberg analisa o brinquedo Pirates of the Caribbean de uma perspectiva científica - foram cuidadosamente calculadas para acionar os comutadores da mente na direção correta.

E por isso uma nova casa de repouso tem uma rua principal em modo Disney, para acalmar os neurônios deteriorados de seus moradores. E daí para Lourdes, na França, é apenas um pequeno passo neurológico. O centro francês das curas miraculosas apresenta uma série de indícios ambientais que podem preparar os cérebros mais sintonizados a esse método para um estado de êxtase, o que libera uma série de poderosos mediadores neuroquímicos que bem poderiam aliviar o sofrimento. Sternberg delineia, dessa forma, uma espécie de biologia do miraculoso, que, como ela se apressa a apontar, "não reduz a maravilha do fenômeno".

A Missão da Academia da Neurociência para a Arquitetura, cujas conferências forneceram material fascinante a Sternberg, é a de recriar Lourdes em forma médica. No passado, éramos melhores quanto a isso do que somos agora. A ciência médica do século XX, com seu medo mortal de germes, interferiu. Mas em dado momento "esterilidade" deixou de ser qualidade e passou a ser defeito, e agora estamos de novo tentando recapturar parte da grandeza e beleza dos hospitais do passado, com janelas, jardins e vistas.

Sternberg não é uma escritora talentosa, e sua narrativa jamais se afasta de uma neutralidade que tem por objetivo evitar ofensas aos cientistas ou aos místicos da Nova Era. Ela ignora alguns dos mais fascinantes paradoxos em seu campo (uma enfermaria de hospital com 30 leitos pode oferecer mais privacidade e serenidade do que um quarto semiprivado; aquilo que serve de aromaterapia a uma pessoa serve de emético a outra).

Ainda assim, quem quer que um dia tenha sentido uma paz inexplicável ao chegar a um ambiente agradável encontrará ao menos as sementes de uma explicação no livro de Sternberg.

The New York Times
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