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Homem influenciou evolução das espécies, dizem pesquisadores

12 fev 2009 - 16h09
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De acordo com os sábios que publicaram os editos bíblicos do Deuteronômio, se encontrar um ninho de pássaro, você pode pegar os ovos e os filhotes, mas precisa deixar a mãe pássaro. "Deixe a represa," diz a versão do rei James.

Alguns consideram esse conselho tão estranho quanto outras restrições do Deuteronômio, como a proibição de roupas com tecido combinado de linho e lã. Ele vai contra a tradição da pescaria de jogar os pequenos de volta para que possam crescer, privilegiando os machos maiores na caça de troféus.

Mas agora alguns biólogos começam a pensar que o Deuteronômio estava certo. Eles vêem essa abordagem como um remédio para um problema ambiental crescente - a predação humana faz com que as espécies-alvo evoluam para se reproduzir precocemente e em tamanhos menores, para seu benefício de curto prazo, mas prejudicando a espécie no longo prazo.

"Humanos são predadores assustadoramente eficientes," disse J. Stanley Cobb, especialista em lagostas que se aposentou recentemente da Universidade de Rhode Island. "Eles impõem a mortalidade de formas específicas, em estágios particulares do ciclo vital. Se acreditamos que a seleção natural moldou as características da história da vida de uma espécie, então precisamos acreditar que um diferente regime de mortalidade afetará essa história."

Depois de descobrirem o fogo, os benefícios da caça conjunta e a generosidade da agricultura, os humanos têm transformado a paisagem natural, fazendo com que plantas e animais evoluam em resposta.

Desde há talvez 12 mil anos, quando as pessoas no que é hoje o Oriente Médio começaram a transformar lobos em cachorros, os humanos têm domesticado espécies animais tão variadas quanto vacas e gatos. Eles iniciaram ou reforçaram mudanças que transformaram algumas ervas em cultivos como arroz e milho. Caçadores da Idade da Pedra podem até mesmo ter contribuído para a extinção de criaturas como os mamutes-lanosos.

Em um artigo na edição de sexta-feira da revista especializada Science, pesquisadores liderados por Jeff Feder, biólogo de Notre Dame, sustentam que a introdução de maçãs na América do Norte no século 17 acabou fazendo com que algumas moscas especializadas em frutas de espinheiros passassem a diversificar suas atividades tendo como alvo as maçãs. Em meados dos anos 1800, dizem os cientistas, os dois grupos de moscas se tornaram geneticamente diferentes. E isso acabou modificando as vespas parasitas que se alimentam dessas moscas.

"É uma bela demonstração de como a especiação inicial de um organismo abre uma oportunidade para outras espécies," disse Feder.

O comportamento humano também afetou a evolução humana. Povos de pastoreio desenvolveram a habilidade de digerir leite depois de adultos através de mudanças que propiciaram uma vantagem definitiva de sobrevivência em tempos difíceis.

Mas esses eram os dias de baixa tecnologia. Desde o início da Revolução Industrial, a habilidade coletiva da humanidade de transformar o mundo foi abastecida por combustíveis fósseis e multiplicada por máquinas. Não raro, os resultados foram mudanças evolucionárias em ritmo acelerado e em grande escala.

Pesquisadores há muito tempo sabem que bactérias evoluem para se esquivar de antibióticos e que parasitas, como os que causam a malária, se adaptam às drogas contra a doença.

Mais recentemente, pesquisadores relataram que o bacalhau, pescado intensamente por décadas na Nova Inglaterra e nas províncias marítimas do Canadá, começou a se reproduzir mais jovem e em menor tamanho. Outros cientistas relataram mudanças similares em espécies tão diversas quanto carneiro selvagem, caribu e o ginseng.

A mudança aumenta as chances de reprodução antes deles serem mortos. Mas quando se fala de peixes, a mudança é nociva no longo prazo, de acordo com Paul Paquet, cientista ambiental da Universidade de Calgary. As ovas de peixes mais jovens não parecem ser tão robustas quanto às dos mais maduros.

"É uma evolução forçada," disse. "Não está funcionando em sua vantagem."

Oficiais de pesca em Maine, procurando preservar a lucrativa pesca da lagosta, avisam que agora os pescadores devem liberar não apenas lagostas pequenas, mas também aquelas com mais de 12,7 centímetros.

"Essa lei existe para proteger os reprodutores," conta aos seus consumidores a maior distribuidora estadual do produto, Atwood Lobster Co., em seu site. "Grandes lagostas são capazes de se reproduzir em número maior e com descendência mais saudável e os pescadores de lagosta do Maine se dedicam à proteção desse estoque de proles."

Como outros Estados produtores de lagosta, o Maine também exige que pescadores que pegarem fêmeas com ovos as marquem com um pequeno corte em V e as joguem de volta. Qualquer um que pegar uma lagosta marcada precisa jogá-la de volta ao mar.

Mas os efeitos desse tipo de regulação podem ser difíceis de prever. Em Rhode Island, disse Cobb, um programa de marcação começou há cerca de uma década, após um derramamento de petróleo matar muitas lagostas.

Inicialmente, ele disse, o programa foi tão bem-sucedido que "a relação entre os sexos se desequilibrou totalmente," a ponto dos pesquisadores estimarem que 75% das lagostas do Estado eram fêmeas, uma situação que pode trabalhar contra o sucesso reprodutivo.

"A preocupação está na limitação do esperma," disse, acrescentando que um problema similar foi visto em siris-azuis. O resultado final foi mais ovos de lagosta, mas nenhum filhote de lagosta nas águas do Estado.

Em muitas áreas do Ocidente, conservacionistas esperam manter a diversidade genética de veados, ursos e outras espécies construindo túneis e passarelas que os permitam acessar toda a extensão de seu território, mesmo se este estiver dividido por rodovias.

Mas é comum que os animais já tenham se adaptado a seus novos habitats humanizados. Veados prosperam com os arbustos dos subúrbios. Ursos-negros em Nevada jantam tão bem nas latas e caçambas de lixo que têm filhotes mais saudáveis que seus primos do campo.

Em outro artigo na Science da semana passada, pesquisadores de Stanford e outros locais relataram que lobos e coiotes com pelagem escura podem ter ganhado originariamente seu gene de pêlo escuro por se reproduzirem com seus parentes humanizados, os cachorros.

Os puristas conservacionistas normalmente repudiam a mistura de animais selvagens e domesticados, mas com a redução de habitats naturais, os pesquisadores disseram que a introdução de genes de animais domesticados pode ajudar esses lobos e coiotes.

À medida que o clima esquenta, plantas nas Montanhas Rochosas estão indo para altitudes mais elevadas, onde é mais fresco. Em algumas áreas da Nova Inglaterra, pesquisadores relatam que árvores e arbustos florescem uma ou duas semanas mais cedo que a um século atrás. E a paisagem também parece estar mudando nas piscinas de maré de Monterey Bay, onde plantas e animais adaptados à água quente começam a aparecer.

Às vezes, relatam os pesquisadores, espécies invasoras podem acrescentar riqueza biológica a um habitat. Mas esse tipo de mudança pode ser um problema para organizações de conservação que compram terras para preservar um ecossistema particular, apenas para descobrir que ele está mudando a partir de dentro.

Além disso, quando plantas, pássaros e insetos evoluem em conjunto, sincronizando sua incubação, florescimento ou padrões migratórios, mudanças individuais podem levar a filhotes que não são chocados a tempo de jantar seus insetos favoritos, ou ao aparecimento de flores antes da chegada dos pássaros necessários para polinizá-las.

Os humanos também criaram tecnologias voltadas para sua própria modificação. Mas pelo menos até agora, "as realizações foram mínimas," disse Francisco Alaya, biólogo evolucionário da Universidade da Califórnia, Irvine. Ele citou tratamentos para doenças como diabetes tipo 1, que permitem que crianças que morreriam cedo cresçam e passem seus defeitos de saúde a seus descendentes.

Ele prevê que ainda vai demorar muito até que geneticistas consigam manipular genes para melhorar a espécie humana, especialmente porque a influência genética sobre traços desejáveis, como alta inteligência ou comportamento ético, é extremamente complexa e associada a fatores ambientais. Os próprios traços, ele disse, são difíceis de definir.

De qualquer forma, ele disse, "se começarmos a mudar genes, quantas pessoas serão alteradas? Uma centena? Um milhar? Um milhão? Ainda assim, será uma fração bem pequena."

Ayala considera mais interessante observar a forma pela qual os humanos aperfeiçoaram seu alcance como espécie pela evolução cultural.

"Ainda somos biologicamente adaptados a climas tropicais," disse. "Entretanto, povoamos continentes da Terra sem mudar nossa fisiologia. Apenas usamos roupas, moradias, aquecimento e ar-condicionado. Viajamos oceanos sem ter escamas e voamos sem ter desenvolvido asas."

Traduções: Amy Traduções

The New York Times
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